sábado, 13 de julho de 2019

ExcluZivo: Saiba como foi a 1ª Parada do Orgulho LGBT de Belo Horizonte

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Essa foto é da Parada do Orgulho LGBT de 2010, a primeira foi em 1998

No próximo domingo, 14 de julho, amanhã, acontece a 22ª Parada do Orgulho LGBT de Belo Horizonte. Mas você sabe com foi a 1ª  Parada do Orgulho LGBT de BH? O Muza traz para você, com excluZividade, um registro baseado em relatos e pesquisa

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Leia abaixo, na íntegra e com excluZividade, o registro feito por Carlos Magno que é jornalista, secretário de Movimentos Sociais e Formação LGBT e está envolvindo com a miliância LGBT há 20 anos, sobretudo em Belo Horizonte e Minas Gerais.  

Dos guetos às ruas: a passeata pela liberdade 

Era inicio da tarde do dia 28 de junho de 1998, o sol estava esplêndido, nem parecia um domingo de inverno. A tradicional Praça Sete, na área central da capital mineira, estava mais tranquila do que o habitual, por volta das 14h, chegava um pequeno grupo de mulheres lésbicas, carregavam panfletos, cartazes e uma faixa de tecido enrolada, elas ficaram no quarteirão da Rua Rio de Janeiro. Havia ainda três jovens que enchiam balões coloridos e um gay que segurava e balançava uma bandeira do arco-íris. 

Soraya Menezes, uma mulher negra, sindicalista e uma das pioneiras da militância lésbica em Minas Gerais, aguardava ansiosamente a chegada do carro-som do sindicato dos metalúrgicos, para iniciar agitação na concentração da 1ª Parada do Orgulho Homossexual de Belo Horizonte. Soraya e Suely Menezes, que tinham casado recentemente, coordenavam também um pequeno grupo de mulheres, orientavam os voluntários e procuravam animar a turma, pois o sucesso do dia era ainda incerto.

Apesar dos artistas, que trabalhavam nas boites e bares GLS, terem feito uma intensa divulgação da Parada, a repercussão não era tão positiva, boa parte da comunidade LGBT não acreditava e, possivelmente, nem entendiam a importância de um evento público para celebra o orgulho homossexual na capital mineira. Muitos gays, lésbicas e travestis, que eram acostumados com locais fechados e nos guetos, desconfiavam da novidade, afirmavam que tal manifestação só era possível em São Paulo e Rio de Janeiro. E BH não estava preparada para tal ousadia e era uma loucura dos militantes, diziam. 

Os membros da Associação Mineira de gays, Lésbicas e Simpatizante-AMGLS, comandada pelo militante Itamar Santos,  chegaram fantasiados de personagens do Walt Disney, eles estavam vestidos de Mikey, Minnie, Pato Donald, Pluto,  entre outros, pois tinham receio de sofrer retaliação e discriminação, apesar de serem militantes não tinham visibilidade e não sabiam qual seria reação da população belorizontina. Além deles, alguns gays chegavam e não se aproximavam do local que estava a militância, preferiram ficar no outro lado da Praça em frente ao Cine Brasil.


Assim que chegou carro-som do sindicato, Soraya Menezes assume o comando e fez um discurso denunciando a violência, preconceito e os assassinatos dos homossexuais. Experiente na condução de passeatas e uma grande oradora, Soraya conseguiu agitar e puxar várias palavras de ordem e uma delas era: é legal ser homossexual. Aos poucos, os sorrisos começavam aparecer nos rostos dos presentes. Em seguida começou tocar a música I Will Survive da Glória Gaynor, que era uma espécie de hino LGBT na época. 

Num determinado momento, quatro drags queens surgem e à frente estava o artista da noite belorizontino, Carlinhos Brasil. Era uma cena inédita, as drags caminhavam pelo centro da cidade e de dia. Elas se dirigiram para o pirulito da Praça Sete, monumento que fica no cruzamento das avenidas Amazonas e Afonso Pena, faziam performances, dançavam e brincavam com as pessoas que passavam pelo local. O clima já era de festa, mas a praça tinha cerca de 50 participantes e a saída da Parada era uma dúvida.

Por volta de 15h30, chegavam sete homens e duas mulheres, que eram metalúrgicos e militantes do PSTU, eles vinham de um seminário para participar da manifestação dos homossexuais. Soraya Menezes gritou ao microfone: a parada vai sair! As lésbicas abrem uma faixa que tinha a frase do Caetano Veloso: “Cada um sabe a dor e delicia de ser o que é...”. E se localizaram na frente, em seguida, os personagens do Walt Disney e as drags ocupavam a Afonso Pena e fecharam o transito. As pessoas iniciaram a caminhada, cantando e dançando, os hits de Gloria Gaynor e Dannar Summer eram os mais tocados, alias foram repetidos inúmeras vezes. O pequeno grupo de manifestantes caminharam pela Av. Afonso Pena, subiram a Rua da Bahia e desceram a Espírito Santo e retornaram para Praça Sete.

Ao chegarem, por volta das 18h, a emoção tomou conta dos militantes e participantes. Abraços, beijos e choros encerravam aquele momento. O clima era de emoção e dever cumprido, mas algo a mais tinha acontecido. Não era uma simples manifestação em defesa dos homossexuais.  Era um ato de ousadia e coragem. A construção da primeira Parada do Orgulho LGBT de BH significou colocar na arena pública o orgulho de uma comunidade que estava até então aprisionada nos guetos. Nascia ali a mais tradicional e fantástica manifestação LGBTI de Minas Gerais. 

Hoje depois de mais de duas décadas, muitos caminhos e descaminhos foram trilhados, mas a Parada nunca deixou de acontecer. Tornou-se comum ver milhares de LGBTI  ocuparem as principais ruas da capital mineira, com muita música, alegria, colorido e arte para celebrar o orgulho de ser o que é. A Parada do Orgulho LGBT de BH é hoje uma manifestação potente, democrática e popular que traz a diversidade, liberdade e afirmação de direito. Só nos resta agradecer aquelas heroínas e heróis que iniciaram tudo isso. Obrigado! 

Por Carlos Magno - Jornalista, secretário de Movimentos Sociais e Formação LGBT e envolvindo com a miliância LGBT há 20 anos, sobretudo em Belo Horizonte e Minas Gerais.   

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