domingo, 10 de maio de 2020

Parte 2 - Entrevista excluZiva com o diretor de cinema Thales Corrêa

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Chegou a hora de você conferir a segunda parte da entrevista com o diretor de cinema Thales Corrêa, responsável pelo filme "Nos Becos de São Francisco", lançado em 2020 e que também está disponível no YouTube e mostra a história de dois amigos gays durante uma noite na cidade de São Francisco (Estado Unidos). 

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Nesta segunda parte, de uma conversa super agradável, o diretor Thales Corrêa revelou algumas curiosidades das filmagens, suas inspirações, seu envolvimento com a trilha sonora e respondeu se o filme terá ou não uma continuação. 

Muza - Em alguns momentos do filme, os personagens falam que os brasileiros são vistos como "barulhentos" nos Estados Unidos ou São Francisco,  porque falam alto ou talvez até sejam “escandalosos”. É isso mesmo?

Thales Corrêa - Sim. É bem isso mesmo, mas é uma piada que vem de situações. Dentro do contexto do filme, os personagens acabam de pular o portão de um estacionamento, bêbados, no final da noite. Geralmente, os Americanos são mais contidos com suas emoções, e os Brasileiros, assim como latinos, já vivem com mais intensidade. A gente se expressa com muita paixão, quando estamos felizes, ou triste tudo é exagerado. O que para o Americano é meio estranho. Claro que é uma generalização, existem brasileiros mais calmos, e Americanos mais expansivos. 

Conte-nos alguma curiosidade das gravações. Algo que tenha sido engraçado ou mesmo marcante.

No roteiro tínhamos uma outra introdução, com uma "house party". Filmamos essa cena em um dia muito complicado. Meu produtor não estava feliz com a locação e decidiu arrumar outra apartamento para filmarmos. Tivemos que voltar um mês depois, mas aí um ator já não podia, tivemos que contratar outro. Quando conseguimos colocar tudo em ordem com o novo ator e pronto para a refilmagem, o nosso sonoplasta teve um problema, e chegou com 3 horas de atraso. Nesse meio tempo, o dono da casa, completamente bêbado, começou a fazer uma festa e dar em cima de todos os nossos atores. A princípio era engraçado e a galera se divertia, mas depois começou a ficar demais. Alguns se sentiram incomodados, e eu fiquei no meio daquilo tentando proteger meu time, mas ao mesmo tempo não aborrecer o dono da locação. Quando o sonoplasta chegou, o anfitrião ainda gritava e fazia a maior festa. Fazer ele ficar quieto e manter um clima descontraído pra todo mundo foi complicado. No final do dia, o sonoplasta achou seu carro com as janelas quebradas e conteúdos roubados. Tudo isso para, meses depois, ter essa cena completamente cortada na ilha de edição. (risos).  A cena excluída, acabou entrando como extra do DVD.  


Qual inspiração você gostaria que o filme deixasse nas pessoas?

A se valorizarem mais. A prestar atenção aos sinais e não se deixar iludir por coisas frívolas, em vários setores da vida. O filme tem como temática os aplicativos de relacionamentos e como eles estão mudando nossas relações pessoais. O universo LGBTQ+ é ideal para explorar o assunto, pois é uma comunidade que já usa aplicativos por mais tempo. Mas vejo muitos héteros passando por mesmo problemas, com o frequente uso de aplicativos para conhecer pessoas. O filme também explora questões específicas do universo gay e com isso espero que possa trazer um conforto para as pessoas que passam por questões semelhantes, que elas percebam que não há nada de errado com elas. O personagem central passa por uma realização e decide se colocar na frente, e valorizar o que é bom pra si mesmo. Então, o filme traz sim uma mensagem positiva, apesar de um final não tão convencional como o típico “final feliz” que estamos acostumados.

O filme termina com uma vibe de "continua". Podemos esperar uma continuação?

O final tem essa vibe, apesar de fecharmos o arco temático da história. Como queríamos fazer um filme mais realístico, fizemos um final que se assemelha a episódios da nossa vida: fechamos um capítulo, mas a vida não acabou. Mas por enquanto esse é o final daquela história, sem previsões de continuação. 

Eu gostei muito da trilha sonora, em especial a música do final "Never Let". Qual foi o seu envolvimento com a trilha ou foi algo exclusivo do Same K, que é quem assina toda a trilha?

 Ai que bom que você tocou na trilha. Minha parte favorita. Eu produzi o álbum e escrevi a maioria das letras. Same K compôs as músicas e chefiou tudo. Quando estávamos filmando, sabíamos que as nossas músicas deveriam ser algo que tivesse um som mais natural, e não soasse  tão cinematográfico. Grande parte do filme se passa dentro de boates e clubes onde toca muita música eletrônica. O que é uma coisa muito presente no universo LGBTQ+ e que eu adoro. Então, no nosso filme a gente queria fazer uma parceria com um DJ de verdade. É aí que entra Same K. Ele é um DJ e produtor musical russo, conhecido por suas faixas progressivas de house. Ele escreve músicas para gigantes internacionais da música eletrônica como Armin van Buuren e Above & Beyond. Assinado pelas maiores gravadoras internacionais de música eletrônica, como Anjunabeats e Statement (Armada Music). Eu comecei a trabalhar com o Same K remotamente, entre seu estúdio na Rússia. Ele compunha as músicas e eu produzia daqui de Los Angeles. Tivemos parcerias com vários outros cantores e músicos, alguns deles brasileiros como o filho do ator Anderson Muller, Thiago Muller, (que canta na faixa que você mencionou, “Never Let”), Ingmar Prinz e Staphanie Siqueira.  Entre os americanos de destaque estão o Diimond Meeks, assinado por Cee Lo Green, e  também Terrell Carter - membro do elenco do Empire, série musical de sucesso da FOX, junto com uma variedade de outros artistas talentosos. O álbum completo do filme foi lançado em todas as plataformas digitais


Fale-me algumas inspirações/referências que você tem do mundo da arte? Filmes, diretores, atores, cantores...o que inspira você?

Eu sou bem eclético quanto a referência. No cinema o primeiro da minha cabeça são as irmãs trans Wachowskis, que criaram a trilogia do Matrix. Pra jogar pra todos os lados, vai, adoro Lady Gaga. Acho a carreira dela incrível, sou muito fã. Assim como Shakira e U2. (risos). Amo Mallu Magalhães. Voltando pra cinema americano… Spike Lee, Robert Rodriguez, Iñárritu, Steven Soderbergh, Lena Dunham, Isa Rae.  Brasileiro temos José Padilha, Fernando Meireles, Hector Babenco. Pixote (o filme brasileiro) é um clássico, muito bem feito, precursor de Cidade de Deus, um dos filmes Brasileiros mais conhecidos aqui fora, e o que leva ao Tropa de Elite. Cinema nacional tem uma trajetória linda. Dos mais contemporâneos, Miguel Falabella, responsável por diversas produções na tv, e acabou de lançar um filme maravilhoso chamado Veneza. Também admiro muito a carreira de Fábio Porchat, ele é bem ousado, e muito versátil. De literatura Brasileira estou viciado em Machado de Assis, aproveitando essa quarentena pra voltar aos clássicos. Posso ficar horas aqui citando nomes de todos lados (risos).

Qual o futuro ou próximos planos da sua carreira? Vi no seu canal do YouTube um Piloto de "Unpolitically Correct". É uma série?

Ah que legal que você checou o piloto no YouTube! “Unpolitically Correct” é uma web-série que eu fiz com a trupe de comédia Second City, aqui de Los Angeles. A gente filmou a piloto e estava pronto pra filmar uma temporada antes da cidade inteira entrar em quarentena e cancelar todas as produções. O piloto está lá no meu canal do Youtube em inglês, mas já temos todos episódios escritos da séries que vai conter no total 6 episódios. Quando voltarmos e conseguirmos finalizar as filmagens, colocarei legendas em português pra galera do Brasil poder conferir o que a gente anda aprontando por aqui, Impoliticamente Correto.

É muito gratificante ver que o meu trabalho (o filme "Nos Becos de São Francisco") está se conectando com meus conterrâneos e com pessoas do mundo inteiro, e que quem assiste consegue se ver na tela e dentro da história. Algo tão pessoal, que está unificando pessoas de lugares tão diferentes. Mesmo falado em outras línguas, na essência somos todos um só. É um filme sobre um grupo de amigos, então, é muito legal ver as pessoas se reunindo para o assistir entre amigos, criando uma experiência única. 

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