domingo, 30 de março de 2014

ColunaZs - Uma analogia entre o filme “12 anos de Escravidão” e a homossexualidade nos dias atuais

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É impossível ver o filme “12 anos de Escravidão (12 Years a Slave)” e ficar indiferente. Assim como, para mim, especificamente, foi impossível não fazer analogia a questão da homossexualidade. Com as devidas proporções, racismo, feminismo e homofobia se relacionam.

Essa relação entre racismo e homossexualidade fica evidente, ou ficou evidente, para mim, em uma das cenas  logo no início do filme. Quando o personagem principal, Solomon Northup (interpretado pelo ator Chiewetel Ejiofor) conversa com outros escravos sobre a dualidade viver X sobreviver: “Se você quer sobreviver, faça e diga o mínimo possível”, diz um escravo a Solomon, que era um homem livre e que tinha se tornado vítima de uma emboscada à condição de escravo, que responde: “Eu não quero sobreviver. Eu quero viver”. 

“12 anos de escravidão” também chama a atenção para duas outras questões importantes para se combater e/ou perpetuar um preconceito: o estado e a religião.

Em certo momento do filme, a religião é utilizada para dar legitimidade a condição da escravidão. Há uma cena na qual o senhor dos escravos reúne seus servos e lê trechos da bíblia, provavelmente distorcidos, nos quais apenas reforça aos escravos sua condição submissa e inferior.

É interessante observar, mesmo considerando o período histórico e social no qual o filme é apresentado, que a postura do Estado, leia-se leis e políticas públicas, contribuíram para o prolongamento do “estado de escravidão” do personagem Solomon. Cada estado dos EUA tinha sua própria posição política sobre escravidão e abolição. Desta forma, diante de "equívocos", como o caso de Solomon, o escravo não tinha, facilmente (?), como contestar sua condição. Sua única alternativa era ter consigo posse de um documento que firmava sua liberdade ou esperar uma intervenção externa, oriunda de generosidade aliada a sorte. Sua fala, por si só, não era o suficiente para lhe resguardar. 

Um dos destaques do filme, são as cenas que demonstram a crueldade e maldade do ser humano diante de outro ser humano. Ações que tinham como respaldo a crença em “uma verdade”, baseada na superioridade de alguns seres humanos diante outros seres humanos. E mais uma vez, a religião e o estado se mostram perigosos catalizadores neste sentido.

Em diversos momentos de “12 Anos de Escravidão” fiz paralelos, com as devidas proporções, entre a violência física e moral sofridas pelos escravos com as sofridas, recentemente (?), por homossexuais tanto na Rússia e Uganda - e por que não em outros lugares do mundo, como mostram os noticiários brasileiros, por exemplo - quanto em situações nas quais evangélicos e religiosos ortodoxos se sentem no direito de se referir a homossexuais de forma pejorativa e agressiva, como ao relacioná-los a “demônios” e outras representações negativas sociais. Mais uma vez, tendo-se como crença a ideia alienada, confortável e inquestionável da escravidão, que dava direito aos brancos fazerem o que quisessem – literalmente, inclusive sexual - com os negros.

Curiosamente, na fila da compra dos ingressos, havia um homem com sua esposa que só se referiam ao filme, equivocadamente, como “12 anos de Solidão”. Engraçado... Mas não esteve os negros, de certa forma, sozinhos nesses anos? E estariam os homossexuais sozinhos atualmente? Que grupo social está “só” atualmente em detrimento de outro? Sim, escravidão pode se relacionar com solidão e vice-versa.

Valmique é jornalista, artista e editor-chefe do Muza .