domingo, 12 de janeiro de 2014

Leia crítica excluZiva do filme "Azul É A Cor Mais Quente"

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O elogiado e premiado filme “Azul É A Cor Mais Quente” continua em cartaz em Belo Horizonte. Aliás, o Muza até já fez uma promoção para ver o filme na capital mineira. Agora, chegou a vez de compartilhar uma crítica sobre o filme que foi o grande vencedor da Palma de Ouro  de Cannes em 2013. Abaixo, você pode ler na íntegra a crítica do jornalista Átila Moreno:

Sexo merecidamente explícito e melancolia dão o tom em Azul é a cor mais quente

Os termos conturbado e inerte ajudam a definir “Azul é a cor mais quente”, produção francesa que ganhou a Palma de Ouro,  do Festival de Cannes de 2013. O filme é bastante dicotômico, trazendo amor e ódio, tanto na história quanto na mente do público.

A trama é recheada de polêmicas para os mais conservadores. Cenas de sexo explícito e uma fotografia impecável contornam a história de amor entre uma adolescente e uma mulher, com o  roteiro adaptado da graphic novel homônima de Julie Maroh.

Na verdade, a trama gira em torno de Adele (personagem que dá nome ao título original  em francês “A vida de Adele”). Ela é uma jovem estudante, em pleno despertar sexual, que se apaixona perdidamente pela autêntica Emma, de cabelos azuis.

E é na cor azul que o diretor Abdellatif Kechiche pincela o romance nas telas da sétima arte, com recursos cinematográficos de encher os olhos.

Visualmente, ele quase chega a construir uma obra-prima.  A direção fotográfica é primorosa. Além do filme ser quase todo embasado nos tons azuis, é por meio das variações dessa cor que o clímax é conduzido.

Atenção leitor, há spoiler nas próximas linhas.

Na primeira parte, o público é envolvido dentro do mundo de Adele. A medida que ela se encanta e se apaixona por Emma, e o romance se desenvolve, os vários tons de azuis tomam conta do filme.

Mas, depois, quando a relação se torna frágil demais e todo aquele encantamento se desfaz, as outras cores se sobrepõem. Quando Emma muda a cor do cabelo, ela começa a ficar a uma mulher distante.
Kechiche pode ter sido muito genioso ao escolher a cor azul para usar, de forma hábil, a discussão da questão de gênero.

A sociedade sempre delegou que azul é constantemente a cor dos meninos. Ao usar isso numa relação lésbica, como metáfora, Kechiche subverte valores já condicionados. É como se ele feminilizasse a simbologia de masculinidade pré-concebida nesse tipo de relação?

Outro ponto alto do filme é a contribuição gigantesca e ímpar para o histórico da sexualidade feminina no cinema. Kechiche foi audacioso. Usou planos detalhes e filmou o sexo entre mulheres de forma nua e crua, demorada e exagerada.

O exagero é essencial. É por meio dele que o diretor nos obriga a olhar pra aquilo ( ou o mais covarde pode se levantar e sair da sala de exibição, lógico).

E ele  ainda desmitifica aquela ideia de que mulheres não gostam muito de sexo, e que a transa feminina  se resume na regra heteronormativa (ativo e passivo, e penetrações fálicas).

Por outro lado, o roteiro erra feio, e a edição dissipa um trabalho que poderia ter ficado bem mais envolvente. O filme de 3 horas poderia ter sido realizado em 90 minutos, devido a tanta cena desnecessária e conflitos que são jogados de forma aleatória.

E se não bastasse, a trama tem buracos. Não sabemos como Adele deixou os amigos de colégio, e, de uma hora pra outra, passou a viver somente com Emma. Outros personagens que pareciam ser coadjuvantes, como os pais de Adele, saem da história sem qualquer explicação.

O método controverso do diretor, acusado pelas atrizes Léa Seydoux e Adèle Exparchopoulos, por levá-las a um nível estressante,  e suas rusgas com a produção executiva, podem ter deixado o filme pra lá de esquizofrênico no ritmo. No entanto, em alguns poucos e decisivos momentos, ele se torna fascinante e questionador.

Átila Moreno é jornalista e responsável pelo blog Átila O Uno, no qual escreve sobre cinema e música.