quinta-feira, 30 de junho de 2016

Vítima de LGBTfobia em BH relata ocorrido: “me pegou blusa e me atirou na frente de um carro”

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A tragédia na boate gay em Orlando foi no início de junho, mas no dia 28 de junho celebramos em todo o mundo o Dia Internacional do Orgulho LGBT. Mas na última sexta-feira, 24 de junho, aqui em Belo Horizonte, aconteceu mais um caso de LGBTfobia. Isso mesmo, aqui na nossa cidade e não lá longe, mais precisamente na rua da Bahia, quase avenida Augusto de Lima. O que aconteceu?

O estudante de moda, Lázaro dos Anjos, de 23 anos e que é conhecido nos duelos de voguer/voguing aqui em BH como Chapinha, foi agredido verbalmente e fisicamente por LGBTfobia. Ele divulgou em sua página no Facebook um relato detalhado do que aconteceu e com a autorização do mesmo reproduzimos, na íntegra, abaixo, porque todos os detalhes, desde a agressão a ida na delegacia merecem ser conhecidos. Lázaro é homossexual  e identifica-se como gênero fluido ou não binário e utiliza no seu dia a dia roupas consideradas “de mulher”. E é como ele disse em uma conversa informal comigo após o ocorrido: “o simples fato de ser lgbt já nos coloca em risco”.

Leia abaixo o relato sobre LGBTfobia em BH

“Quando olho pra você não sei se homem, mulher ou um traveco”. “Você é uma aberração”. “Você é nojento”.

Era sexta-feira, por volta de 14 horas, era um dia normal para mim. Eu estava na rua da Bahia, onde moro, vestia uma saia preta, que é o que eu uso todos os dias. Eu já havia dado uma volta pelo centro daquela forma e claro que, como de costume, as pessoas olhavam, algumas riam, outras olhavam com aprovação, entre milhares de reações.

Eu estava encostado entre a Araújo e uma loja de produtos naturais, conversando com um conhecido. Sem mais nem menos, escuto ao pé do ouvido: “você é um lixo”, “aberração”. Essa voz estava carregada de ódio, mas mesmo assim me virei para saber se era brincadeira de algum amigo que passava por ali. Antes que eu conseguisse me virar ele deu a volta em mim e continuou: “você é nojento”, “quando olho pra você não sei se homem, mulher ou um traveco”. Ele se aproximou e tentou me intimidar batendo a testa em mim e me empurrando: “desgraçado”, “nojento”, “você é uma aberração”.

Eu geralmente reajo a esse tipo de pessoa, mas, por algum motivo, eu só perguntava o que estava acontecendo. Ele olhou para os dois lados e disse “quer saber? Você tem que morrer”, me pegou pela manga da blusa e me atirou na frente de um carro em alta velocidade. Naquele momento eu estava em choque e não consegui reagir nem para dar um passo para trás. O que me salvou foi um puxão que levei para trás do meu colega, que fez isso e saiu correndo, também em pânico.

Havia varias pessoas na rua, muitas delas viram o ocorrido, mas somente um homem resolveu se manifestar, assustando o monstro, que subiu na sua moto e saiu correndo.

Infelizmente não tive tempo para agradecer, porque minha única vontade era me sentir seguro. Corri o mais rápido que pude para casa e me tranquei. Liguei para meus amigos e, sim, eu estava em pânico. Chorei de tristeza e de raiva por saber que essas pessoas existem. Meus amigos vieram até aqui e eu ainda não conseguia controlar o que eu estava sentindo. É tão difícil saber que momentos antes uma pessoa tentou matar você!

Com meus dois amigos aqui, descemos novamente para fazer um B.O. na delegacia aqui perto. A caminho da delegacia, passamos pelo lugar onde tudo aconteceu. Estávamos resolvendo como iríamos agir quando uma menina se aproximou e perguntou o que havia acontecido. Nós contamos o ocorrido e ela reagiu com calma. Para ela, aquilo era uma coisa comum já que era trans e sabemos como é o cotidiano delas. Ficamos conversando mais ou menos dois minutos e ela disse coisas que fizeram todo sentido naquele dia: “é normal estar mal por conta dessas pessoas, mas se recupere por que temos que estar preparados para o ataque de amanhã”.

Na delegacia, esperamos muito para sermos atendidos e, quando fomos, escutamos a seguinte alegação: “não foi tentativa de homicídio porque ele nem se machucou, foi uma agressão”. Depois de muita “conversa”, ele disse que aquele seria só um B.O. normal e ponto. Quando finalmente fomos atendidos, peguei o olhar do policial que ia fazer o B.O., senti o ar de ironia nele. Tivemos vários problemas com este policial. O primeiro deles foi o tempo para fazer o BO, que demorou duas horas. Depois, ele apenas decidiu que eu era do gênero indefinido, sendo que eu sei me definir (gênero fluido). Para completar, ele perguntou: “você se considera branco, pardo, negro ou o quê?” Eu respondi dizendo que minha cor era negra e ele riu, fez diversas piadas e completou “você quer que eu coloque negro, então?’’. Eu o respondi dizendo que não era o que eu queria e sim o que eu sou e ponto.

Tiramos a conclusão de que os policiais não estão preparados para os crimes de homofobia em suas delegacias, já que foi preciso insistência bem cansativa para deixar bem claro este crime não teve uma motivação fútil, como constava no B.O., e sim que que tudo aquilo tinha sido motivado unicamente por homofobia. Foi motivado por eu estar usando uma saia.

Gostaria de reforçar que o motivo do ataque foi por que eu estava usando uma saia! Por que sim, eu uso saia todos os dias, para ir à padaria, para ir à esquina. Eu não sou aquele que usa saia pra fazer uma foto foda pra ganhar likes, não uso saia nas baladinhas pra ser descolado! Eu uso saia todos os dias, uso saia, uso vestido e uso tudo aquilo que meu direito de liberdade me dá para fazer o que eu quiser, sem sofrer uma tentativa de assassinato no meio da rua. É assustador pensar que muitas das coisas que aquele homem branco, loiro, hétero, de classe alta disse é compartilhado por muitos gays e isso me deixa tão triste.

Eu sei que a vida daquele homem irá continuar a mesma e eu vou fazer o possível para que a minha continue também. Porque pessoas como eu sempre têm que olhar duas vezes para os lados antes de sair de casa - uma ida a padaria é um ato de coragem. Frequentar lugares normativos sendo quem eu sou é uma luta diária. A alternativa é me trancar dentro de casa, assistindo os descolados vomitando suas postagens desconstruídas no Facebook e praticando o preconceito nas ruas.

Talvez muitos de vocês não saibam como é enfrentar um olhar de reprovação a cada esquina. Talvez muitos de vocês não se sintam humilhados com as chacotas, com as risadas, com os deboches mais escancarados. Acordar e viver minha vida é uma luta que eu tenho que enfrentar todos os dias e não é fácil. Muita gente deve pensar: “nossa, ele dança Vogue, a vida dele é maravilhosa”. Não! Minha vida não é maravilhosa, mas eu faço ela se tornar maravilhosa por que eu luto e luto muito para ser quem sou hoje. Luto para andar por aí livremente usando minha saia, meu laço de cabelo, meu batom vermelho e eu nunca vou desistir disso, nem que eu tenha que conviver com o medo diário das agressões, com outros gays que riem de mim e com toda a sociedade que tenta diminuir pessoas como eu.

Sempre me considerei uma pessoa muito forte, mas, por um milésimo de segundo, eu absorvi aquelas coisas que ele me disse. Por um segundo eu realmente me senti um lixo. Mas eu me recompus e isso agora me deu mais força para lutar contra esse tipo de acontecimento. Eu escolhi um dia que não ia mais me silenciar e dessa escolha eu não volto atrás. Eu agradeço a todas as pessoas que dividem comigo o pensamento do gênero livre. Agradeço aos que me mandaram mensagens de apoio. Na sexta-feira eu estava em pânico. Me senti o pior ser humano do mundo, me senti incapaz, mas agora todo aquele sentimento virou combustível para eu continuar tentando fazer a diferença todos os dias”.