segunda-feira, 7 de outubro de 2019

ExcluZivo: entrevista com o ator e escritor Thiago Cazado

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O ator e escritor Thiago Cazado esteve recentemente em Belo Horizonte para exibição do filme "Primos", mais uma produção LGBT da Maca Filmes & Entretenimento, que ele possui ao lado do diretor Mauro Carvalho. O Muza esteve presente e bateu um papo excluZivo com Thiago sobre o filme, nudez, Madonna e dificuldades com produção de temática LGBT no Brasil. Confira!

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Muza: Vamos começar do fim (risos). Nos créditos finais do filme Primos, na parte do agradecimento aparece o nome da Madonna. Fiquei pensando "será que perdi alguma referência...". Por que o agradecimento à Madonna?

Thiago Cazado: Sim. Nós somos fãs da Madonna, eu e o Mauro (diretor do filme). É algo que temos em comum. Na nossa amizade, inclusive, a Madonna foi muito importante porque a gente falava muito dela. Sou fã da Madonna desde que era criança, que ela escandalizada o mundo inteiro. Minha mãe não deixava eu ver os clipes e eu dizia "eu quero ver o clipe dela" (risos). Eu comprei a fitinha branca ou bege (fita K7) do disco "Like A Prayer". Sou super fã da Madona. A gente agradece ela sempre em nossos filmes. Ela é um ícone e ajudou muito a comunidade (LGBT) quando quase ninguém tinha coragem de falar essas coisas, ela falava. É  a nossa gratidão.

Qual foi a inspiração para o filme Primos, já que você também escreve (Thiago também é roteirista), além de atuar?

Eu já tinha feito outros curtas e um longa ("Sobre Nós" - 2016) Eu gosto de coisas divertidas e já fiz trabalhos assim. Eu vejo muito o que o público fala, pede... eu acompanho. Eu vi muita gente dizendo assim "Poxa, filme LGBT é sempre triste, termina com alguma tragédia..." aí eu pensei em um próximo fazer algo assim. Já tinha uns dois anos que me veio essa história, essa ideia... as histórias vem em minha cabeça de maneira muito aleatória, mas eu pego aquilo do aleatório e vou colocando coisas que eu quero passar, mensagens que acho legais... tem uma responsabilidade em fazer um filme que vai pra tanta gente... aí eu quis fazer um filme que unisse as pessoas. O pessoal da igreja, da família.. ainda mais agora que está falando tanto sobre A Família Tradicional e tal. Aí, eu coloquei ali uma família mas ligada pelo amor, quebrando muitos os esteriótipos. A gente sempre acha que uma pessoa muito religiosa vai ser sempre muito preconceituosa. Não é o caso, a Tia Lurdes (personagem do filme) é do amor mesmo. O Primo mesmo (personagem), quando ele chega, um ex-presidiário, a gente julga, você acha que vai dar problema pra caramba e na verdade não, ele une as pessoas, é uma pessoa do bem. A gente vai quebrando tantas cosias no filme... eu embarquei nessa ideia quando comecei a escrever o filme. "Quer saber? Eu vou unir todo mundo", pensei. Eu não quero colocar uma lupa em nenhum preconceito, eu quero a positividade. O Primo veio muito nessa ideia, de trazer um filme divertido, para que as pessoas pudessem sair bem da sala, sair rindo. Então, eu me imbuí de todas essas ideias e aí saiu o "Primo".

Thiago Cazado e Paulo Sousa em cena do filme Primos.

Você também é conhecido por trabalhos no teatro (em 2016 veio à BH com o espetáculo "Enquanto todos dormem" e em 2018 com "O Sétimo Andar"). É diferente o seu processo de criação para teatro e filme/audiovisual? Ou a ideia surge igual de depois você "adapta"?

É muito diferente o processo. O processo do cinema é totalmente diferente do teatro, totalmente, é outra cabeça. Como eu dirijo, atuo e também sou roteirista então, na minha cabeça... eu comecei fazendo teatro, eu escrevia, atuava e dirigia meus espetáculos. Eu aprendi a ocupar todos os cargos importantes e ainda fluir, acontecer.. mas dentro da cabeça é esquizofrenia mesmo (risos). Até aqui vai o roteirista, agora morre o roteirista. Agora é o ator, é outra área, outra região. Tem que separar tudo. No cinema o editor salva um filme, com uma boa edição. Já teve caso de editar as falas de um ator porque a dicção dele não ficou muito boa. Dá pra gente mexer muito. No teatro não dá. É aquela noite, você entrou em cena, não tem corte, é um take só, é um plano aberto... e você tem que se fazer entender da última pessoa da plateia para a primeira. A voz, o corpo, o tempo de duração, tudo que tem que acontecer naquele tempo.. é outro mecanismo.

A inspiração da ideia, do tema você já direciona para o teatro ou filme. Tipo... "Hum.. isso é bom para uma peça, um curta..."?

Muitas vezes chegam muitas histórias. É uma boa história, mas as vezes não está pronta. Aí, vai avaliando se vale um filme ou uma peça... se não vale, aí você deixa ali e espera vir mais ideias que justifiquem fazer um filme ou uma peça. Primeiro vem várias ideias na minha mente, na minha cabeça e depois eu vou vendo se ela rende. Um filme, por exemplo, que eu não tenho uma verba para fazer é mais legal eu adaptar para um teatro que é um mundo mais lúdico. O público entra com a imaginação também, não só eu. Eu posso fazer muita coisa no teatro. No cinema fica mais podado com a questão financeira, o que eu posso fazer com X (de orçamento). No teatro a gente brinca, um saco de lixo pode virar um barco e o público gosta, mas no cinema não tem como, que ter o barco mesmo (risos).

Suas histórias tem inspiração na temática LGBT. É difícil fazer arte com essa temática? É um desafio para você?

Primeiramente, só é possível por causa da internet hoje. Eu encontrei o meu público lá. Sem a internet seria muito mais difícil produzir. Para todos os artistas: cinema, música... facilitou muito com a internet, encontrar um público primeiro. A gente (Ele e o Mauro, com a Maca Filmes & Entretenimento) já está um tempo fazendo tudo de maneira independente e já se acostumou e gosta muito de ser independente. Não tem que abrir mão de nada, justificar nada para ninguém... então, a gente coloca o que a gente quer. Afinal, sai do nosso bolso. A gente gosta e se prepara para trabalhar dessa forma. É a realidade minha e do Mauro. A gente conseguiu se estruturar para isso. Muitos artistas não tem essa possibilidade. Tem grandes artistas por aí que precisam de apoio, apoio do Governo e é difícil. Com esse Governo piorou sobre verbas com temática LGBT. É triste. Existe sim uma dificuldade muito grande, ainda mais para essa questão da verba. Mas eu acho que tem público. A sala tinha bastante gente (se referindo a sessão de "Primos" em BH). Os artistas que não tem patrocínio, vai o meu recado: força, se esforcem, acreditem, faz aquela vaquinha, usa a criatividade e produzam, porque a gente precisa.

Thiago Cazado e Paulo Sousa em outra cena do filme Primos

No próprio filme Primos, você parece lidar com a nudez de uma maneira muito tranquila. Como é isso para você? Sabemos que é algo que o ator está sujeito. Mas como você também escreve poderia tirar esse tipo de cena, por exemplo. Para muitas pessoas ainda é tabu.

Olha, como eu sou do teatro mesmo, já estou acostumado a sempre estar pelado, nos camarins e tudo. Tem que tirar a roupa rápido, para trocar.. não tem muito tempo...então já cresci assim. A minha primeira diretora de teatro, eu tinha 11 anos, não vou falar o nome (risos) mas ela já tirava a roupa na nossa frente. Eu, quando fiquei nu pela primeira vez, foi em um espetáculo meu, que eu escrevei em 2012. Naquele momento foi a única vez que eu fiquei desconfortável, depois eu aprendi. Um amigo meu assistiu e falou: "Olha, se for para ficar nu assim, escondendo, não fique". Aí eu entendi. Era uma cena tão bonita, que só a nudez iria passar a mensagem. Eu entendi, assim, que eu não posso deixar os meus medos atrapalharem o que o filme, o que a arte precisa para emplacar, chegar ao que precisa. Aí, desde então, aquilo entrou na minha cabeça e não mais saiu. Hoje é muito fácil eu ficar pelado. A gente nasceu assim. A gente vive de roupa o tempo todo, mas a gente não nasceu assim. Acho legal lembrar que a nudez, o sexo são presentes na nossa vida. Somos seres humanos. Somo sexuados. Então é importante as pessoas se acostumarem com a nudez e não ficar em pânico. Em todos os meus filmes (aparecer pelado) já virou uma marca. Eu brinco com o pessoal que me segue, que eu fiz uma promessa que vou ficar pelado em todos os meus filmes (risos).

Qual o próximo projeto? Já tem um longa? Algo que pode adiantar para gente?

Eita!Tem um próximo filme já. Já tem roteiro. Já estamos produzindo. Já tem data para começar a gravar, março ou abril (2020), mas só vai vir a público, provavelmente, no final de 2020 ou início de 2021. É um filme também muito divertido. Dá uma vontade de falar... mas se eu falar, o pessoal vai fazer um link imediato e se acontecer um imprevisto e eu não fizer, vai ser uma cobrança eterna (risos). Mas o público vai gostar muito, tenho certeza.

A gente falou no início sobre a Madonna, você tem outras inspirações.... O que te inspira?

Nossa, muita coisa me inspira. Tanta coisa que eu nem tenho noção às vezes. A Madonna me inspira desde criança, porque eu acho ela corajosa pra caramba. E eu acho que o artista tem que ser corajoso. Todos os artistas corajosos eu gosto. Eu admiro muita gente mesmo. Tanta gente, tantos artistas. A vida me inspira. A vida real me inspira. Tanta mensagem de fãs, que eu chamo de amigos, que recebo no Instagram... eu me emociono, choro. Fico emocionado. Me dá inspiração, força para fazer mais.


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