domingo, 16 de fevereiro de 2014

ColunaZs – “Na base do beijo” (sobre beijo gay no cinema, internet e tv do Brasil)

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"Venha pra cá, venha comigo!
A hora é pra já, não é proibido.
Vou te contar: tá divertido,
Pode chegar!"
(Marisa Monte)

Outro dia me peguei pensando sobre beijo gay no cinema e tentei me lembrar de quando foi a primeira vez que vi dois homens ou duas mulheres se beijando na tela grande (ou no videocassete, que seja). Me recordo de alguns títulos, como “A lei do desejo”, de Almodóvar; o belíssimo “As horas”; aquela cena na garagem em “Beleza Americana”, mas não sei precisar qual foi, de fato, o primeiríssimo.

Entretanto, tem dois beijos que vi no cinema (um foi pelo Youtube, mas era cinema do mesmo jeito) e que tenho mais vivos na memória. O primeiro foi em “Carandiru”, de Hector Babenco. Corria o ano de 2003 e Rodrigo Santoro era um galã global. Tinha feito aquela novela com a Sandy e, no horário nobre, estava para estrear “Mulheres Apaixonadas”, do Manoel Carlos. No filme, Rodrigo era Lady Di, uma travesti que se casava com a personagem de Gero Camilo, com direito a um beijo apaixonado depois do sim (era um casamento, tem que ter beijo). 


Assisti a esse filme no cinema e lembro que a reação do público foi de gritinhos, alguém soltou um “viado” no canto da sala e outras pessoas fizeram sons como se tivessem nojo. Na época, todo mundo comentava o tal beijo, foi matéria de revista e até uma discussão na minha casa, quando o meu irmão disse que era um absurdo o beijo e meu pai falando que eram atores desempenhando um papel, nada demais. 

O segundo beijo foi em “Eu não quero voltar sozinho”, curta super fofo de Daniel Ribeiro, que conta a história de Leonardo, aluno deficiente visual de uma escola de São Paulo, sua amiga Gi e o novato Gabriel. A amizade entre os três vai crescendo e, no desenrolar da história, Leo se vê apaixonado pelo aluno recém-chegado. O beijo acontece em uma cena linda, quase no fim do curta. Nenhum desses beijos, contudo, gerou tanto barulho quando o exibido no último capítulo de “Amor à vida”

Se pararmos para pensar, não há diferença entre os beijos. Ambos foram cenas onde era mostrado o amor existente entre as personagens. O que os difere, contudo, é o lugar onde eles foram exibidos, onde eles aconteceram. Por mais que “Carandiru” e “Hoje eu não quero voltar sozinho” tenham sido vistos por milhões de pessoas, o impacto de estar na Globo e no horário nobre deu um peso muito maior à cena. A sensação que ficamos depois do beijo é como se a Globo tivesse dado o aval, a bênção para que outros beijos como esse pudessem acontecer, tanto na ficção quanto na vida real. 

E, se pararmos para pensar, é quase isso mesmo. Historicamente, as novelas globais têm o poder de transformar a sociedade brasileira. Quantas vezes o país não parou para acompanhar o desfecho de uma personagem querida, ou confirmar que aquela personagem odiada iria morrer. Quantas vezes não nos pegamos citando um bordão ou uma expressão usada por alguém da ficção. A novela não deixa de ser um produto que, além de anunciar e vender diversos outros, ainda implanta na população ideias e costumes que ela não teria caso não tivesse visto aquilo acontecer. 

Todo mundo já falou muito (e muito bem) sobre a importância desse beijo. Compartilho esse pensamento da importância, de que foi um ato muito singelo e bonito e que, seguramente, fez com que muita gente parasse e pensasse que, olha só, é um beijo com amor como outro qualquer, não tem motivo para se escandalizar só porque os sujeitos do beijo são do mesmo gênero. Vá na base do beijo, porque é permitido – e incentivado – beijar! 

Por Flavimar Dïniz. Ele está na internet desde 1999, quando sofria com conexões discadas e downloads a 3.4 kbps. Começou no mundo dos blogs em 2002 e não entende como não ficou rico com internet igual a tantos outros de sua geração. Adora música, cinema, literatura e jornalismo, sua formação profissional. Escreve sobre o que ele achar que dê um texto de mais de 140 caracteres.