domingo, 30 de agosto de 2015

Um argentino diz o que acha da cena gay de BH: “Beagá Is Burning” (sobre a festa Dengue)

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A partir de agora, o Valmique, euzito, aqui do Muza, estarei recebendo cartas de um amigo argentino que está em BH e conhecendo a cena gay local. Para começar, ele me mandou uma carta sobre suas impressões sobre a festa Dengue, aquela que tem o Duelo de Vogue. Abaixo, compartilho com vocês ;)

As fotos são da querida Anna Valentina :) 

“Liberdade é pouco O que eu desejo é uma realidade inventada” - Clarice Lispector

Amigo Val,

Eu fico tão surpreso com quase tudo o que acontece aqui em BH, com tudo o que talvez os locais podem estar acostumados, e pra mim é estranho demais. Por isso que estou escrevendo agora pra você minhas impressões da Festa em que cheguei sábado. É que no meu país, Argentina, eu mal posso ter ainda sonhado com presenciar uma festa assim, excesiva, como foi a última DENGUE, ah como eu gostei que aqui no Brasil até uma doenca (a Dengue) seja comemorada! 

É essa uma das razões que gostei demais daqui, um mês atrás quando cheguei pra visitar alguns amigos, não consegui abandonar a cidade, que achei tão cheia de vitalidade, de pessoas que não são feitas em massa, não falo que sejam boas ou ruins, na verdade particulares, sempre pra frente, que além do idioma português, que tô tentando de falar, e o idioma do alto astral que tem aqui que quero aprender: falar com o corpo, com as mãos... ninguém me entende no mercado, ou nas lojas se pergunto o preço de alguma coisa, com meu portunhol, se não falo com expressividade nas mãos, se não faço um pouco de voguing ninguém comprende o que tento falar. 




Nossa senhora! Adorei a vitalidade das drags, da música, da dança, dos garotos que chegam perto e falam tipo assim “posso te dar um beijo?” E eu, que não posso ser menos atrevido, respondo, até dois... Aquilo não acontece em todas partes do mundo, sabe? Tem que lutar demais pra se apresentar. Aqui tem que desenvolver atitude drag, mostrar que você pode fazer duelo com qualquer um, mover com seguranca é ainda uma dica importante pra andar na rua, pra ninguém mexer com você, caminhar como se souber como se caminha, olhar como se tivesse mil olhos, exagerar o rosto; e beijinho no ombro. 



Na festa, fez dançar a gente o dj Supololo, divino montado de Hotel Budapest style, e aí no palco as meninas da Toda Deseo, com esses corpos que não acabam nunca, suas artes corporais, você não pode perceber onde termina o homem onde comeca a mulher, me lembra uma performance de Salvador Dalí com gala. E depois chega o momento que o andrógino apresentador Guilherme da início, incentivando com seus berridos em chamas ao mítico duelo de voguing, aquela tradição das casas do Ball, que podemos assistir no documentário Paris is Burning. 

Sobre as competições nos subúrbios de nova yorke, que Madonna bem soube aproveitar, onde você podia ser quem quiser, fantasiar com humanidades que ainda não existem, que são de um tempo que está por vir. O duelo foi incrível, todas incríveis, além que o jurí foi impiedoso e às vezes cruel, elas nao deixaram se desanimar, e deram a vida nas poses, gastaram os saltos altos. 

Gostei que tinham homens fazendo de homens, porque essa identidade tambem é parodica. Os aplausos do publico e os gritos deram por ganhadora a Senhora Chapinha, e desde aquí eu envio meus parabéns pra ela que merece. Será que alguma das maravilhosas voguers está dando aulas? Eu amaria aprender um dos passos chamado Death Drop, aquele que você joga o corpo inteiro para tras até o chão, caindo estrepitosa, e, assim, que volta a ficar de pé... achei que seria bom como aprendizagem filosófica para a vida, já que nao poderemos evitar aprendermos a cair.

Ate mais,
Félix Olvido (jornalista, escritor e viajante)