domingo, 23 de março de 2014

ColunaZs: “Eu não quero ver nenhuma cantora brasileira gravando uma música sobre gays sendo mortos”

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Ilustração de Billie Holiday uma das principais intépretes da música "Strange Fruit", sobre o racismo nos Estados Unidos

Partituras do horror

"Black body swinging in the Southern breeze,
Strange fruit hanging from the poplar trees.”
[Strange Fruit - Abel Meeropol]

Outro dia fomos pegos de surpresa com a triste história do menino Alex. Um belo dia o garoto de 8 anos saiu de casa, no Rio Grande do Norte, para ir morar com o pai, no Rio de Janeiro. Dona Digna, a mãe de Alex, não o mandava para a escola, e estava sendo pressionada pelo Conselho Tutelar para cuidar melhor do filho.

O que poderia ser um reencontro bonito, um pai cuidado do filho, se transformou em uma sucessão de horrores que me deixa transtornado só de lembrar. O pequeno Alex foi espancado pelo pai porque gostava de dança do ventre e de lavar a louça. "Vou ensiná-lo a virar homem", dizia, enquanto surrava a criança. O resultado foi uma hemorragia interna e a morte de uma criança de oito anos que apenas tinha um gosto diferente do que se espera – e não há problema algum nisso. 

Dias depois, lendo um site de notícias, vi um caso parecido, que aconteceu em Belo Horizonte. Um tio matou o sobrinho de 18 anos com quatro tiros por não aceitar o fato de que ele era gay. O namorado da vítima, que também foi baleado, conseguiu escapar. Fiquei dias me perguntando o que leva essas pessoas a tentar impor formas de se viver às outras, como se existisse uma linha a ser seguida, sem possibilidade de ninguém sair dela. 

Pouco antes desses casos, tinha terminado de ler um livro maravilhoso chamado Strange Fruit. O livro conta a história da música de mesmo nome, gravada pela primeira vez em 1939 por Billie Holiday. O autor, um professor de Nova York, viu uma fotografia de dois negros enforcados em uma árvore, no sul dos Estados Unidos e, chocado com a cena, resolveu escrever a canção que falava de corpos pendurados em árvores, balançando ao vento. A música causou enorme comoção nas primeiras vezes em que foi executada, e quando foi gravada por Billie. Anos depois, entraria para diversas listas de melhores músicas americanas, e seria ainda regravada muitas vezes pelos mais diferentes cantores, tais como Nina Simone, Cocteau Twins e até Tori Amos.

Um dos méritos da canção, segundo o autor do livro, foi jogar luzes na questão dos linchamentos que negros sofriam em todo o território americano. Por muitos anos, esse numeroso grupo foi vítima de uma série de violências, sem poder se defender. A música foi talvez um primeiro momento para que olhos se voltassem para a questão com mais afinco, e um movimento de mudança fosse iniciado. Ainda acompanhamos notícias de violência contra negros nos Estados Unidos, mas seguramente bem menos frequentes que no fim da década de 1930.

Mas fiquei pensando no motivo pelo qual comecei a pensar nessas duas mortes assim que terminei a leitura do livro. E concluí que o motivo é muito simples: eu não quero ver nenhuma cantora brasileira gravando uma música sobre gays sendo mortos!

A história da música popular brasileira é marcada por canções que citavam, diretamente ou não, o momento em que elas foram escritas. A música é, acima de tudo, uma representação da cultura de um povo, e se constrói levando em consideração o universo em que está inserida. Por isso que quando digo que não quero ouvir canções sobre gays sendo mortos, na verdade quero dizer que é preciso acabar com essa realidade antes que ela sirva de mote para a produção artística. 

Billie Holiday é uma das cantoras mais importantes da história da música americana. Ficou conhecida pela voz marcante, pelo ritmo e a exuberante gardênia que sempre adornava sua cabeça. Mas, acima de tudo, ficou marcada por cantar sobre os amores, correspondidos ou não, feitos ou desfeitos. Apesar de Strange Fruit ser uma música muito bonita, a história seria maravilhosa se o fato que a inspirou não tivesse existido. Não deixemos que a história se repita, em outro país, em outros tempos, tendo outros grupos como vítima... porém cruel da mesma forma. 




Por Flavimar DïnizEle está na internet desde 1999, quando sofria com conexões discadas e downloads a 3.4 kbps. Começou no mundo dos blogs em 2002 e não entende como não ficou rico com internet igual a tantos outros de sua geração. Adora música, cinema, literatura e jornalismo, sua formação profissional. Escreve sobre o que ele achar que dê um texto de mais de 140 caracteres.