sexta-feira, 4 de janeiro de 2013

ColunaZs – “Orações para Danilo (sobre o bullying na adolescência)”

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“É preciso estar atento e forte...”
(Caetano Veloso e Gilberto Gil)

Uns dias antes do natal, vindo não sei de onde, alguém compartilho na minha timeline no Facebook o link para a triste história de Danilo. O jovem, segundo conta o autor do blog, morava no extremo leste de São Paulo e levava uma vida pacata. Tranquilo, na dele, não aparentava ter nenhum problema. Até que, um dia de dezembro, os moradores da comunidade se chocaram com a notícia de que ele tinha se matado durante a noite.

Os motivos que levaram o jovem de 13 anos ao suicídio, como vocês já devem imaginar, são os mesmos que levaram e levam tantas pessoas nesse país. Outros adolescentes, que estudavam na mesma escola que Danilo, e alguns conhecidos de bairro foram dando as peças para montar o quebra cabeça. “Ele era meio viadinho”, disse um. “O pai e a madrasta batiam nele, não aceitavam”, disse outro. O jovem, provavelmente, não suportou essas situações, e optou pelo fim precoce. Treze anos não é uma idade para ninguém morrer! Treze anos não é uma idade para ninguém decidir se matar!

Quando li essa história me lembrei de uma entrevista onde uma psicóloga conversava sobre bullying. De acordo com pesquisas, ela disse que era impossível alguém sair da adolescência sem ter sofrido qualquer tipo de violência – física, verbal, enfim. Disse que crianças e adolescentes são cruéis, e não deixam escapar qualquer oportunidade para apontar “defeitos” nos outros. E não pude deixar de pensar: se todo mundo já sofreu bullying nessa vida, por que só alguns sobrevivem? Como eu sobrevivi?

Nos meus anos de escola, sei lá quantos, é claro que os coleguinhas de sala riram de mim algumas (muitas) vezes. Sempre fui muito mais alto, desajeitado, falava demais, perguntava demais, era participativo demais. E isso não era o padrão, não estava dentro do usual, da dinâmica das salas que frequentei. E por ser diferente era um prato cheio para que os outros falassem alguma coisa.

Quando encontrei esse relato mandei para um amigo, que se emocionou muito com a história do Danilo. E perguntei a ele como é que sobrevivemos, por que fomos os escolhidos para continuar, em qual loteria ganhamos para permanecer aqui. E chegamos à conclusão que, de alguma forma, em algum momento, nós percebemos que havia uma luz no fim do túnel. Nós vimos o pote de ouro no fim do arco íris, vimos que aquela situação era passageira, que mesmo que não lutássemos contra, um dia passaria. Como de fato, passou. Danilo, infelizmente, não deve ter visto essa luz, talvez porque as sombras que o cercavam tornassem tudo escuro demais.

Uma vez li que, para acabar com a escuridão, a simples luz de uma vela já é o bastante. Escolhi esse tema para minha primeira coluna de 2013 porque acredito que, se não podemos estar ali, lado a lado, caminhando junto com quem precisa e sendo fortes... que sejamos pelo menos uma luz de vela ao longe, indicando por onde se deve andar. 

Texto de Flavimar Dïniz. Ele está na internet desde 1999, quando sofria com conexões discadas e downloads a 3.4 kbps. Começou no mundo dos blogs em 2002 e não entende como não ficou rico com internet igual a tantos outros de sua geração. Adora música, cinema, literatura e jornalismo, sua formação profissional. Escreve sobre o ele achar que dê um texto de mais de 140 caracteres.