quarta-feira, 22 de novembro de 2017

Espetáculo “Cleopatra”, que evoca erotismo e política, está em cartaz em BH

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Inspirado em “Antônio e Cleópatra” de William Shakespeare, o mineiro Diego Bagagal (“Salomé”) se une à diretora britânica Susan Worsfold (The Gospel According to Jesus, Queen of Heaven) para criar um espetáculo-solo em uma perspectiva contemporânea e engajada, evocando erotismo e política. Trata-se do solo “Cleopatra”, que está em cartaz em BH de 24 a 26 de novembro, no Sesc Palladium.

Sinopse

Estamos no mausoléu de Cleópatra e Marco Antônio, que já está morto nos braços da Rainha. Recusando-se a figurar no desfile triunfal de Roma, Cleópatra encena sua própria morte. É uma festa de despedida do Egito (ou da Síria, do Brasil ou da Amazônia vendida). É o adeus a qualquer terra corrompida. Nesta versão inspirada no clássico Antônio e Cleópatra, de William Shakespeare, Diego Bagagal (Salomé e BATA-ME!) se une à diretora britânica Susan Worsfold (The Gospel According to Jesus, Queen of Heaven) para evocar erotismo e política. Começaremos pelo fim de um mundo.

O nascimento de “Cleopatra”

Em 2015, convidado pelo British Council, Diego Bagagal vai ao Festival de Edimburgo e conhece a peça “The Gospel According to Jesus, Queen of Heaven”, interpretado pela atriz e dramaturga transexual Jo Clifford e dirigida pela diretora britânica Susan Worsfold. A peça causa um impacto profundo em Diego, que percebe um diálogo direto entre o espetáculo e os pensamentos em arte e humanidades que a cidade de Belo Horizonte tem fomentado em relação às questões de identidade de gênero e sexualidade. Ele, então, propõe a peça ao FIT- BH-2016, que integra o espetáculo à sua programação oficial.

Somente em 2016, em Belo Horizonte, Diego e Susan se conhecem. Ao ver “o Diego” pela primeira vez Susan diz: “Você é a Cleópatra de Shakespeare!” Coincidentemente, naquele mesmo dia Diego preparava uma conversa para o projeto “Shakespeare Lives”, sobre a paixão em Shakespeare,  para o qual escolhe a personagem Cleópatra como objeto de estudo, especificamente o seu último monólogo. A coincidência duplicou, pois Susan tinha escolhido esse mesmo monólogo para o workshop que ministrou naquela semana aos atores mineiros.

Tiveram a certeza imperativa (intuitiva) que precisavam para colaborar e cocriar a partir de “Antônio e Cleópatra” de Shakespeare. É também nessa ocasião que os artistas se encontram com a produtora e relações internacionais Juli Azevedo, apresentando-lhe essa ideia e, a partir daí, formam a tríade que desencadearia o nascimento de “Cleopatra” no Brasil.

Após várias pesquisas, inúmeras conversas por Skype e um ensaio fotográfico, Susan e Diego se encontram em outubro de 2017 em Glasgow para uma imersão no universo dessa icônica personagem, na busca de uma “Cleopatra” para o tempo presente.

Ficha Técnica
Concepção e dramaturgia: Diego Bagagal e Susan Worsfold
Texto: William Shakespeare
Direção: Susan Worsfold
Interpretação: Diego Bagagal
Produção executiva, tradução e relações internacionais: Juli Azevedo
Fotografia: Luiza Palhares
Registro audiovisual, webdoc e legendagem: Tauma
Figurino: LED
Iluminador/operador de luz: Allan Calisto
Assessoria de imprensa: Bia França
Parceria: Creative Scotland e British Council
Agradecimento de apoio ao: National Theatre of Scotland
Realização: Sesc Palladium e MADAME TEATRO

Este projeto possui a parceria do Creative Scotland e British Council e a produção do espetáculo agradece ao National Theatre of Scotland pelo apoio.

Serviço
Teatro – “Cleopatra”
17 a 19 e de 24 a 26 de novembro
Sexta a domingo – 19h
Sesc Palladium (Teatro de Bolso)
Av. Augusto de Lima, 420 - Centro
(31) 3270-8100
R$20 (inteira) e R$10 (meia) - clique aqui para comprar


O espetáculo-solo-conjunto

“Cleopatra” começa pelo nosso fim. É um solo que parte do pressuposto básico de que todo o homem social interage e interdepende do outro. Em cena um ator que provoca o contato com o público.

O encontro com Cleópatra dá-se no momento de sua morte – do suicídio cometido com a ajuda de uma naja. Nesse momento fatal, vemos flashbacks de sua vida:  a poderosa e política Rainha, seu amor por Antônio e sua prisão iminente, culminando em uma “festa” para ela se matar. Uma morte digna da Rainha do Egito (que também é da Síria e se autoproclama Deusa Isis), algo entre um ato terrorista e erótico.

“Cleopatra” é uma investigação política e pessoal da colonização contemporânea e do abuso de poder através do clássico “Antônio e Cleópatra” de William Shakespeare. É uma despedida.  Mas está distante do amor inocente e juvenil de “Romeu e Julieta”, pois sexo e corrupção permeiam por toda a obra. É uma recusa a subjugar-se à dominação estrangeira, ao controle do Império Romano.

“Cleopatra”, na macro-política talvez nos convide a refletir sobre o que é resistir? O que é liberdade? Até onde vai o orgulho? O que nos move? Quando é que expressamos e erguemos nossas bandeiras políticas? 

Porém, talvez, nesse momento, em seu mausoléu, ela reverbere apenas questões micropolíticas: Onde em mim há manifesto? Qual é meu manifesto? Onde está meu amor? Quando é que morro por amor e política? O que é a morte perante a liberdade de amar? Quando é que me libertarei? 

Talvez seja a despedida do Brasil. O amar até o fim. Um adeus a uma terra consumida por decisões coloniais, patriarcais, entorpecidas pelo poder imediato. Um adeus ao Egito tomado ou à Amazônia dizimada ou à Venezuela dilacerada ou à Síria aterrorizada. 

Morte. Suicídio. Memória. Arrependimento. Sexo. Poder. Amor. Terror. Celebração. Bebedeira. Ascensão. Despedida. Iraq. Síria. Venezuela. Brasil. Portugal. 

Seja bem-vindo à “Cleopatra”, à celebração de sua morte – por meio da qual vida, poder, política, estratagemas sensuais e sexo dessa Rainha (que manipulava sua própria identidade de gênero e sexualidade) virá à tona. Ela também se dizia a encarnação da Deusa Isis. E que também era a Rainha da Síria. E que foi tão má quanto uma terrorista. Talvez fosse uma ditadora. Faliu uma nação. Mas amou mais que Julieta. E se eternizou pelo orgasmo final da morte. 

Não há mais esperança, não há outra saída? Então, é PRECISO cruzar o mar, como ela o fez tantas vezes e despedir-se de Cleópatra e acolher o mar.

Este solo é um experimento da celebração do fim deste tempo presente. Talvez seja sobre o exílio. É um convite para que geremos o movimento além-mar até encontrar terra firme... E se encontrarmos talvez sejamos chamados de refugiados. E talvez nos refugiaremos em terras férteis novamente.

Talvez não seja nada disso.

Talvez seja apenas um ato micro-político de refugiar-se em si.

Sobre a Madame Teatro 

É uma plataforma luso-brasileira, fundada por Martim Dinis e Diego Bagagal, sediada em Belo Horizonte, de criação artística entre artistas locais e internacionais. Desenvolve uma pesquisa de linguagem transdisciplinar que atrita a relação sexo e política no tempo presente. Possui um repertório que privilegia a alteridade: “1Dior” (2015); “Bata-me! (Popwitch)” (2013); “Em Louvor à Vergonha” (2013); “Pop Love” (2010) e “The Witch and The Frog (Pop Version)” de 2009. Dialoga, desde 2015, com a entidade teatral portuguesa Colectivo 84, cocriando “Shakespeare: Livros para Sobreviver” (2015) e “Salomé” (2017). Já circulou com trabalhos e como artistas residentes na Alemanha, Brasil, Chile, Escócia, Espanha, Inglaterra, Itália, Polônia e Portugal.