domingo, 22 de março de 2015

Crítica - Rebel Heart: O coração rebelde de Madonna é romântico, dance e sexual

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Desde novembro de 2014 quando começou o vazamento das músicas do novo disco da Madonna algo era nítido: a Rainha do Pop estava de volta e tinha algo a dizer. Melhor, mais do que ter algo a dizer, ela queria dizer algo. O que mais tarde se confirmaria com o título do disco: Rebel Heart (Coração Rebelde).

Com as demos “vazadas”, com exceção de algumas, de maneira geral, podíamos ver que Madonna caminhava para algo que, de alguma maneira, já tinha feito em sua carreira: a rebelde de American Life (2003), combinando violões e batidas eletrônicas, em meio a letras pessoais sobre amor e críticas sociais. Obviamente, com as exceções “loucas” e adoráveis do produtor Diplo.

Mas Madonna nunca se limita e sempre traz algo novo. Assim, quando ela divulgou as 6 músicas na pré-venda do disco, também em dezembro, em razão justamente ao vazamento, a perspectiva ampliou: além da rebelde, também teríamos a romântica e a divertida, com direito a música com elementos do reggae (Unapolagetic Bitch). Quando as 6 músicas foram divulgadas oficialmente, tive a sensação de que sim, sem dúvida, Madonna estava de volta e em grande estilo: músicas fortes, cada uma a sua maneira.

Semanas depois, mais demos vazaram, 30 ao todo. Mas no fim, a versão final teve 25 canções, com excessão de 3, o resto já tinha sido ouvido nos vazamentos. Mas o que dá para perceber com as 25 músicas escolhidas é que Madonna preferiu ser mais Heart que Rebel, e que o seu lado Rebel, focou mais no sexual do que no político.

Com essas supostas escolhas, o que temos? Madonna falando sobre amor, desilusão amorosa, sexo e diversão, com elementos de produção mais eletrônica e menos elementos de cordas, como guitarra e violão. Exemplos significativos são as músicas “Joan Of Arc”, “Graffiti Heart” e “Beautiful Scars” que em comparação com as demos, que tinham um vigor rebelde de arranjos de violão e guitarras, estão aqueles elementos eletrônicos que deixam a música mais divertida, leve e...  adolescente? O que pode não ser ruim para quem não ouviu as demos, mas para quem ouviu, como eu, pode lamentar essa direção que o disco tomou. A própria Madonna pediu aos fãs para não ouvir, mas foi difícil resistir...  

O problema foi de quem ouviu as demos? O vazamento foi um teste? Madonna mesmo declarou em recente entrevista que o que ela gostou em Kanye West e Diplo foi justamente eles descontruírem as músicas originais, que foram criadas de maneiras simples para poderem ser tocadas apenas no violão ou no piano, e criarem outra praticamente nova. Reconheço que as batidas de Avicci realmente soavam datadas, mas ao mesmo tempo parecia conservar e/ou reforçar elementos líricos das músicas.


Mesmo assim, Rebel Heart, poderia ter sido mais consistentemente “Rebel” e menos “Heart” se ela tivesse, por exemplo, escolhido “Freedom”, “God Is Love” e “Revolution” (que tem a ótima frase “eu sou um poeta/você é um ladrão”) ao invés de “Hold Tight”, “Inside Out” e “Best Night”, por exemplo, e tivesse mantido a versão demo, com o devido aprimoramento que a produção final traz, para as canções já citadas: “Graffiti Heart”, “Joan Of Arc” e “Beautiful Scars” (Por que ela mudou essa música?!). Entretanto, o Rebel aqui se manifestou mais fortemente nas conotações sexuais para uma “senhora de 56 anos” que sempre abordou essa temática ao longo de sua vida e carreira: “Holy Water”, a já citada “Best Night” e “S.E.X.”.

É claro que nem toda as “novas versões”, como por exemplo “Devil´s Pray”, “Iconic”, “Rebel Heart”, “Boworred Time” e “Wash All Over Me”, deixaram a desejar, pelo contrário. Mas, porém, entretanto, todavia...  na música “Rebel”, lamento não estar presente aquele vocover dizendo “rebeeel heaaaart” e o elemento dance anos 80 no refrão; em “Boworred” o contraste dançante que a música tomava no final do refrão, poderia ser datado, mas era vigoroso; Em “Wash”, realmente aquela batida eletrônica que apesar de gerar um contraponto interessante musicalmente (violinos e eletrônico), mas não poderia ficar do jeito que estava, por lembrar alguma produção simples de Wanessa ou Lorena Simpson, sem ofensa às divas nacionais.

Com o montante, 25 músicas, o que é muito e digno de congratulações, não acho que Madonna deu grandes passos em relação ao MDNA, de 2012, como um todo. Mas, obviamente, são discos bem diferentes. E Rebel se destaca em relação ao próprio MDNA e está anos luz de Hard Candy (2008) e talvez seja até melhor que Confessions (2005), sobretudo no conteúdo das letras;



Mas fato é que Rebel Heart traz méritos únicos na carreira da Madona: nunca antes ela falou tanto sobre amor de uma maneira simples e honesta ( a bela “HeartBreak City”, é um belo exemplo disso – e sem querer ser chato, a demo era sutilmente mais bonita), é um disco com letras mais ricas e ao mesmo tempo simples e elaboradas; além de ser um disco estritamente pop, com refrãos grudentos e letras fáceis de decorar. A música “Illuminati”, com citações à Beyoncé e até Lady Gaga, é um ótimo exemplo (apesar do que preferia a linha mais dance da versão demo, que devidamente trabalhada, poderia ter sido um grande hit no melhor estilo “Vogue”).

Mas como um todo, considerando o além música, como a já icônica capa do disco, o excelente vídeoclipe de “Living For Love” (o melhor dela desde “Hung Up” 2005 e o mais conceitual desde “Hollywood” 2003) e o que vem por aí, turnê e performances, Madonna dá um passo a frente em sua carreira e mostra, sobretudo para as concorrentes pop e suas respectivas fã-bases, que ela ainda é relevante, mesmo sendo desnecessário ela ter que provar algo depois de mais de 30 anos na ativa, e sim, consegue ser e soar atual e moderna, por mais que os “novinhos” não aceitem que uma “senhora” possa ser mais interessante que “a musa da geração”. 

Como dizem: aceita que dói menos!  Tanto para os fãs das outras divas pop como para os próprios fãs da Rainha, como eu, que vão ficar na vontade de ver as versões demos dignamente finalizadas, porque no fim, Madonna fez a escolha da direção que ela quis seguir, e ela é e sempre foi assim: This is who i am.. you can like it or not... Bitch, I´m Madonna… I'm an unapologetic bitch!