terça-feira, 23 de abril de 2013

ColunaZs - “Funk, com F de Feminismo”

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Nos últimos dias a dissertação de mestrado “My pussy é poder – A representação feminina através do funk no Rio de Janeiro: Identidade, feminismo e indústria cultural.”, bem como sua autora, ganharam espaço na internet e na mídia.

Com direito a crítica de Rachel Sheherazade, que por sua vez recebeu réplica de Mariana Gomes Caetano (autora da dissertação). Ainda não li o trabalho, mas lerei. E então expressarei minha opinião a respeito da dissertação. 

O que me interessa mais é a discussão levantada. Afinal, que feminismo é esse das funkeiras? É feminismo? Funk é cultura? 

Se me perguntassem 3 anos atrás, responderia, a todas as perguntas, com um categórico não. Mas nos últimos anos repensei muitos conceitos. Confesso que possuía uma visão completamente elitizada de cultura. E acredito que esse seja o primeiro preconceito a ser quebrado para começar a entender a questão. Cultura não é apenas aquele quadro lindo no museu, a ópera, a peça de teatro, o filme cult, a bossa nova. Cultura vai muito além. Inclui os costumes, crenças, ações, arte, todos os hábitos dentro de uma sociedade. Sociedade, por sua vez, não é apenas o estado, o país. Sociedade pode ser um grupo de amigos, uma família, um bairro, uma região. Qualquer grupo de pessoas. E este grupo de pessoas possuí cultura própria, compartilha cultura com outros grupos. A cultura não é algo estático, presa dentro de um domo de vidro. 

Se cultura é algo tão maleável e mutante, porque não seria o funk cultura? É uma expressão de uma comunidade, e uma expressão forte. Apesar de muitos se recusarem a reconhecer, é uma expressão rica. Pode não ter, ou aparentar, o mesmo cuidado musical da bossa nova, da mpb, mas isso não faz do funk menos importante. Os discursos ali inseridos são passíveis de discussão, da mesma maneira que vários discursos da mpb, bossa nova, também são.


É justamente neste ponto que entram Valesca, Tati Quebra Barraco e outras funkeiras. Os funks surgiram cantados por homens, geralmente com uma perspectiva machista. Elas entram no cenário funk para dar poder as mulheres. Elas não estão apenas controlando o que era um domínio masculino, mas se colocam claramente nessa posição. 

Não dá para pensar no feminismo das funkeiras com os mesmos padrões – que nem deveriam existir – que utilizamos em outros meios. Todo contexto é diferente. As cantoras de funk entram em um mundo onde as pessoas estão acostumados a ver mulheres como objetos, dançarinas dos funkeiros que falam de seus corpos-objetos. Valesca canta “Eu dô pra quem quiser. Que a porra da buceta é minha.”. Para muitos é uma desvalorização da mulher, mas é um grito de liberdade. Ela é dona do próprio corpo, decide quando e com quem fará sexo. A forma com que ela dá esse grito pode parecer degradante para muitos, mas é esse grito “escrachado” que deixa clara a mensagem, é um grito bem inserido no mercado da música funk. É um grito adequado ao público. É um grito adequado a toda a sociedade brasileira, pois em todos os meios tem gente precisando escutar a mensagem de forma bem clara. E é assim que elas entram a mensagem, na lata, sem rodeos, sem mimimi, simples. “Meu corpo, minhas regras”.

Imagine a diferença, que essa apropriação do corpo, não faz para as mulheres que frequentam os bailes funks, que estão acostumadas com a ideia de mulher objeto. Que aquelas palavras que muitos de vulgares, depreciativas, na verdade entregam o poder para mulher. O feminismo da Valesca, dentro do contexto em que está inserido, é extremamente efetivo. É imperfeito? É, obviamente, mas qual discurso feminista não é? Qual discurso militante não é? É impossível abranger todos os universos, é impossível abranger um por completo. 

São essas funkeiras feministas? Sim, mais do que imaginamos. 

O medo das coisas faladas “a lá funk” é outro empecilho para o reconhecimento de sua importância. Nós, brasileiros, produtores do funk, somos seus maiores críticos. O ritmo fez parte do encerramento da olimpíadas de Londres, é uma das influências do próximo disco de Paul McCartney, é utilizado como referência por inúmeros artistas renomados no exterior. Aqui é tido como ritmo marginal, submúsica. Como algo que só deveria tocar nas favelas, onde surgiu, sem se misturar com o resto da população. 

 “É som de preto. De favelado. Mas quando toca ninguém fica parado.”


*Becha Má é twittera toda trabalhada no veneno purpurinado. The bitch says: follow my ass!