domingo, 16 de junho de 2013

ColunaZs - "Onde estão os gays?"

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“se todo mundo é mesmo gay, o mundo tá na minha mão...” (Marina Lima)

Semana passada aconteceu no Brasil o dia dos namorados, uma das datas mais rentáveis para o comércio brasileiro. Lojas ficam cheias, cinemas lotados, restaurantes com listas quilométricas de reservas e motéis, então, nem se fala. Todos querendo ganhar dinheiro em cima do amor, do romance, do carinho que fica muito mais perceptível nessa época. Mas esse texto não é para falar mal da data, apesar de muita gente criticá-la. Eu acho bonitinho, cafona como qualquer coisa ligada ao amor. Mas quem foi que disse que é feio ser cafona? 

O mercado publicitário sempre soube explorar bem as campanhas do 12 de junho. A televisão fica cheia de corações, as lojas se preparam, pipocam anúncios aqui e ali. Isso não é de hoje, desde que eu me entendo por gente já percebo essa movimentação, que começa logo depois do dia das mães. 

Acontece que, de uns tempos para cá, com esse aumento do uso das redes sociais, com os virais sendo compartilhados para todo mundo ver e campanhas rendendo muito mais, as agências perceberam que vale muito mais a pena criar uma divulgação colaborativa do que algo estático. E por isso tivemos essa enxurrada de “concursos culturais” (entre aspas porque todo mundo sabe que não é somente um concurso) no último dia dos namorados. Era um tal de criar frase, usar aplicativo para medir a afinidade do casal, compartilhar imagem... tudo para gerar muito mais barulho para as marcas. 

Acompanhei de perto uma dessas promoções de dia dos namorados. A premissa era postar uma foto do casal no Instagram, com algumas hashtags e criar uma frase bonitinha sobre o momento. Os ganhadores, claro, seriam revelados no dia 12 e levariam para casa alguns prêmios, que agora não saberia precisar quais, mas tinha uma TV dessas enormes, alguns filmes em blue-ray, e por aí vai. 

O que me chamou atenção, contudo, foi que, de umas quase três mil fotos, apenas duas (repito, apenas duas) eram de casais gays. Nem vale a pena fazer uma porcentagem porque vai dar um número tão pequeno que chega a ser vergonhoso. Rolando as fotos, vendo tantos momentos legais de alguns casais, coisas que sei que eles guardam com carinho na memória, me veio a pergunta: onde estão os gays? 

Recentemente, o autor de “Amor à vida”, Walcyr Carrasco, foi duramente criticado ao dizer que os gays podem se beijar em qualquer lugar, mas que só faziam isso em locais específicos. Na entrevista, ele respondia que não achava natural os homossexuais cobrarem tanto o beijo gay na televisão se eles mesmo não estavam se beijando em qualquer lugar. 

Na época, conversando com diversos amigos sobre o tema, todos concordamos que, de fato, não dá para os gays demonstrarem afeto em qualquer lugar. Lembro que, uma vez, lancei a pergunta a meus amigos que namoravam, se eles demonstravam afeto em locais públicos. Todos disseram que sim mas, ao listarem os locais, eram sempre os mesmos estabelecimentos ditos “amigáveis”. Me peguei pensando, então, até que ponto essa limitação geográfica continuará caso ela não seja forçada. Caso, dia a dia, um casal gay continue nos mesmos pontos, e não marque um novo território. 

O caso dessa promoção talvez tenha servido, infelizmente, de exemplo para o que o Walcyr Carrasco disse. Não havia nenhuma restrição, nas regras, dizendo que os casais deveriam ser homem+mulher, exclusivamente, mas as poucas fotos postadas pelos gays fizeram com que, mais uma vez, eles não fossem vistos em todos os lugares. A expressão “terra de ninguém” ganharia um peso todo novo se fosse aplicada no sentido de que não há separações, no sentido de transformar em verdade “essa tal liberdade” que o autor da novela das nove acredita existir. Uma linda terra de ninguém, arrisco a dizer...   

Texto de Flavimar Dïniz. Ele está na internet desde 1999, quando sofria com conexões discadas e downloads a 3.4 kbps. Começou no mundo dos blogs em 2002 e não entende como não ficou rico com internet igual a tantos outros de sua geração. Adora música, cinema, literatura e jornalismo, sua formação profissional. Escreve sobre o ele achar que dê um texto de mais de 140 caracteres.