sexta-feira, 17 de julho de 2015

Leia entrevista excluZiva com o grupo Toda Deseo de BH

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Desde 2014, há pouco mais de um ano, o Muza vem chamando a atenção para as apresentações do grupo performático Toda Deseo, que aborda a transexualidade e travestilidade em sua arte, além de, consequentemente, as questões da cidadania LGBT. Essa semana, o grupo recebeu o prêmio Prêmio de Direitos Humanos e Cidadania LGBT, da ong Centro de Luta Pela Livre Orientação Sexual (LGBT).  

Para fala sobre essa conquista, referências e trajetória do grupo, o Muza fez essa entrevista excluZiva com o integrante fundador, David Maurity.

Muza - Como surgiu o grupo Toda Deseo?

David Maurity - O coletivo surgiu em 2013, em virtude de um trabalho de conclusão de curso, do Rafael Lucas, um dos integrantes, que se formou em Artes Cênicas. Estávamos no processo de construção do espetáculo “No soy un Maricón”, mas em virtude de alguns convites para que nós nos apresentássemos em festas fazendo performances, ou fechação, como a gente gosta de chamar, a Toda Deseo surgiu. 

Por que esse nome?

Houve a necessidade de nomear esse grupo, na época, de 5 viados que estavam se montando e dançavam música pop. Então, numa brincadeira com o nome da produtora do Pedro Almodóvar, El deseo, a gente criou a Toda Deseo. Como a gente ia falar sobre questões relacionadas à sexualidade, à identidade de gênero, sobre esses muitos "deseos", o "Toda" complementa essa nossa ideia e cumpre esse papel de abarcar esse leque enorme de possibilidades de existências, de afetos. 

Quais são as inspirações e referências?

São muitas! Referências que vem de vários campos: artes plásticas, música, cinema, novelas mexicanas, brasileiras, etc... A maioria são referências do mundo pop. 

Quem compõe o grupo atualmente? É a segunda ou terceira formação? 

Atualmente, o grupo é composto por mim, Ronny Stevens, Rafael Lucas Bacelar, Juliana Abreu, Victor Pedrosa, Simon Oliveira, Erica Hoffman, nossa produtora e Akner Gustavson, nosso técnico iluminador. Podemos considerar que esse grupo seria a new generation, a 2ª formação do coletivo. E ainda temos nossa diva Cristal, maravilhosa, que participará do nosso próximo espetáculo.
Anterior a essa galera, participavam da Toda Deseo o Will Soares e o Igor Leal, que decidiram sair para conseguir realizar outros projetos artísticos e pessoais.

Qual o diferencial do grupo ou característica mais marcante?

Primeiramente, e é isso que nos motiva a estar nesse coletivo, de fazer o nosso "Espetáculo-Festa: No soy un Maricon" e as festas que gente participa. É poder falar de maneira respeitosa, poética e de dar voz às travestis e transexuais, de trazer o debate sobre questões de gênero, sobre violência, sobre transfobia, de maneira incisiva para dentro do teatro, atingindo um público muito diverso aqui na cidade.

Além disso, No soy un Maricón é uma festa. É um espetáculo muito diferente daquilo que é produzido hoje em Belo Horizonte, porque a gente pode caber em qualquer espaço. Já nos apresentamos no Bordello, mas também já ocupamos espaços como o Grande Teatro do SESC Palladium.


Como é o processo criativo? É difícil, já que são várias pessoas?

Não é um processo criativo complicado. Ele passa pela leitura de textos sobre teoria Queer, travestilidades, passa pela criação das coreografias e a descoberta desse corpo que pode fugir dos padrões heteronormativos para criar. Passa pelos encontros com amigos que nos trazem novas perspectivas dentro desse campo difícil das teorias de gênero e por aí vai. E como todo coletivo, as divergências existem e são necessárias para marcar as individualidades. 

Você acha que BH está vivendo um bom momento para drag queens e "meninos que gostam de vestir como meninas"?

BH está vivendo um boom da montação! Isso é maravilhoso! Porque se montar é algo muito complicado, está para além de "se vestir" de mulher, é quebrar muitos padrões individuais. A montação é muita política. Acho que o nosso espetáculo e o Duelo de Vogue são pontos de referência nesse momento que a cidade vive. E festas como a Eleganza e a @bsurda tem se tornado um território seguro pra quem quer se jogar na montação.

Mas eu acredito que é sempre necessário problematizar todo esse babado. Numa conversa com a Cristal, perguntando o que ela achava sobre isso, ela disse uma frase que marcou muito a mim e a nós do coletivo: "Muito fácil você se montar, pegar o taxi na porta da sua casa, descer na porta da boate e quando a festa acaba, pegar um taxi e descer na porta da sua casa em total segurança. Eu me monto e fico assim o dia inteiro". Acredito que essa reflexão ainda não é muito presente pra essa galera nova que está nesse processo. Mas é muito importante que as pessoas se atentem para isso. 

Qual a expectativa com o Toda Deseo?

A gente espera, e estamos construindo esse caminho, de nos consolidarmos como uma referência no teatro, como um coletivo que trabalha com questões de gênero e sexualidade. E que, para além do teatro, nós consigamos efetivar outras ações para que esse debate não se limite àqueles que frequentam o teatro, que nós possamos estender isso a um público maior. Já demos alguns passos pra isso, apresentando em escolas de teatro, em centros de referência para jovens, participando de debates dentro da UFMG e temos a nossa Gaymada, que é um projeto lindo, que reuniu as viadas, gente nova, velhxs, famílias na praça Floriano Peixoto em prol da diversidade! 

O que podemos aguardar da Toda Deseo? Algum novo projeto vindo por aí? 

A gente espera fazer uma nova temporada de No soy un Maricón no segundo semestre, aqui em BH e no eixo Rio e São Paulo. Estamos nos organizando pra fazer uma nova edição da Gaymada, mais bafo que a primeira. E começaremos a ensaiar um novo espetáculo também nesse segundo semestre.

Vocês ganharam um prêmio essa semana, o que significa para vocês?

Receber o Prêmio Direitos Humanos e Cidadania LGBT, do CELLOS-MG é gratificante. Esse prêmio é uma certeza de que, pela arte, através da arte, a gente tem fomentado, nesses tempos difíceis de uma bancada muito reaça no congresso, um debate muito importante relacionado à diversidade sexual, principalmente dando voz às travestis e transexuais. O palco é um lugar muito privilegiado de fala. E política também se faz nele! 

Como convidariam alguém para ver alguma apresentação da Toda Deseo?

VIADX! Curtam a página da TODA DESEO no FB. Fica ligado nos baphões que a gente apronta nessa nossa Belo Horizonte e cola naxxx Primaxxx! Se joga na confusão!