quarta-feira, 18 de setembro de 2013

ColunaZs – “Cortina de ferro” (sobre Rúsia e os homossexuais)

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“Virgin Mary, Mother of God, put Putin away
Рut Putin away, put Putin away…”(Pussy Riot)

A primeira vez que ouvi falar da Rússia foi em 1992, durante os jogos olímpicos de Barcelona. Recém desmembrada, a então União Soviética competiu sob o nome de CEI - Comunidade dos Estados Independentes, e ficou ali no topo do quadro de medalhas, disputando quase todas as finais possíveis. 

Depois, quando eu estava na sétima série, o professor pediu que fizéssemos um trabalho sobre o país. Tínhamos uma lista de questões a serem pesquisadas, envolvendo dados geográficos e históricos sobre o local e sobre pessoas famosas que nasceram ou passaram por lá. Levei alguns dias montando o tal dossiê russo, que contava com informações sobre clima, relevo, população, tipo de governo, presidentes... Foi por ali que eu comecei a simpatizar com esse enorme país que fica lá do outro lado do mundo. 

Lembro também das aulas de História no Ensino Médio, quando a professora falava sobre a União Soviética, a tentativa de criar um bloco maciço de países e o que deu certo ou não. Prestei muita atenção nesses casos todos, na Guerra Fria travada contra os Estados Unidos, até descambar na Perestroika e na Glasnost implantadas pelo governo Gorbachev. 

Quando comecei a jogar vôlei, tinha nos times russos um referencial de jogo. Por ser alto como eles, sempre acompanhava as movimentações em quadra, o estilo das jogadas e como eles utilizavam a altura a favor. Vi e revi jogos com o Tetyukhin, o Kuleshov, a Artamonova e a Gamova (mas dessa última nunca fui muito com a cara). Isso sem contar quando passei a acompanhar mais de perto a ginástica, graças a um amigo que me apresentou ao esporte. Fui seduzido logo de cara pela Davydova, Khorkina e a Shushunova (diva, rainha, musa, mito!). 

Por ter tanta ligação com a história do país, era notório que um dia eu desenvolvesse uma vontade e conhecer o lugar. E isso aconteceu há uns bons quase dez anos. Vontade essa que me levou a ler guias de viagem, pesquisar passagens, a melhor época para ir, culinária local... O básico que todo turista faz antes de ir para algum lugar. 

Entretanto, alguns fatos recentes fizeram com que minha vontade de visitar a terra da vodca ficasse um pouco menor. Primeiro foi aquela lei absurda, do ano passado, instaurada na cidade de São Petersburgo, que proibia a promoção da homossexualidade (insira aqui uma cara de "que porra é essa?"). Depois, a lei sendo ampliada para todo o território e ganhando apoio de famosos, como a atleta Yelena Isinbayeva, que deu declarações favoráveis ao tema no último Mundial de Atletismo. E, para jogar ainda mais água fria, me deparei esses dias com esse link. Parece que alguns grupos russos começaram uma caça aos homossexuais, usando as redes sociais para atraí-los e depois fazê-los passar por diversas situações humilhantes.

O mundo tem se voltado cada vez mais para questões humanitárias, e as pessoas têm lutado, com mais afinco, pelos diretos dos que foram, historicamente, os mais prejudicados. Todos os dias recebo algum e-mail de petições ou vejo alguma notícia relevante para qualquer causa em benefício de uma dita "minoria" (que muitas vezes nem é tão minoria assim). A Rússia, porém, volta anos nesse movimento ao aprovar leis como essa, que dão margem para esses grupos existirem e agirem livremente. Leis que seguramente prejudicam a imagem do país e geram protestos ao redor do mundo, incluindo nesses protestos pessoas famosas que sugerem boicotes à viagens e aos jogos olímpicos de inverno, que acontecerão ano que vem na cidade russa de Sóchi. 

Em uma entrevista, Isinbayeva declarou que não achava essa política ruim, e arrematou dizendo: "somos russos, somos assim". Infelizmente vocês são assim, eu diria à atleta, caso fosse o repórter que a entrevistou. 

Texto de Flavimar Dïniz. Ele está na internet desde 1999, quando sofria com conexões discadas e downloads a 3.4 kbps. Começou no mundo dos blogs em 2002 e não entende como não ficou rico com internet igual a tantos outros de sua geração. Adora música, cinema, literatura e jornalismo, sua formação profissional. Escreve sobre o ele achar que dê um texto de mais de 140 caracteres.