quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

ColunaZs – “Os mesmos gays, sempre!” (homossexuais nas novelas, séries, programas de tv...)

Loading


My name is Luka, I live on the second floor,
I live upstairs from you, Yes I think you've seen me before
(Suzanne Vega)

Com frequência aparece uma personagem gay em Grey’s Anatomy, seriado norte-americano exibido pela ABC, atualmente na nona temporada. Parece um pouco sem sentido eu começar um texto assim, com essa informação solta. Mas vocês logo vão entender.

O Brasil é o maior produtor de telenovelas do mundo. As produções nacionais são líderes de audiência, geram comoção no pais e são exportadas constantemente. Já conheci pessoas de outros países que me contavam, maravilhados, das lembranças de quando acompanharam as histórias de Helenas, Jades, imigrantes italianos e outras figuras conhecidas nossas. Entretanto, toda vez que um autor anuncia que sua nova trama terá uma personagem gay nossa expectativa se divide em duas: ou esperamos que a personagem seja caricata, tipo uma lésbica-caminhoneira ou a beeshinha-feliz amiga de alguma personagem feminina importante (porque convencionou-se que, no mundo, toda mulher importante tem um amigo gay); ou que a personagem sofra algum crime de ódio, preconceito em casa, no trabalho, e levante a bandeira contra a homofobia, pelos direitos iguais, etc. Como se, nas novelas, ser gay já puxasse alguma dessas características, e os tipos já viessem prontos para o autor, dentro de envelopes.

Sempre achei louvável inserir temas relevantes em novelas (ligados ou não à “causa gay”), pela enorme fatia da população que elas captam, no intuito de tornar esses assuntos mais “populares”. Mas a pergunta que fica é: se as novelas representam a sociedade, se são um recorte do mundo que vivemos, será que todo gay é militante, vítima de preconceito ou uma caricatura?

Quando eu abri o texto falando de Grey’s Anatomy foi porque, dia desses, me peguei assistindo a um episódio e pensando justamente nisso. As personagens gays de Grey’s Anatomy não estão ali levantando uma bandeira, inflamando discursos pelo hospital, ou fazendo comédia a partir de um senso-comum, de um estereótipo. Elas simplesmente são gays, da mesma forma que são altas ou baixas, têm cabelo claro ou escuro, ou adoram doces. E, com raríssimas exceções, não é isso que faz as personagens “girarem”, terem uma história dentro da trama.

Mas aí vão dizer: “ah, mas nos Estados Unidos é diferente, eles já estão mais evoluídos que nós, os gays lá já têm mais direitos.” Será? Só para se ter uma ideia, em 2011, o Supremo Tribunal Federal legalizou a união civil entre pessoas do mesmo sexo no Brasil. A decisão vale para todo o território nacional. Nos Estados Unidos, entretanto, apenas nove dos 50 estados tem a união homoafetiva legalizada. Podemos falar que, pelo menos nesse ponto, eles estão mais evoluídos?

A sensação que fico é que dificilmente veremos uma personagem na qual esse fator – ser gay – seja apenas um detalhe dentre as mais variadas abordagens que o autor dará a ela, entre as diversas tramas nas quais ela será inserida. É como se fosse impossível uma personagem gay, em uma novela, ter uma trajetória como a de Ellen Oléria, ganhadora da primeira edição do The Voice Brasil. A cantora do Distrito Federal encantou o país com sua voz, com o carisma e com o  repertório recheado de pérolas da música nacional. Um belo dia, durante uma de suas apresentações, a câmera focalizou duas pessoas bastante entusiasmadas na plateia e, nos créditos, o Brasil inteiro pode ler “mãe e namorada de Ellen”. Sem alarde, sem bandeira, sem comédia, mas também sem ficar trancado dentro de um armário. Sendo apenas ela... e pronto!

Texto de Flavimar Dïniz. Ele está na internet desde 1999, quando sofria com conexões discadas e downloads a 3.4 kbps. Começou no mundo dos blogs em 2002 e não entende como não ficou rico com internet igual a tantos outros de sua geração. Adora música, cinema, literatura e jornalismo, sua formação profissional. Escreve sobre o ele achar que dê um texto de mais de 140 caracteres.