domingo, 23 de fevereiro de 2014

ExcluZivo - Diretor do filme "Quando eu era vivo" fala sobre Sandy e preconceito contra filmes de terror brasileiros

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Como sabem, o filme de terror/suspense “Quando eu era vivo”, do diretor Marco Dutra e que tem como destaque a presença da Sandy no elenco, está em cartaz em Belo Horizonte. 

Na última terça-feira, Marco Dutra esteve em BH e conseguimos um bate-papo excluZivo com o diretor para saber mais sobre trabalhar com um gênero que não é muito comum no cinema nacional e, claro, sobre a participação da Sandy no filme. 

Para quem não sabe, o filme é uma adaptação do livro “A Arte de Produzir Efeito Sem Causa”, de Lourenço Mutarelli. A entrevista com o cineasta paulistano Marco Dutra foi feita pelo crítico de cinema mineiro Ivo Costa, que também é roteirista e cineasta independente. 

Ao final da entrevista tem um convite especial do diretor aos leitores do Muza ;) 

Como foi a recepção do Mutarelli com a adaptação, uma vez que foram feitas algumas alterações - como por exemplo, a personagem de Bruna, que no livro é uma Artista Plástica, e no filme é uma Estudante de Música.

Ele leu o roteiro e gostou muito, falou que a gente conseguiu levar a essência do livro pro filme, ele até fez um comentário engraçado,  "Nem senti tanta diferença na sensação do roteiro", acho que o que ele quis dizer que, independente do que tá igual isso, ou diferente aquilo, ele acha que a essência principal do livro tá lá. É um fruto meu e da Gabriela Amaral, que é co-roteirista, pois a gente fez escolhas; escolhas de caminho; é um livro muito complexo, muito denso...

Como foi a escolha do elenco?

Raramente eu trabalho com teste, foi praticamente escolhido a dedo, com algumas exceções - no final eu trabalhei com o Carlos Alberguaria, que é o filho da Helena que fez a Olga, e trabalhou comigo no trabalhar cansa. Tem o Kiko Bertholini, que é um amigo meu, que fez o Pedro, a Gilda Nomacce já trabalhou comigo em vários filmes - são pessoas que admiro e sempre quis trabalhar, só que você não pode trabalhar com seus amigos sempre, porque você não faz o papel para o seu amigo, você faz o papel, e depois vê com quem você vai trabalhar. No caso desse filme, foi muito prazeiroso trabalhar com a Gilda, com a Helena, com as crianças, com a Tuna Dwek, com o Kiko, com o Eduardo Gomes - que são os coadjuvantes do filme, que eu acho da mais fundamental e absoluta importância para todos os filmes, uma coisa que eu defendo até a morte - que aprendi com o Hitchcock, com o John Ford - que assim, entrou em cena, tem que ser um ser completo. São atores fenomenais que fizeram tudo certinho na medida
E aí tem esse trio central, O Pai, o Filho e a Bruna. O Fagundes já gostava do livro, e a gente sabia disso, ele queria muito fazer, gostou muito do roteiro, e o nosso dilema foi conseguir encaixar a agenda dele na nossa, pois ele estava fazendo Gabriela na Globo e Vermelho no Teatro, tivemos que fazer um malabarismo. O Marat eu conheço desde 2006, um ator que admiro profundamente e eu propus ele pro Rodrigo Teixeira, que se envolve muito com o casting - ele gostou muito do Marat, que adiou 8 compromissos que ele tinha para fazer o filme. A Sandy eu propus, pois eu precisava de uma atriz que cantasse, ou uma cantora que atuasse, então a gente abriu um pouco o universo das possibilidades para a Bruna - quando apresentei para o Rodrigo, no início ele achou esquisito, mas depois abraçou a ideia - Mandamos o roteiro pra ela que gostou, nunca imaginaríamos que ela aceitaria. Ela nos chamou para conversar no escritório dela em Campinas, e parecia que a gente se conhecia há trinta anos - e ela foi muito simpática, e entregue a uma personagem que não tem nada a ver com ela.


Falando de Sandy, você acha que o público saberá separar a figura da "Sandy Cantora" da figura "Sandy, atriz de filme de terror?"

Quando anunciaram que a Madonna ia fazer Evita, foi muito polêmico, e nunca entendi o motivo para essa polêmica, eu gostei muito da Madonna como Evita. A Sandy é a mesma coisa, "Ah, é a Sandy" - ela tem uma coisa de celebridade que vem primeiro, antes de ela ser cantora, de ser atriz, ela é celebridade.  Então tem esse lance do culto da celebridade que impede essas pessoas de passarem desse estágio da máscara. Eu tive reações muito boas a presença da Sandy no filme, e fiquei muito feliz - existem pessoas que não embarcam e é uma questão delas, e pessoas que embarcam, e também é questão delas - a gente fez o nosso trabalho, do tamanho que poderia ser feito.

Você acha que existe um preconceito com o gênero de Terror Brasileiro? 

Existe um preconceito com o gênero, tipo "Ah, filme de terror eu não vejo", várias pessoas da minha família me falam isso. Mas, existe um público para ao cinema de gênero. Em uma exibição no Rio, haviam umas 30 pessoas para ver "Quando Eu Era Vivo", e uma fila enorme para ver "Herdeiro do Diabo", que é um filme frágil na minha opinião, que não foi muito discutido, nem muito elogiado, muito menos respeitado - mas o público tá lá, pagando, batendo o ponto. Mas a questão é essa, se vai ver "Herdeiro do Diabo", vai ver "Quando eu era Vivo", vai ver "Mar Negro" - se a gente não abrir nossa cabeça, a gente não vai conseguir...,  a gente precisa conquistar um espaço, que deveria ser nosso também, mas não é, a gente trabalha em um terreno dominado.

Quando Eu Era Vivo, tem sido bem aceito pelo público, e pela crítica - o que você acha desse panorama do cinema de gênero daqui pra frente?

Eu acho que a gente vai ver muitos filmes de gênero brasileiros a partir daqui, não que não tenha, tem o Dennison Ramalho, o Aragão..., acho que tem bastante, mas a questão é que tá todo mundo ainda na beira do circuito, mesmo eu, todos os nossos filmes ainda estão comendo pela borda, mas comendo pela borda, uma hora você engole. Acho que todo mundo entendeu que as convenções do gênero são potentes para narrar, tem terreno pra usar essas ferramentas no Brasil, porque é um país muito complicado, muito violento, e com uma história absurda e eu acho que isso é o terreno do gênero.