sexta-feira, 5 de julho de 2013

ColunaZs – “As aventuras de Diego em Berlim - capítulo 4”

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Quarto capítulo: uma ovelha negra drogada e prostituída em Berlim

No último capítulo: caí na noite de Berlim, fiquei turvíssimo, dancei muito no Berghain – a capital mundial do techno e peguei um maloqueiro alemão, trouxe pro meu flat e ele dormiu na hora H…

Depois do choque inicial da noite berlinense, estou cada vez mais me acostumando com o ritmo da cidade. Meu quarto está todo mobiliado, já tirei o meu visto de residência, começei o meu curso de intensivo de alemão e me sinto em casa – não mais como um turista ou alguém de passagem.

Pra tirar o visto foi uma saga sem fim. No final, eu acabei tirando um visto de estudante da língua alemã em preparação para um curso superior. O problema deste visto é que eu só posso trabalhar durante as férias escolares e por um certo período de tempo. Como eu economizei dinheiro pra ficar aqui por um ano sem ter que trabalhar, não é uma coisa que eu estou me preocupando agora. Mas, eu preciso trabalhar em algum ponto porque eu quero estabelecer a minha vida aqui. Não quero ficar temporariamente e ter que voltar pra selva brasileira assim que as minhas economias acabarem.

E no quesito de estabelecer-se na cidade, eu estou indo muito bem. Eu e o marinheiro americano viramos os melhores amigos um do outro. Estamos indo ao Berghain toda semana e também acabamos conhecendo um grupo de gente que acabou virando o nosso círculo de amizades.

Os componentes deste grupo são bem diversificados: tem eu (o gay mais hype), o marinheiro americano (que é um gay mais masculinizado), tem também o gay novinho alemão,  uma menina chinesa doidíssima, uma argentina rockeira e uma racha chiquérrima da Malásia super exótica e feminina. Não parece um elenco de uma sitcom americana?

Estamos saindo muito! A gente tem um grupo no Whatsapp chamado "Família" e, sempre que a gente vai pro Berghain, a gente fala que é uma "reunião de família". Todos são uns fofos! A gente vai na casa um do outro comer sushi ou assistir filmes, então temos uma vida social fora dos clubs e boates também.

Quanto ao curso de alemão, as pessoas lá também são fofíssimas. Cada aluno é de um país diferente. A professora é uma querida. Na primeira aula, ela falava em alemão e inglês com a gente, mas, a partir da segunda aula, ela só fala em alemão. O pior é que, mesmo não entendendo palavra por palavra, o jeito que ela fala tornam as coisas bem fáceis de assimilar. Então estamos aprendendo alemão bem rápido.

Por ser um curso intensivo, temos provas toda a semana. Eu estou indo bem. Ainda não estou muito confiante pra manter uma conversa com alguém em alemão; mas seguro o suficiente pra ter conversas rápidas quando faço meu pedido em restaurantes e bares – e também pra paquerar o boy turco magia que trabalha numa lanchonete aqui perto de casa!

Quantos aos alunos, fiz amizade com uma menina americana hype que se mudou pra Berlim pra ficar com a namorada dela. Achei super legal isso. Ela estava me contando que as duas se conheceram pela internet e a menina alemã veio até os Estados Unidos pra conhecer ela e, depois de um tempo, ela resolveu se mudar pra Berlim, aprender alemão e morar junto com a menina.

Não que eu faria o mesmo, mas achei fofo. Dependendo da pessoa e da química que rola, por que não? Mas eu senti que a menina alemã é um pouco ciumenta e controladora. Por exemplo, a menina americana hype adora sair pra dançar e tudo mais enquanto a menina alemã não gosta. Então a menina americana hype acaba deixando de sair por causa disso. Sem contar que ela também queria ir no Berghain mas a menina alemã não quer que ela vá lá porque a vibração das drogas e sexo é muito forte por lá.

E a americana hype contou pra namorada dela que eu estou no Berghain todo o fim de semana. Por causa disso, durante a única vez que eu conheci essa menina alemã, eu percebi meio que um olhar frio dela pra mim, do tipo “você é a ovelha negra drogada e prostituída que quer levar o meu anjo para este antro da perdição!”. Mas OK, eu que não vou me meter em nada.

Enquanto isso, eu estou tentando achar algum emprego temporário, só pra ter um dinheiro extra e não ter que gastar tanto as minhas economias. Porém, se tudo der errado, o meu amigo alemão novinho se ofereceu pra se casar comigo. Mas eu não quero ser uma pessoa casada ainda. Imagina! O Karl Lagerfeld precisaria de pelo menos um ano pra costurar o meu vestido de casamento!  Sem contar que se casar é um contrato legal. Há direitos e deveres de ambas as partes e eu precisaria estudar mais sobre as leis alemãs antes de fazer algo assim.

Mas foi legal saber que eu posso contar com pessoas aqui pra me ajudar.


Diego Garcia é artista visual multimídia e produtor de música eletrônica experimental, aonde mantém o nome artístico Projekt Gestalten (arrasa no alemão, bee). Ele nasceu na selva paulistana e atualmente mora em Berlim, aonde se prepara pra iniciar o seu mestrado em Comunicação Visual. Já trabalhou com artistas bafônicos como Lars von Trier, Las Bibas from Vizcaya, Tide Hellmeister, Tiffany (aquela cantora americana brega dos anos 80; não a loja de jóias chiquérrima que a Audrey Hepburn ia tomar café em frente todos os dias). Pretende, em um futuro não muito distante, derrubar o que restou do muro de Berlim com as suas batidas de techno, seu glamour, luxo e poder.