terça-feira, 19 de maio de 2020

Pesquisa revela dificuldades dos LGBTs com família, saúde mental e trabalho durante a pandemia

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Foto: Pablo Alvarenga / Agência O Globo

Não bastassem o peso do estigma e preconceito já vivenciados pelas LGBTs, os impactos do novo coronavírus submetem essa parcela da população a novos obstáculos. O isolamento social, que impacta a sociedade como um todo, tem gerado repercussões ainda mais agudas entre lésbicas, gays, bissexuais, transexuais e travestis. É o que revela uma pesquisa inédita sobre os impactos e especificidades da pandemia e afastamento social nesta população, historicamente mais exposto a vulnerabilidades.

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Realizado pelo coletivo #VoteLGBT com a participação de pesquisadores da UFMG e Unicamp, o levantamento consultou 10 mil pessoas em todos os estados da Federação. Os entrevistados apresentam maiores índices de desemprego e problemas de saúde mental se comparados ao restante da população. Igualmente preocupantes são os dados coletados sobre tensões no convívio familiar durante a pandemia. A pesquisa também avaliou o desempenho do presidente da República e governadores no combate do coronavírus.

Segundo os entrevistados, lidar com problemas de saúde mental durante o isolamento social é a maior preocupação. Foi esse o maior temor registrado entre 44% das lésbicas; 34% dos gays; 47% das pessoas bissexuais e pansexuais; e 42% das transexuais. Os LGBTs já conviviam com esses males em maior frequência do que as demais pessoas. Segundo os dados apresentados pela Associação Americana de Psiquiatria, esse grupo populacional tem mais que o dobro de chances de apresentarem alguma condição de saúde mental durante a vida, quando comparados a seus pares não-LGBTs. 

O estudo do #VoteLGBT revelou que 28% dos entrevistados já receberam diagnóstico prévio de depressão. A marca é quase quatro vezes maior do registrado entre a população brasileira, segundo dados da Pesquisa Nacional de Saúde (2013). 

“As taxas de depressão entre pessoas LGBT são mais elevadas do que na população geral devido ao estigma social e ao preconceito vivenciado por nós, LGBTs, ao longo da vida. Nesse momento de pandemia, essas questões são extremamente importantes pois afetam diretamente a capacidade de se prevenir do contágio e de buscar tratamento em caso de infecção pelo novo coronavírus”, avalia o demógrafo da UFMG Samuel Silva, um dos pesquisadores envolvidos no trabalho.

Problemas no convívio familiar foram citados como maior dificuldade durante o isolamento social por 10% dos LGBTs. Desses, um em cada dois estão na faixa etária entre 15 e 24 anos, o que demonstra algumas das dificuldades enfrentadas pelos jovens em seu próprio ambiente residencial. Adequação às novas regras de convívio social são o segundo fator de maior preocupação entre gays (19%) e lésbicas (14%). 

O fator financeiro também impacta diretamente essa população, pois 20,7% dos entrevistados disseram não possuir renda. Outro dado preocupante é que 21,6% dos LGBTs informaram estar desempregados, enquanto o índice entre o restante da população é de 12,2%, segundo a pesquisa PNAD Contínua divulgada pelo IBGE em abril.

“A taxa de desemprego entre LGBTs tende a ser mais elevada que da população em geral, pois a inserção no mercado trabalho formal é dificultada por diversos fatores, entre eles o preconceito”, justifica a demógrafa Fernanda De Lena, pesquisadora da Unicamp que também atua na pesquisa.

Avaliação do Presidente e Governadores 

Os pesquisadores também questionaram os entrevistados sobre o desempenho dos gestores públicos no combate à pandemia. Para 97% das pessoas LGBTs a performance do presidente Jair Bolsonaro é péssima. A mesma pergunta foi feita sobre os governadores: 10% dos entrevistados consideraram péssimo o desempenho dos chefes do poder executivo estaduais. O isolamento social é defendido pela imensa maioria dos respondentes - 93% deles avaliam que o mais importante nesse momento é deixar todas as pessoas em casa para impedir o avanço do coronavírus.

Pesquisa Completa 

A pesquisa foi formada por um questionário com diversas perguntas objetivas sobre temas como acesso a serviços de saúde; questões sócio-demográficas; emprego, trabalho e renda; percepção e impactos do coronavírus; acesso à informação e avaliação da atuação dos gestores públicos durante a pandemia. A participação dos respondentes foi totalmente anônima. A divulgação completa dos dados levantados pela pesquisa será feita dia 28 de junho, data do aniversário da revolta de Stonewall, marco histórico da luta pelos direitos LGBTs. 

O coletivo #VoteLGBT espera que o levantamento possa contribuir para a formulação e aprimoramento de políticas públicas direcionadas à população LGBT nos níveis municipais, estaduais e federal.

Sobre o Vote LGBT

#VoteLGBT é um coletivo que desde 2014 busca aumentar a representatividade de LGBT+ em todos os espaços, principalmente na política.

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