quarta-feira, 31 de outubro de 2018

BH terá nova temporada de espetáculo teatral sobre diálogo mesmo diante das diferenças

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Foto Tiago Lima

Foto Carol Thusek

A companhia de teatro Luna Lunera realiza nesta semana,  a partir de sexta-feira, 2 de novembro, nova temporada de estreia de seu novo espetáculo: “Urgente”, de 2016, que aborda temáticas pertinentes aos dias atuais como tempo, convivência e seus tensionamentos.

Manter o diálogo vivo mesmo diante das diferenças parece ter se tornado uma tarefa hercúlea em tempos de intolerância. As estruturas da sociabilidade estão rachadas. O silêncio que embrutece é o mesmo que nos permite observar de forma esgotada o passar cada vez mais veloz dos dias. Diante da impotência, só resta a busca pela falsa sensação de estabilidade. O cotidiano se transforma em um amontoado de obrigações quase mecânicas, sonhos morrem nas gavetas e a vida é adiada para um futuro que nunca chega.  Em um mundo ainda regido pela obsessão pelo novo, o envelhecimento das pessoas e dos objetos é visto como ameaça da ampulheta impiedosa. Com 1h45 de duração, “Urgente” é uma ação micropolítica de interrupção dessa rotina sufocante. Uma suspensão do tempo para criar com o público um tempo (ou um passado) em comum.
  
A direção da peça de Miwa Yanagizawa e Maria Sílvia Siqueira Campos, do Areas Coletivo de Arte, e a trilha sonora é assinada pela banda Constantina. Em um cenário composto por quatro nichos de um metro quadrado cada, onde habitam cinco personagens e suas complexidades, um enredo ficcional não linear se revela aos poucos e se relaciona com retrospectivas de vida dos atores, de dois minutos cada. Cotidianos ordinários num espaço condensado. Relações inflamadas. O que se pode – ainda – desejar?  E a vida se dando num lugar rachado. 

Estamos sendo inundados por todos os lados de imagens, sons, informações. Teríamos ainda a capacidade e o tempo necessário para a concentração e a reflexão? Segundo o pesquisador Paul Virilio, o homem, mesmo que absorvido pela instantaneidade, tem também a necessidade de contexto, de memória, de cultura – que demandam duração e relação. E talvez por isso vivenciamos esta atual e dolorosa busca por sentido. 

Para  Heidegger, um dos grandes pensadores do século passado, nós não somos, e sim estamos. Somos aqui-e-agora e, a cada instante, temos uma série de possibilidades de mudança. Para fugirmos desta responsabilidade, nós nos atarefamos, exatamente para não tomarmos consciência da nossa própria condição, para não encararmos a angustiante realidade do presente. 

Ao mesmo tempo que fazemos coisas demais, que nos ocupam demais, parece que muitas vezes vivemos esperando o momento certo em que enfim viveremos de fato. Vivemos esperando o final de semana, as férias, a aposentadoria. Nos programando para viver plenamente quando conseguirmos aquela promoção, quando comprarmos o apartamento, quando chegarem os filhos ou quando os filhos crescerem. Como a famosa frase do filósofo Blaise Pascal, “nunca vivemos, mas esperamos viver; e, preparando-nos sempre para ser felizes, é inevitável que nunca o sejamos”.  Sem perceber que o que deixamos passar não é apenas tempo, mas nossa própria vida.

Cia. Luna Lunera | 17 anos

Fundada em 2001, a Cia. investe em diversificados caminhos de criação através da pesquisa continuada e do diálogo com outros criadores contemporâneos do teatro, da dança, da música e das artes visuais. Tem como prática abrir seus processos criativos para o público, criando um espaço de diálogo e compartilhamento - chamado Observatório de Criação. Em seus trabalhos, busca conjugar investigações corporais, jogo cênico, uso da música como parte integrante das propostas dramatúrgicas e inserção autoral nos processos artísticos. Construiu, em dezessete anos de trajetória, sete espetáculos, com ampla repercussão nacional: “Perdoa-me por me traíres” (2001); “Nesta Data Querida” (2003); “Não desperdice sua única vida ou...” (2005); “Aqueles Dois” (2007); “Cortiços” (2008); “Prazer” (2012) e “Urgente” (2016).
  
Ficha Artística

Direção: Miwa Yanagizawa e Maria Sílvia Siqueira Campos
Assistente de direção: Liliane Rovaris
Texto: Areas Coletivo de Arte e Cia. Luna Lunera
Interlocução dramatúrgica: Carlos de Brito e Mello e Liliane Rovaris
Atores criadores: Cláudio Dias, Isabela Paes, Marcelo Souza e Sila, Odilon Esteves, Zé Walter Albinati
Elenco: Anderson Luri, Cláudio Dias, Fabiano Persi, Isabela Paes, Letícia Castilho, Zé Walter Albinati
Ambientação sonora: Constantina
Cenário: Yumi Sakate e Areas Coletivo de Arte
Cenotécnicos: Henrique Fonseca e Alexandre Silva
Figurino: Yumi Sakate
Criação de Luz: Felipe Cosse e Juliano Coelho
Assessoria de imprensa: Mateus Meireles
Assessoria administrativa: Felipe Montesano
Produção Executiva: Nathan Coutinho
Coordenação: Isabela Paes

Serviço:
Cia. Luna Lunera - temporada do espetáculo Urgente no Teatro Marília
Data: 02 a 18/11 
Horário: sexta a domingo às 20h
Local: Teatro Marília – Avenida Professor Alfredo Balena, 586, Santa Efigênia – BH.
Entrada: R$30 inteira e R$15 meia-entrada (clique aqui para comprar)

Foto Raquel Carneiro