terça-feira, 27 de novembro de 2018

Conheça o relato de uma mulher que foi agredida ao defender casal gay, vítima de homofobia em Florianópolis

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Mais um triste episódio de homofobia aconteceu no Brasil neste mês de novembro. Dentre vários casos que acontecem no Brasil diariamente, infelizmente, o Muza obteve conhecimento sobre esse episódio no sul do país, mais precisamente em Florianópolis, no qual um casal gay foi agredido em uma praia e amigos que estavam junto, inclusive uma mulher, foram defender o casal e também foram agredidos. 

O casal estava tranquilo na praia do Campeche, com os amigos, quando 4 homens chegaram e começaram a xingar eles. Após um tempo, um desses homens foi em direção a um dos meninos e deu um soco neles. Então, a amiga entrou no meio para defendê-los e também foi agredida. Após o incidente, as vítimas foram procurar a polícia, mas infelizmente encontram dificuldades e não resolutividade.  

Abaixo, o Muza traz na íntegra o relato desta amiga que “fez escrever esse texto só hoje, depois de elaborar um pouco tudo que aconteceu” :( 
"Amigos, neste domingo (11 de novembro) vivi na pele uma agressão por ódio. Leiam, por favor.

Depois de um congresso incrível de medicina de família em Floripa e uma divertida festa de encerramento, alguns amigos e eu decidimos ver o nascer do sol na praia do Campeche, tomar um banho de mar, e estava realmente lindo. Era o fechamento perfeito daquele final de semana cheio de experiências enriquecedoras com gente, sabe? 

Sentados na areia, fomos abordados agressivamente por 4 homens que diziam ser uma falta de vergonha dois homens estarem ali abraçados, que seus filhos e mulheres estavam vindo pra praia e isso não era coisa pra criança ver. Sim, era um casal gay que se abraçava e não, não estávamos conseguindo entender a ofensa. Tentamos argumentar alguns pontos mas o ódio era palpável no ar, a ameaça nos olhos, a movimentação que não permitia que conseguíssemos realmente sair da praia, apesar da ordem de saída. A indignação inicial foi dando espaço ao medo. Eu não conseguia mais distinguir falas, apenas xingamentos. Vagabundos, viados, falta de vergonha, praia de família, defender mulheres e crianças. Era basicamente isso. Nesse momento, um dos meus amigos - a quem a ofensiva era realmente direcionada - se abaixou para pegar suas coisas na areia e levou um soco muito covarde no rosto, caindo no chão; mais outro agressor veio correndo pra aproveitar a situação vulnerável; eu intervi e o agressor já avisou - gritando com o nariz colado no meu - que bateria em mulher também se fosse necessário. Bom, então vai ser necessário, porque eu jamais assistiria a essa cena covarde. No decorrer do resto do episódio também levei um soco no rosto, alguns chutes, além de uns golpes vindos de uma mulher correndo pela praia na nossa direção aos berros “vagabundos, saiam da aqui! vão trabalhar” agitando agressivamente um cano de pvc no ar. Defendia ela talvez a questão de sete médicos e uma economista não trabalharem o suficiente, ou também seria pela defesa da família e das crianças? Estas que obviamente não podem ser expostas ao afeto, mas à violência gratuita, ao preconceito, à falta de diálogo, homem batendo em mulher, ah, isso normal, né. Amigos me ajudaram, outros também saíram machucados, outros congelados e todos absolutamente atordoados, humilhados, impotentes.

Não tinha muita gente na praia, mas se comportaram como platéia diante do acontecido. Um homem conseguiu se aproximar de canto e dizer “chamem a polícia”, enquanto ia embora.

Chamamos a Polícia Militar há 2 quadras da praia e aguardamos, e este é um outro capítulo. A primeira pergunta da polícia foi se o casal de amigos estava se abraçando para provocar alguém na praia. Sim, isso mesmo. E as próximas perguntas não melhoraram muito, ao ponto de criar uma discussão entre nós, que concordamos em relevar essa segunda violência na esperança de que eles poderiam nos ajudar. Apesar dos agressores continuarem ali, os policiais nos disseram que seria melhor irmos todos fazer o BO na Polícia Civil, que ficar para identificá-los seria se expor a mais riscos (apesar deles estarem em 2 viaturas) e que não nos preocupássemos que eles iriam lá averiguar. Chegando na Polícia Civil descobrimos que essa foi a pior orientação que poderíamos receber, afinal os policiais não detiveram ninguém, não informaram nada do que encontraram lá e sem flagrante não podíamos nem ao menos fazer corpo de delito (apenas em dias úteis, em horário comercial, em Santa Catarina), o que basicamente nos impede de prosseguir com uma representação pela agressão sofrida. Fiquei indignada, perguntei o que poderia ser feito então, já que provavelmente aquelas pessoas deviam ainda estar na praia naquele exato momento, ao que o policial me respondeu que eu poderia contribuir com a investigação trazendo os nomes dos agressores. “Eu trazer os nomes da pessoas? Achei que essas coisas funcionassem na direção oposta”, foi tudo que consegui dizer, “Moça, estou apenas explicando o procedimento”, foi a resposta. Procedimento. Pessoas são reduzidas a procedimentos, que tristeza. Até me lembrou uma medicina que as vezes vemos por aí, que não enxerga pessoas, só manuais.

O sentimento era de humilhação e impotência, talvez vergonha, raiva, cansaço, dor. Um peso difícil de descrever e que me fez escrever esse texto só hoje, depois de elaborar um pouco tudo que aconteceu.

Saber que homofobia não é crime no Brasil, que uma briga de trânsito e esse ataque preconceituoso e direcionado ao fato da pessoa simplesmente EXISTIR tem o mesmo peso é desesperador. É aterrorizante pensar que esse ataque pode acontecer em qualquer lugar sem motivação alguma. É completamente absurdo vermos essa equivalência num cenário de ódio crescente, onde as MORTES nesses ataques aumentaram 30% em apenas 1 ANO. Façam, por favor, esse pequeno exercício: imaginem ter MEDO de apanhar toda vez que tu sai de casa, toda vez que tu abraça ou beija alguém. Mulheres passam por assédios diversas vezes na vida e talvez consigam chegar mais perto desse sentimento, talvez pelo medo do estupro também. Mas e todos os outros? Todos temos medo de assalto, sim. Assim como QUALQUER outra pessoa. O problema é que existem grupos que tem um risco maior de MORRER, de serem agredidos, de serem humilhados repetidamente, por favor, enxerguem isso. Façam esse mínimo exercício de empatia, imaginem um filho de vocês com essa preocupação constante, dia após dia. Imaginem de verdade. Viver com medo de morrer por ser quem tu é, de ver amigos agredidos, de histórias de espancamento, sentir os olhares de ódio mesmo quando não viram agressão física. Precisamos de mecanismos pra promover EQUIDADE, oferecer uma proteção um pouco maior para quem é alvo de um ódio ignorante e violento em um país ainda enraizado na homofobia, no preconceito. E é exatamente essa realidade que vivemos que clama por uma atenção especial, um olhar de cuidado com essas pessoas que estão apanhando, que estão morrendo simplesmente por existirem. Parem de relativizar os discursos. Se coloquem na pele de outras pessoas. E PAREM de usar o nome do bem e da família pra justificar o ódio ao que é apenas diferente de você".