segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

ExcluZivo – Cobertura Mesa Redonda da Mostra "O personagem homossexual no cinema brasileiro".

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O Rio de Janeiro recebe, até o dia 16 de fevereiro, a mostra de cinema "O personagem homossexual no cinema brasileiro". São 17 filmes e cinco curtas-metragens exibidos no evento, que conta também com discussões sobre diversos temas.

Um dos primeiros debates ocorreu com a participação da jornalista, crítica de cinema e roteirista Susana Schild; do idealizador da mostra, cineasta, pesquisador e autor do livro "A personagem homossexual do cinema brasileiro", Antonio Moreno e do professor e crítico de cinema José Carlos Monteiro.

Susana Schild apresentou a discussão sobre "O lesbianismo e o voyeurismo no cinema brasileiro". Para ela, esse é um tema cheio de armadilhas, pois o conceito por trás do termo voyeur é bastante complexo. 

Ser voyeur passar por patalogias? Curiosidade mórbida? É a excitação pelo ver? Parece mesmo uma estrada sem fim. A jornalista destaca que o cinema é o tempo do voyeur e também traz consigo a discussão sobre ato sexual versus pornografia.

Se antes o erótico era oculto no século XIX, atualmente, o sentido de voyeur estaria sob nova ética com uso da internet, totalmente exposto, reflete a crítica de cinema.

Mas ela ainda pondera que o cinema continua como um espaço, onde o espectador pode viver todas as transgressões possíveis. E nisso o "ser voyeur" se constrói pela questão moral, censura e expressão artística.

Dentro desse universo, o lesbianismo  tem uma trajetória de estigmatização no cinema brasileiro. Susana acredita que é um tema ainda ausente em comparação com o que é realizado, com apenas algumas inserções de personagens periféricos nas histórias. Talvez porque ele possa vir a afastar o público das salas de exibição, questiona a jornalista.

Por outro lado, Susana diz que o filme "Flores Raras" (2013), de Bruno Barreto, que conta a história do romance entre a arquiteta Lota de Macedo Soares e a poetisa Elizabeth Bishop, é um grande marco na produção audiovisual brasileira.

A crítica de cinema diz que, pela primeira vez, "Flores Raras" insere o lesbianismo no plano principal, com personagens que extrapolam os estereótipos. 

Mesmo assim, ela alerta para o grande paradoxo que se vive hoje em dia, que envolve a questão de gênero e sexualidade: visibilidade disputando espaço com a hostilidade. 

Isso tornaria difícil, até mesmo, calcular se um determinado personagem vai promover o voyeurismo em qualquer tipo de obra artística. 

O crítico de cinema José Carlos Monteiro, ao discutir o tema "Os estereótipos sexuais na comédia brasileira", mostra o mesmo sentimento: "Vivemos em tempos contraditórios. Atitudes livres pela escolha da sexualidade estão vivendo com hábitos intolerantes e violentos".

Para ele, ainda existem práticas atrasadas. Ao mesmo tempo, o cinema recebe uma explosão de sexualidade, mas que traz estereótipos perversos, que ditam nossos padrões de comportamento.

Já o pesquisador Antonio Moreno afirma que a abertura do cinema brasileiro para as questões de gênero e sexualidade só foi possível graças aos movimentos sociais.

Entretanto, ele avalia que a trajetória da produção audiovisual nacional é demarcada por caracterizar os gays sempre um ambiente hostil, marginalizado, onde não há capacidade dos personagens constituírem laços afetivos duradouros.

Moreno destaca que apenas com "Madame Satã" (2002), de Karim Ainouz, o cinema brasileiro conseguiu trazer uma discussão bem mais avançada, por mais que seu protagonista estivesse num universo de prostituição. 

Mas, pela primeira vez, um filme nacional abordou um personagem gay (inclusive marginalizado) que consegue formar um ciclo familiar, "moderno" para os parâmetros tradicionais. Outro avanço é mostrar como esse personagem quer fazer parte da sociedade. 

O pesquisador enfatiza que essa mudança repercutiu em filmes recentes, ao inserir que tipo de discurso os personagens gays estão trazem para o meio em que vivem e o fato de questionarem sua própria ausência nesse espaço.

Átila Moreno é jornalista e responsável pelo blog Átila O Uno, no qual escreve sobre cinema e música.