domingo, 3 de maio de 2020

Entrevista excluZiva com o diretor de cinema Thales Corrêa

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Divulgamos aqui no Muza há pouco tempo o filme "Nos Becos de São Francisco", lançado em 2020 e que também está disponível no YouTube e mostra a história de dois amigos gays durante uma noite na cidade de São Francisco (Estado Unidos). A gente gostou tanto do filme que fomos atrás do diretor bater um papo com ele e é isso que você vai poder conferir nesta entrevista excluZiva. 

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Na conversa super agradável que tivemos com o diretor de cinema Thales Corrêa, que também atuou no filme e escreveu a história do longa, descobrimos que ele é mineiro como a gente e também gosta das divas pop Lady Gaga e Shakira. A entrevista foi tão legal que precisamos dividir em duas partes, porque tem muita coisa boa  para você ler

Nesta primeira parte, sabemos as inspirações para o filme "Nos becos de São Francisco" (Bathroom Stalls & Parking Lots), que já recebeu prêmios no circuito de cinema LGBT dos Estados Unidos; os clichês no universo LGBT e também um pouco mais da história e carreira do próprio Thales, que saiu de uma cidade do interior de Minas para realizar o sonho de trabalhar com cinema. 

MUZA -  Há quanto tempo mora nos Estados Unidos e por que mudou de país?
Thales Correa - Há quase 10 anos. O tempo voa.... quis estudar cinema nos Estados Unidos e por adorar o cinema americano. Ao sair da faculdade comecei a trabalhar e fazer meus próprios filmes. Assim começou minha experiência com cinema. Na época estava descobrindo tudo muito devagar e me descobrindo também. Eu amo o Brasil, mas o tempo foi passando e eu fui me acostumando com a vida por aqui.

Você é natural de uma cidade do interior de Minas Gerais, Campo Belo. Você ainda leva algo do "menino do interior" contigo? E por ser do interior, a sexualidade para você foi algo complicado ao longo da vida? 
Eu tinha mais algo do "menino do interior" quando cheguei aqui. O que não me favoreceu muito e me colocou em vários apuros. No interior todo mundo meio que se conhece, todo mundo é criado junto, em turma. Eu cresci naquele meio confiando muito nas pessoas, vim de uma família muito humilde. Quando comecei a fazer filmes, não achava que alguém poderia ter algum interesse no que eu estava fazendo.... então, sempre recebia todos que se aproximavam dos meus projetos, confiando de olhos fechados, o que acabou me ferrando algumas vezes. Mas como diz Kelly Key, "criança cresceu!" (risos). Mudei muito, hoje o menino do interior já tem muita casca grossa e sabe se virar bem na cidade grande, mas sempre com aquele bolo e café na mesa. 

Além de "Nos Becos de São Francisco", você já escreveu e dirigiu outros dois filmes (Milvio e Pais & Filhos/Parents - curtas metragens). Como surgiu a paixão e o trabalho com o Cinema?
Sabia que queria fazer algo na área de entretenimento desde novo, mas não conhecia muito. Na cidade onde cresci, não tinha nem cinema, o acesso à cultura era difícil. Só assistia pela TV, novelas da globo e filmes alugados em VHS, mas sempre ficava fascinado quando conseguia ver filmes, e observar as história se desdobrando na minha frente e causando uma emoção. Filmes mudaram minha vida e a forma de pensar. Quando tinha 16 anos, fui em um cinema em Juiz de Fora, sozinho, e assisti “Brokeback Mountain” e saí da sala completamente modificado, até hoje me arrepio ao assistir aquele filme, mas não tinha noção nenhuma de como era feito um filme, até começar a estudar aqui nos Estados Unidos. Eu me apaixonei ainda mais por cinema depois de ter estudado os clássicos.  


"Nos Becos..." é o seu primeiro longa e já foi premiado no circuito LGBT dos Estados Unidos. O que motivou fazer um longa e não um curta como os anteriores? Aliás, a temática do Milvio é bem diferente de "Nos Becos…”.
Sim. Pow que legal que você assistiu Milvio. Milvio é um curta sobre uma criança que usa um robô de telepresença para frequentar a escola. É completamente diferente de “Nos Becos.” Acho que eu ainda não estou preparado para me estacionar em apenas um estilo. Gosto de fazer coisas diferentes e explorar outros mundos. Acho que todo estudante de cinema sonha em fazer um longa e eu era um deles. Eu já tinha escrito outros roteiros de longa-metragem que não saíram do papel por motivos aleatórios. Eu já estava correndo atrás de fazer um longa por um tempo. É uma boa pergunta... porque na época que eu estava na escola de cinema aqui, ter longa-metragem era visto como início da carreira de um cineasta e curtas apenas como projetos experimentais. Hoje na era do YouTube e streaming, não sei se aplica tanto. Tem muita gente que faz carreira com projetos de curta duração, mas eu gosto da linguagem cinematográfica. Tenho estudado roteirização pra cinema por um tempo. Então, pra mim é um desafio tentar conseguir achar a fórmula certa. Apesar de também escrever projetos curtos, vocês ainda vão ver muito mais longas meus por aí. 

"Nos Becos..." além de dirigir e roteirizar, você também atua. Como foi essa experiência?
Foi bem desafiador. Eu sempre fui muito confortável na posição de diretor e roteirista. Mas estar na frente da câmera, atuando ao mesmo tempo que dirigindo, arrancou-me bravamente da minha zona de conforto. E por ser meu primeiro longa, a responsabilidade foi ainda maior. O projeto é grande envolve muitas pessoas. Mas a ideia de fazer esse filme era para ser vulnerável e tocar nas partes mais íntimas, então, estar nessa posição fazia sentido para o projeto. Eu aprendi demasiadamente. É muito difícil conseguir separar o momento de dirigir e atuar. Atuação é uma arte muito delicada. Muitas vezes estava dentro da cena e me pegava distraído preocupado com alguma coisa técnica, ou se o ângulo da lente estava correto, mas como estava em frente a câmera, não podia parar pra conferir. É um pouco frustrante. E dirigir outros atores estando na mesma cena é bem confuso. Como a gente improvisava bastante, em vários momentos meus companheiros de cena me perguntava se o que eu estava falando era nota de direção ou estava apenas atuando (risos).

Qual foi a inspiração para "Nos Becos..."? Algo da sua vida pessoal? Existe algo biográfico ali?
O filme é completamente pessoal. O roteiro veio a partir de uma conversa com meu co-autor Izzy Palazinni. Todas as histórias mostradas ali, fizeram parte ou da minha vida, ou da de Izzy, ou das nossas juntos. O arco central com Totah, foi baseado em algo que passei de verdade. Cenas no banheiro, no estacionamento, no Grindr... quem nunca? Temos uma cena em uma festa de cuecas, no qual é uma festa real que acontece em São Francisco. Os anfitriões eram amigos do Izzy, e quando dissemos que queríamos filmá-los, ele adorou e fez uma festa de verdade para o filme. Eu e Izzy divagamos muito sobre nossas frustrações com aplicativos de encontro e sobre nossas experiências de namoro no mundo gay aqui nos Estados Unidos. Sempre tivemos uma linguagem despojada sobre o assunto, mas também passamos por sérios problemas. A partir daí, decidimos escrever um roteiro que fosse o mais próximo da nossa realidade possível. Por isso o filme não tem um final feliz tão concreto e também não fica apenas de um lado da questão, pois é exatamente como nos sentimos. 

Eu como gay, reconheci o universo gay/LGBT nos personagens. Qual o cuidado você teve para que essas representações não fossem ou caíssem no “clichê"?
Pra ser bem sincero, nós queríamos fazer uma pintura dos tipos de pessoas que são presentes na nossas próprias vidas. Tanto que, vários nomes dos personagens, são nomes reais de pessoas que conhecemos, e queríamos representá-los na tela. Apesar da lente do cinema dar uma amplificada em tudo, também, na vida real, o universo da balada (somado ao álcool e drogas) desperta uma personalidade mais caricata em algumas pessoas. Em modo de festa agimos diferente de que quando estamos, digamos, no trabalho. O personagem Donnie por exemplo, é bem extravagante, o que se encaixaria no tipo gay clichê (ele mesmo reconhece isso no próprio filme), mas tem momentos que ele está calmo e se mostra mais sombrio.  Daí vemos que seu personagem vai muito além do clichê, que é bem mais dinâmico. O que não o impede ele de se divertir, dando pinta na balada, como vários de nós gay fazemos, e com muito orgulho.

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