quinta-feira, 23 de julho de 2015

Conheça a proposta de nudez masculina da revista Flesh Mag e veja um ensaio com alguém do Muza...

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O Big Bang Erótico

“Quando era mais novo, tinha um fotolog e uma camerazinha. Eu ia, assim, no verão, na praia, no posto 9, tipo o Alair Gomes (fotógrafo brasileiro referência em nu masculino), e aí, fazia muitas fotos, escondido, dos caras de sunga na praia. Meu fotolog super bombava e ninguém sabia quem era o autor”.

E o fotolog existe ainda? 

“Existe. Ainda está lá. Teve uma época que o fotolog saiu até na G Magazine. Isso há uns dez anos”. 

Essa história, aí, é de um dos garotos da dupla que está surfando na nova onda do nu masculino no Brasil, ao lado do fanzine paulistano Snaps e da página mineira Chicos!.

São os rapazes da revista digital Flesh Mag: Rafael Medina e João Maciel. Qual deles será o paparazzi vouyer que percorria sinuosamente quase os mesmos caminhos de Alair Gomes (1921-1992) no Rio de Janeiro? O labirinto para achar a resposta está na entrevista, que fiz com o duo de arqueiros.

Eles haviam disparado a flecha sem eu saber. Já estavam de olhos e lentes abertas perseguindo o pequeno alvo nas baladas cariocas.

Foi questão de tempo para o meu interesse e o deles se cruzassem. Sim, aceitei me despir para dois estranhos, exatamente como vim ao mundo. A experiência do jornalista/personagem não está só nas fotos mas também no texto produzido especialmente para o site deles.


Até chegar lá, confira o bate-papo com os meninos, dias após o ensaio, em entrevista para o Muza. 

De onde veio a ideia de fazer uma revista como a Flesh Mag?

Rafael Medina - A gente fotografa festa há quase um ano. Um produtor de uma das festas propôs da gente fazer uns ensaios sensuais, com modelos que eles escolheriam. E, aí, a gente topou fazer esse projeto. Gostamos muito dessa experiência, foi muito positivo. A festa exige um foco específico em um determinado tipo de homem, que é aquele modelo gostoso, sarado, bonitinho. Comecei a conversar com o João, que eu queria ampliar um pouco mais esse campo. O que pra mim entra até mesmo

uma questão política, do tipo, a gente já vende um modelo de padrão de beleza que as pessoas ‘sofrem’ para alcançar e, tipo, ninguém tem a “porra” desse corpo, porque muitas vezes é feito no photoshop, e não quero isso. Não quero ser mais um agente que perpetua esse tipo de pensamento. Queria ter essa experiência de fotografar nu, corpos masculinos, mas que isso fosse com pessoas comuns. Pensar o desejo ou a relação entre o desejo e o corpo. Não só um ideal de corpo, mas um corpo real. 

E vocês vivenciam isso no dia a dia? São o tipo de pessoas que vocês estão acostumados a “ficar”?

João Maciel - Os meus dois últimos relacionamentos foram assim. Meu último namorado era um “urso” e o atual já não é, ele é quase uma “barbie”. Eu não tenho um “tipo”. Tem que mexer comigo de alguma maneira, independente do porte; da “pintosa” até o cara mais “bofão”.

Medina - A foto é para onde você olha. Então, se eu gostasse só de “barbies”, faria um ensaio só de barbies. O meu olhar é direcionado para o meu desejo. Acho que tem uma relação entre desejar e olhar.

Nessa vontade de diversificar, como vocês trabalham essa questão do estereótipos no meio gay para os ensaios?

Medina -  A gente tem uma relação direta com o fotografado, mas ele é um personagem. Não tem uma distinção entre ficção e realidade. Eu levo um pouco desse personagem para o ensaio após fazer uma leitura da pessoa.




Como é o processo de escolha do modelo entre vocês dois? O que causa interesse pra vocês?

Medina - Ficamos, na verdade, sondando algumas pessoas, tem cara que eu olho na “night” e falo aquele ali vai ser incrível.  Mas teve um primeiro momento que a gente não tinha ninguém e era mais difícil conseguir alguém porque não tinhamos o que mostrar. Então, pensamos vamos selecionar umas 3 pessoas que conseguiriam dar um primeiro “start” do que seria essa revista. E a gente não queria fechar num único tipo de pessoa. Vou mostrar 3 direções possíveis que a revista pode seguir para instigar as pessoas. Alguns ensaios podem reafirmar subgrupos que as pessoas se identificam. Acho que a gente trabalha um pouco nesse âmbito porque o desejo também passa por aí. Mas, ao mesmo tempo, não queríamos nos limitar a um. Por exemplo, lançamos o ensaio de um menino “gostosinho”, aí as pessoas vão achar que só vamos fazer isso. Mas lançamos depois um que “causa”, então, a galera começa a achar que só vai ser assim, então, toda vez que a pessoa tenta dizer o que vamos fazer, eu quero fugir disso. Quando ela acha que está conseguindo, o ensaio diz “não”, não é por aí a tendência. E vai chegar um momento que terá um leque de diversidade e possibilidades. Ensaios mais erotizados, ensaios sem erotismo algum, mais plásticos. 

E vocês usam photoshop?

João - Não.  A gente não usa no modelo. Só usamos pra ajustar a luz.

Medina - Não usamos pra aumentar bunda ou bíceps. Senão a gente vai desautorizar o próprio trabalho e o nosso discurso fica vazio.

Vocês fotografariam um casal transando? 

(Sai um sim uníssono e desconcertado em ambos). 

João - Eu já fico meio encabulado. Mas quando vejo que a pessoa está tranquila, eu relaxo. 

Como é, então, lidar com a nudez masculina?

João - Eu vou falar por mim. Sempre acho que vai rolar uma tensão, uma tensão sexual na parada, pelo nervosismo da situação em si. Às vezes fico inibido, paro e viro de costas (risadas). Mas, no final, tem que ter foto, tem que ter ensaio e a gente tem que segurar a onda. 

Medina -  A minha excitação passa pra foto. Acho importante que aconteça isso mas temos que trabalhar no limiar, que é perigoso mas acho que o trabalho cresce poque tem um perigo envolvido. Acho que o desejo é importante na construção da imagem. E acredito que realizo o desejo na imagem. Não entendia muito bem isso no início mas, agora, sim. Não preciso necessariamente estabelecer uma relação com o modelo.

E como vocês lidam com a nudez e o erótico?

João - O ensaio do Vinu (Vinícius Orsolon) foi bem nessa “vibe”, pois estava rolando “pegação” no local que escolhemos para tirar as fotos (um dos pontos da Praia da Reserva, no Rio de Janeiro). Essa foto com o chão cheio de camisinha é uma das que eu mais amo.

Eu queria ter feito meu ensaio lá rs. De quem foi essa ideia genial de ter feito as fotos naquele lugar?

Medina - Foi minha. Eu tinha visto “Um estranho no lago” (do diretor francês Alain Guiraudie, 2013), e gostei muito da atmosfera do filme, de perigo, muito louco aquele filme, fiquei bem perturbado. E eu não conhecia esse lugar (no Rio)...

João - E eu não conhecia esse lugar, e, cara, isso foi um “achado”. O Rafa falou do filme e quando chegou lá, cara, era o “visu” do filme. Fomos um dia antes pra ver, e tem toda uma mata lá pra dentro, tem muito cenário ali. 

Medina - Não é uma coisa floresta tropical, sai um pouco dessa coisa Parque Lage.  É a primeira locação fora da casa dos modelos.

João - A gente puxou essa coisa do erotismo mesmo foi no ensaio do Vino, justamente, por ser esse cenário. 

Medina - Quem dá esse tom aí é o modelo. Na verdade, não é o modelo. Acho que tem uma relação entre o modelo e fotógrafo. Tem um ensaio, que é do Marc, que uma foto é erótica, mas o resultado todo não é. 

E como é a escolha dessas fotos?

Medina - A gente não pensa já no resultado das fotos. Temos um fim que é um conceito das fotos, às vezes, uma historinha ou não, mas sempre um conceito. As fotos têm que contribuir para que o ensaio cresça. Temos fotos que não são tão interessantes e entram, como tem fotos incríveis e não entram. É maior sofrimento isso. Ainda bem que existe o Tumblr, pra onde vão as fotos extras. 

Vocês fariam um ensaio com travesti ou transexual?

Medina - Eu queria fazer um “transhomem”, uma mulher que virou homem. Você fazer um ensaio com um cara que virou mulher não é a nossa proposta, pois ele não se sente como homem. Estaria, na verdade, fazendo ensaio com uma mulher. Você é transhomem ou transmulher se você se reconhece como tal, não precisa, necessariamente, ter um órgão genital. 

E se rolasse de transar com alguém no ensaio. Vocês transariam?

João - Se rolar não tem mais foto. A foto não acontece.

Medina - Claro que rola uma tensão sexual, mas eu acho que ela é importante, tem que saber manter isso de uma forma, pois, justamente, se rolar não vai acontecer a foto. Porque emana uma força, é isso que a foto mostra. 

Se você chegou ao final da entrevista, vai saber quem é o nosso misterioso “Alair Gomes” da cena carioca: é o João Maciel. Agora chega de papo e clicar aqui para ver o ensaio e a experiência com o repórter-personagem, bem ao estilo do Jornalismo Gonzo. A Flash Mag também está no Facebook, Instagram e Tumblr (que mostra algumas imagens exclusivas). 

Bon vouyer!