terça-feira, 11 de junho de 2013

ColunaZs – “As Aventuras de Diego - Terceiro capítulo: baladas e baladas”

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No último capítulo, eu cheguei em Berlim, fiquei de casinho com um alemão fofo mas acabou não dando certo e ele não queria mais me ver nem pintado de ouro.

Hoje eu irei comentar um pouco das baladas por aqui em Berlim. A primeira foi com um amigo americano meu que eu conheci há uns seis meses atrás aqui na cidade mesmo, quando estava de passagem. Vou referenciá-lo como o “marinheiro americano”, já que ele trabalhava pra marinha americana há alguns anos atrás.

A gente fez um "bar-hopping" pela cidade; que significa pular de bar em bar. Misturei tudo o que vocês possam imaginar: licor, gim, vodka, margueritas, caipirinha. Passamos em uns 4 bares e, depois, fomos numa balada gay chamada Connection. Estava vazio, mas, quando eu digo vazio, eu quis dizer que só tinha nós dois lá dentro! E eu e o marinheiro bêbados a cada minuto.

Resolvemos ir pra outro lugar chamado Schwuz. Fomos para o metrô e estávamos tão bêbados que não vimos que o serviço tinha parado. Uns meninos americanos viram a gente e nos levaram para a rua, aonde tinha os ônibus noturnos. Fomos, então, para a última parada da noite.

Neste momento, eu já tinha perdido a conta dos drinks que eu tinha tomado. Eu não sabia aonde estava direito. O lugar estava lotado mas eu estava muito mal! Fui com o marinheiro pra pista mas já fui pro banheiro e fiz a linha Linda Blair em o Exorcista! Foi muito uó! Eu fiquei no banheiro até um funcionário bater na porta e falar "você está bem?? Já faz uma hora que você está aí! Quer que chamemos alguém??".

Eu sai de lá, chamei um táxi e voltei direto pra casa. Se o taxista quisesse, poderia ter me levado até a fronteira com a Polônia que eu não teria percebido. Saindo do táxi, vomitei de novo na calçada da minha casa, entrei e dormi. Fiquei o dia seguinte todo de ressaca, não consegui comer nada, vomitei de novo e um monte de mensagens do marinheiro, preocupado comigo! Me senti num clipe do Prodigy.


Chega o final de semana e o cartão é batido no Berghain/Panorama Bar – o melhor clube do mundo! Ele é famoso não só por ter sido eleito com este título várias vezes mas também pela política super rigorosa da portaria. O lugar tem capacidade pra umas cinco mil pessoas, porém, há mais de sete mil tentando entrar numa noite, e eles só deixam umas duas mil entrarem. Por este motivo, o clube nunca está lotado e sempre existe uma mistura muito doida de pessoas. Os critérios para ser aceito são um mistério e depende pra quem você pergunte. Ser e/ou aparentar ser gay ajuda (já que o club, oficialmente, é um lugar gay), ir sozinho ou com, no máximo, mais uma pessoa também. Eu nunca tive problemas pra passar pela portaria, mas, confesso que, depois de ficar uma hora na fila, sempre que eu estou prester a chegar perto da porta de entrada, me dá um frio na barriga de ser rejeitado.

Porém, uma vez que você está do lado de dentro deste clube, que funciona dentro de uma usina abandonada, você automaticamente se transporta pra outro mundo. A pista principal (Berghain), toca um techno industrial pesado enquanto a pista de cima (Panorama Bar) toca deep house, disco e minimal techno. Nem pense que você vai ouvir qualquer coisa remotamente próxima de músicas comerciais de rádio. É só música underground e é exatamente por isso que este clube atrai todo o tipo de gente. E eu acho que o Berghain é uma metáfora perfeita sobre como o mundo deveria ser: pessoas diferentes convivendo e respeitando todo mundo. De um lado tem uma travesti dançando, do outro uma drag-queen, do outro um casalzinho hétero, um gay jovenzinho, o urso cinquentão sem camisa, todos lá, sem criar problemas. Outro detalhe é que tirar qualquer tipo de foto é expressamente proibido porque acontecem muitas coisas por lá.

Em Berlim, o bafo dos clubes é que eles colocam um carimbo no seu braço e você pode sair e voltar o quanto quiser, sem ter que pagar pra entrar de novo. O Berghain começa no sábado a noite e vai até segunda de manhã. Ou seja, costumo sair de lá por volta das seis da manhã do domingo e volto de tarde depois de um cochilo.

Daí eu tô dançando e me vem um boy todo desengonçado com pinta de moloqueiro e cabelo tingido de laranja. O cara era super doido, fazendo aquela pinta meio skatista com um piercing no nariz mas com os olhinhos azuis!! Eu nunca peguei um maloqueiro alemão de olhos azuis! Então ele chega em mim super educado "com licença, posso perguntar o seu nome?". Começamos a conversar e ele estuda história da arte! Quando eu falei pra ele que eu vou fazer o meu mestrado em artes visuais aqui ele "hummm... então eu vou ser o seu embasamento teórico". Era tudo o que eu precisava ouvir!!

Começamos a nos beijar e eu dançando loucamente com o boy e conversando sobre arte. Foi aí que um outro boy alemão, que era a coisa mais linda que eu já tinha visto na vida, literalmente entra no meio de mim e do maloqueiro alemão e fala pra mim: "você é muito lindo!!” E o maloqueiro com aquela cara de nada e eu pensando "genteeee, que pote de mel foi esse que eu caí?!?!"

Uma parte de mim queria jogar o maloqueiro alemão pelas escadas e pegar esse boy lindinho branquinho, fortinho de cabelos e olhos castanhos claros de vinte poucos aninhos com o cigarro na orelha (acho super cafajeste isso)!! Mas ia ser super chato; se a situação fosse inversa, eu me sentiria um lixo ser trocado assim. Então eu não iria fazer isso com o maloqueiro alemão. Até mesmo porque, ele tinha a personalidade parecida com a minha. E vai que esse boy branquinho é um uó que não sabe manter uma conversa em um nível humano básico!

Saímos eu o maloqueiro alemão do Berghain por volta de 1 da noite e fomos andando de volta até o meu flat de mãozinhas dadas. No meio do caminho uns caras héteros pararam a gente pra pedir informação de uma rua e o maloqueiro alemão pediu um cigarro pra um deles. Quando o cara disse: "eu parei de fumar", o maloqueiro me começa a gritar no meio da rua: "aff.. esses héteros me dão nojo!” Eu jurando que eu ia morrer ali!

Fomos para o meu apartamento, aquele rala e rola e, na hora H, o maloqueiro não pega no sono??!! Muita aflição! Eu tentei acordá-lo mas não deu, ele estava muito bêbado e louco. Só chequei os sinais vitais do fofo pra ver se ele ainda estava respirando e dormimos abraçados a noite toda! #CHATIADO

Talvez eu deveria ter voltado ao Berghain e achado o outro menino alemão…

Diego Garcia é artista visual multimídia e produtor de música eletrônica experimental, aonde mantém o nome artístico Projekt Gestalten (arrasa no alemão, bee). Ele nasceu na selva paulistana e atualmente mora em Berlim, aonde se prepara pra iniciar o seu mestrado em Comunicação Visual. Já trabalhou com artistas bafônicos como Lars von Trier, Las Bibas from Vizcaya, Tide Hellmeister, Tiffany (aquela cantora americana brega dos anos 80; não a loja de jóias chiquérrima que a Audrey Hepburn ia tomar café em frente todos os dias). Pretende, em um futuro não muito distante, derrubar o que restou do muro de Berlim com as suas batidas de techno, seu glamour, luxo e poder.