sexta-feira, 22 de abril de 2016

ColunaZs: “Precisamos falar sobre o Drag Race (o programa ainda está interessante?)”

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*Contém spoilers sobre o último episódio 

A coluna desta semana chegou com um pouco de atraso, mas é por um bom motivo. Hoje não quero focar em recapitular os momentos importantes do último episódio, mas nós precisamos falar sobre o programa. Eu faço parte de vários grupos, nacionais e internacionais, sobre RuPaul's Drag Race no Facebook e ao ler sobre as repercussões sobre cada episódio, tenho notado insatisfações dos fãs e quero compartilhar aqui com vocês. 

Primeiramente, a eliminação de Acid Betty, Robbie Turner e Thorgy Thor chocou parte do fandom de um jeito bem negativo. Muitos estão se questionando o porquê dessas queens talentosas e com um estilo único foram eliminadas, quando eram para chegarem na final. A questão é, eu já disse isso há umas semanas, o formato do programa avalia a atuação da queen somente naquele episódio, sem se preocupar muito com o histórico delas no programa, muito menos sem se preocupar com a aceitação das queens aqui fora (já que o programa é  gravado seis meses antes de ir ao ar). Mas até que ponto isso é bom? Assim como nas temporadas passadas, com as eliminações precoces de queens como Kelly Mantle e Tempest DuJour, drags talentosas e aclamadas pelo público estão dando "sashay away" enquanto outras que não apresentam grande desempenho no programa continuam lá. 



Diante dos comentários feitos por alguns fãs, o que tem ficado claro é (aqui escrito de maneira generalizada, é claro): sai quem tem talento, ficam os rostinhos bonitos. Temporada passada tivemos que engolir a Pearl, que apresentou um desempenho pífio durante toda temporada, chegar ao TOP 3. Dessa vez, temos visto Derrick Barry, que em praticamente todo episódio fica entre as piores, chegando cada vez mais perto de ser uma das finalistas (e, segundo rumores espalhados entre os fãs, ela será). Então, o que será que está acontecendo com o drag race? RuPaul diz que procura uma queen com "carisma, nervo, talento e singularidade", mas o que temos visto é que apenas queens magras, bonitas e dentro de um padrão de beleza estão chegando longe. E quando as que não se encaixam nesse padrão chegam entre 5 melhores, elas são severamente criticadas por outra parte dos fãs, como foi o caso de Darienne Lake, Kennedy Devenport, Ginger Minj e agora com a Bob The Drag Queen e até mesmo com Chi Chi DeVayne (que, à propósito, protagonizou, no último episódio, um dos melhores lipsync da história do programa). 


Eu confesso que não acompanhei as primeiras temporadas "em tempo real", até porque o programa começou a se tornar realmente popular no Brasil em 2014, quando passou a ser exibido pela Netflix. Mas parece ser evidente que o programa vem se mostrando um pouco problemático diante dessas questões. Em vez de quebrar estereótipos, ele parece vir reforçando-os.  As eliminações de Thorgy, Acid e Robbie chocaram. Mas o há outras questões ainda mais preocupantes: Como uma queen que não tem apresentado muito no programa tem chegado a tão longe? Por que parte do fandom prefere queens esteticamente perfeitas e sem grandes talentos a drag queens talentosas mas que não estão dentro de um padrão de beleza?

Não quero lançar verdades sobre o programa, não é essa a minha intenção, pois posso, é claro, estar sendo equivocada. Porém, é necessário parar para pensar nos rumos do programa e, principalmente, no reflexo entre os fãs. E por fim deixo aqui a questão: Drag Race é reflexo de seus fãs, ou os fãs são reflexo de RuPaul's Drag Race?

por Mariana Alencar (colunista convidada especial) Jornalista, feminista e fã drag queens.