quarta-feira, 11 de dezembro de 2019

Entrevista excluZiva com o duo português Fado Bicha

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No último dia de novembro de 2019, Belo Horizonte foi palco para o primeiro show no Brasil do duo português Fado Bicha, que estão revolucionando a cena cultural de Portugal com sua arte vanguarda LGBT, que reinventa o tradicional Fado português com elementos queer. 

O Muza esteve presente no show em BH e além de se encantar com a performance e talento da dupla realizou uma entrevista excluZiva com Lila Fadista, persona de Tiago Lila nos palcos, e e João Caçador, guitarrista, que juntos, são o Fado Bicha.

A conversa foi tão boa que eles se sentiram à vontade para revelar com excluZividade ao Muza o nome do primeiro disco do Fado Bicha, que será lançado em 2020, mas além disso, a dupla também falou sobre as alegrias e as adversidades em serem pioneiros ao unir a cultura queer ao tradicional Fado, revelando assim, que, infelizmente, não é só o idioma que une Brasil e Portugal. Confira! 

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Muza:: Essa é a primeira vez que vocês se apresentam no Brasil (João já havia visitado o Brasil antes, Lila não). Somos de países diferentes, de realidades diferentes, mas de alguma forma o idioma nos conecta. Essa apresentação tem um significado diferente para vocês?

Fado Bicha::
Lila Fadista:: Eu diria que sim, tem um significado muito especial. A gente já se apresentou fora de Portugal, na Espanha, França... o que eu posso dizer é que tocar em outro país é sempre diferente, algo especial. Mas tocar no Brasil é algo muito particular para nós, por muitos motivos: a língua em comum, muitas referências que nós temos na música, na arte, (questões) sociais do Brasil... acompanhamos muito de perto o processo, o progresso e retrocesso no Brasil e temos também uma história que nos liga que não é muito feliz (a história da colonização)... e que também faz parte da nossa premissa como cidadão, quando cantamos, como a música da Elza ("Mulher do Fim do Mundo"). É tentar com que essa herança, passe e nos complete, como cidadãos e como ativistas. Que essa herança seja digerida, propriamente digerida. 

Muza:: O show em BH foi o primeiro no Brasil. Qual foi a impressão de vocês? Como esperavam a reação do público?

Lila:: Eu tinha muito medo, o João não tinha tanto.

João Caçador:: Eu tinha muita expectativa, até pela quantidade de brasileiros que moram em Lisboa, que mudaram há pouco tempo, e reagiram muito bem. Foi uma apresentação muito positiva que nós fizemos (em BH), espero que tenha sido uma amostra do Brasil e atendeu completamente: senti uma energia muito forte, uma emoção, que contagia. Uma conexão com aquilo que nós fazemos e de nós para o público (e vice-versa).

E medo? você (Lila) falou que estava com medo. Medo de quê?

Lila:: sei lá... tem sempre algo... eu acho que aqui no Brasil a cultura Queer é muito forte, principalmente na música. As pessoas já estão habituadas há muito tempo. Em Portugal... é claro que misturar o Fado, vai ser sempre uma coisa nova, de certa forma. Mas, em Portugal, só pelo fato de fazer música queer, como nós fazemos, mesmo que não fosse Fado, seria algo, como dizer... algo diferente. Aqui no Brasil não é isso, há uma cultura muito forte e ainda bem que há e também de resistência.

Vocês tem essa impressão do Brasil? De que aqui a cultura queer é forte?

Lila:: Sim e é uma grande fonte de inspiração para nós, através de muitos artistas.

João:: Elza, Johnny Hooker, Linn da Quebrada, Letrux... e isso é uma inspiração muito grande.

Lila:: (sobre os medos...) primeiro se seríamos entendidos, não só a língua, mas tudo: a estética, a música.. é diferente né? Não tinha bem noção se as pessoas que moram aqui iriam conseguir entender mais do que a língua, a linguagem e... sei lá, um medo geral se as pessoas iriam gostar.


Vocês citaram alguns artistas, como a Elza (eles cantam no show a música "Mulher do Fim do Mundo" e chegaram a lançar um videoclipe para a música), e vocês também cantaram no show uma canção mexicana que o Caetano Veloso cantou em um dos filmes do Almodóvar ("Cucurrucucu Paloma" no filme "Fale com ela"). No caso da Elza, como que foi essa conexão, que rendeu até um videoclipe de vocês ("Banzo + Mulher do fim do mundo")?

João:: Nós dois ouvimos o disco "A Mulher do fim do mundo" (de 2015) com muita atenção e muitas vezes. Também estávamos lendo o livro "Deus Dará: Sete Dias...", da Alexandra Lucas Coelho (autora portuguesa que fala sobre o Rio de Janeiro Contemporâneo e os 500 anos de história entre Brasil e Portugal). Para nós fez muito sentido a autocrítica; a nossa branquitude; a forma como em Portugal é feita a leitura sobre o período colonial; sobre a perspectiva que se fala e se ensina na escola; sobre o que aprendemos da história; o racismo; o fato da coerção; os lugares de fala; o público com mais visibilidade... e, assim, quisemos trazer isso àquelas quatro bailarinas que aparecem no videoclipe. Elas ocuparam o salão nobre da Prefeitura de Lisboa, um lugar onde nas paredes só há quadros de homens brancos, do tempo colonial... e essas meninas ocuparem esse lugar, mesmo que de forma simbólica e metafórica. Esse lugar que, ainda hoje, mesmo 500 anos depois, elas (as meninas representadas no videoclipe) continuam não ocupando. 

Uma possível interpretação do final do vídeo né? Quando vocês tiram a fenda/faixa dos olhos e elas desaparecem.

Lila:: Isso.

O Fado Bicha é recente, surgiu em 2017. Só agora, em 2019, saiu o primeiro single ("O Namorico do André", lançado em abril). Está acontecendo em Lisboa um movimento queer relacionado ao Fado... ou vocês são pioneiros?

Lila: Somos pioneiros e únicos, por enquanto.

E quais os desafios que vocês encontram nisso? Imagino que sejam diversos, mas como é ser pioneiro em algo tão tradicional como o fado?

Lila:: Olha, houve muito... como falar... muita resistência... e foi periódica. Quando fizemos a página no Facebook, alguns meses depois, foi um momento de grande embate... muitas pessoas, particularmente da comunidade do Fado, nos mandaram muitas mensagens e comentários de ódio.. isso (ainda) acontece de vez em quando. Quando temos um momento de exposição. Por exemplo, quando saiu o vídeo de "Lisboa, não sejas racista" e "O Namorico do André", recebemos mensagens racistas e poucos dias depois a página do Facebook foi cancelada, houveram muitas denúncias contra a página. Levou algumas semanas para voltar ao ar. Sempre muita resistência... o lado da consequência de mexer com algo (o Fado) tão conservador e ligado tão forte a uma ideia da identidade nacional, de uma tradição ... são coisas que "não se misturam" com nossas "identidades sujas". Em uma questão muito prática, outro exemplo, nós fizemos muitos fados já de outras pessoas, como todos intérpretes fazem, e obtivemos dificuldades em conseguir autorizações para cantar ou gravar.


Vocês estão relatando esses momentos de dificuldades, mas vocês encontram ou têm apoio da cena cultural de Lisboa? Ou realmente é algo bem complicado?

João:: Mais do que apoio, temos um suporte muito grande da comunidade, das pessoas que gostam da nossa música. Mas também tem acontecido muita oportunidade acadêmica, nas universidades. Temos recebido muitos convites para fazermos muitas palestras. É uma valorização acadêmica, científica, das Ciências Sociais para o nosso trabalho  e tem impactado dessa forma.

Ao lidar com todas essas adversidades e sendo piorneiros, como é o processo de composição e criação de vocês? Flui naturalmente ou existem "reuniões de pauta" para compor ou montar o espetáculo. Como é que se desenvolve?

Lila:: Há várias metodologias diferentes. Nós começamos muito por pegar fados que já existiam e fazer adaptações. Manter algumas coisas e mudar outras. Era uma lógica da ocupação mesmo: pegar aqueles fados, alterá-los de uma forma impensável e fazer quase uma ocupação física de um patrimônio. Fizemos algumas dessas, mas eu gosto muito de escrever e, então, eu comecei a fazer algumas letras completas para melodias já existentes, como "Lisboa, Não Sejas Racista", que era uma música francesa mas uma letra completamente nova. Ou ainda, uma letra original, que nos leva a lugares interessantes, como aquela sobre traição que cantamos no show. Outras músicas fazemos aquilo que falei (no show) da Arqueologia LGBT do Fado, no qual tivemos que buscar histórias que foram escritas por pessoas LGBT que "passaram entre pingo da chuva", como a gente fala, que ficaram meio que enterradas e que nós desenterramos e mostramos. É por aí.. e agora estamos para gravar um álbum.

Vocês chegaram a citar alguns artistas queer do Brasil, que reconhecem, admiram, mas... O Brasil também é o país que mais mata LGBT no mundo, de acordo com registros, e temos um presidente declaradamente homofóbico. Ser LGBT no Brasil não é fácil, é uma resistência diária... Como é a realidade LGBT em Portugal na percepção de vocês? Se difere muito da nossa ou não?

João:: Obviamente, não é fácil ser LGBT em Lisboa, Portugal, mas não é a dificuldade de ser no Brasil: a mortalidade, a violência física e que mata... não acontece dessa forma em Portugal. Nós costumamos dizer que é uma cultura mais "do meio", mediana, não é tão agressiva. Ou seja, não apoia muito, mas também não tem o ato de violência física real e direta. A homofobia que existe é mais implícita e aquela de dificuldade em ser uma pessoa não normativa, seja ela qual for na sociedade... difere muito também de onde: existem muitos Portugais dentro de Portugal. Mesmo em Lisboa existem muitas regiões diferentes. De uma forma geral, não é algo muito bem aceito, não é fácil ser LGBT, mesmo aquelas pessoas que tem uma vida mais normativa na comunidade tem um sofrimento muito grande ligado a isso.

Lila:: Assim como no Brasil, foram criados ao longo do tempo, principalmente nas duas últimas décadas talvez, passos, uma união e luta e resistência para organizações fazerem trabalhos muitos bons. O que já acontece há várias décadas, e a consequência disso são os avanços do Legislativo dos direitos LGBT em Portugal: temos o casamento, a adoção... é bem avançado nos direitos LGBT, mas na realidade continua havendo violência nas escolas, nas famílias... mas eu posso dizer, na minha opinião, que tem havido um progresso, eu sinto um progresso nas últimas décadas... a experiência que eu tive de bullying na escola, por ser bixa, é algo que continua a acontecer hoje em dia nas escolas, mas ao mesmo tempo, cada vez mais, pessoas mais jovens estão mais espertas e mais sensibilizados para isso. Sei lá, há dois anos, por exemplo, em uma escola no norte Portugal, houve uma situação com duas alunas, que estavam a namorar na escola. Elas foram chamadas para conversar com o diretor e cerca de 200 alunos, com seus 15 anos, faltaram as aulas, a escola parou e fizeram um flashmob, em uma ação com cantos e faixas...  e isso me emocionou muito, porque na minha época era algo impensável. Obviamente, isso não acontece todos os dias, mas é um sinal que a geração mais jovem está esperta para nossa realidade de uma forma diferente.


Vocês já disseram sobre vocês mesmos, enquanto Fado Bicha: “Sabemos porque estamos aqui e que marca queremos deixar, que caminho queremos desenvolver”. Então... queria que vocês tentassem me responder, porque vocês estão aqui e que mensagem é essa que querem passar?

Lila:: Que pergunta linda!

João:: Por uma necessidade que nós tínhamos, de criarmos um espaço, uma experiência muito pessoal, de experimentação de gênero e identidade também. Mais do que criar um espaço é uma espécie de existir na cultura normativa em Portugal, não havendo cultura queer tanto na música, no cinema, no teatro, nas escolas, nas famílias.. era como se toda uma comunidade não existisse, não é representada nas mídias... nós quisemos criar esse espaço para que nós pudéssemos existir por inteiro e podermos criar e expressarmos.

Lila:: O projeto, olhando retrospectivamente, foi acrescentando muitas camadas. No início eu comecei sozinho, nós ainda não nos conhecíamos e mesmo quando o João se juntou era no início muito sobre cantar, uma explosão pessoal, muitas outras coisas eu não imaginei. Começamos em uma bar muito pequeno em Lisboa e eu nunca imaginei vir ao Brasil cantar... e no início era algo muito pessoal, eu queria muito cantar fado, experimentar cantando fado, mas sabia que não seria possível em um meio tradicional e, assim, eu teria que me esconder dentro de uma "capa de homem", que eu não sou.... e, então, criei esse espaço e era muita inspiração. O João veio e a medida que fomos crescendo foram acrescentando sempre camadas de visibilidade, política e pessoais também... e é esse caminho que nós queremos continuar fazendo.

E sobre o nome Fado Bicha, que é ótimo por sinal. Qual a inspiração? (Em Portugal eles também usam bicha, dentre ouras expressões locais, para se referirem aos homossexuais masculinos).

João:: Bicha tem uma outra camada, além do homem homossexual, é o homem afeminado, com jeitos e expressões de mulher. Andar, falar e gesticular...  e acarreta essa outra camada de discriminação... o homem quando veste socialmente o lugar da mulher ele é punido por isso. E isso foi algo interessante de criar, juntar: o Fado, que é algo tão associado ao conversador, com Bicha, que é uma mistura explosiva.

Lila:: Há um poeta português muito importante do século 20, que se chamava Ary dos Santos (José Carlos Pereira Ary dos Santos). Ele era homossexual, morreu nos anos 80 e tinha uma frase muito famosa dele nos anos 70. Ele tinha um irmão, mais novo, que era heterossexual, dizem que ele era muito exuberante... há uma citação dele, de que o irmão estava desgostoso com o namoro dele com uma mulher, no que Ary teria dito ao irmão: "o seu pai era bicha, seu irmão é bicha, você também é bicha" (risos)

O Fado Bicha ainda vai fazer mais dois shows no Brasil. Depois de BH e São Paulo, agora é a vez do Rio de Janeiro, e com gosto de despedida: 

11/12 (quarta-feira) - Pub Panqss (Rio de Janeiro)

14/12 (sábado) - Canto da Carambola (Rio de Janeiro). 

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Aviso: o vídeo abaixo contêm cenas de nudez e sexo