quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

ColunaZs – “Mais uma (história) de amor” (sobre Fiona Apple, cachorros, mães e amizade)

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Há algumas semanas o Brasil recebeu a (tristíssima) notícia de que a turnê da cantora americana Fiona Apple, que passaria por aqui, pela Argentina, Chile e outros países não mais aconteceria. Em um comovente comunicado, escrito pela própria cantora e postado em sua página no Facebook, ela explicava aos fãs que Janet, sua cachorra de estimação, estava com uma grave doença e que, além de exigir cuidados mais de perto, o prognóstico não era dos melhores. Fiona decidiu, então, ficar em casa e, como ela mesma disse, dar carinho, conforto e preparar umas tilapias para uma amiga que, por 14 anos, esteve muito presente em sua vida. A cantora fez o que ela lindamente canta em “I know”, uma das músicas mais lindas de sua discografia: ser a alavanca para ajudar a amiga a sair dessa situação. A carta onde ela explica o cancelamento dos shows se estende por algumas páginas, mas nem precisei ler muito para me emocionar com a doce descrição da Fiona para seu relacionamento com Janet.

Muitos fãs comentaram a postagem, dizendo estar bastante emocionados, e mandando forças e energias positivas para a cantora e sua fiel companheira (uma expressão clichê, porém muito verdadeira quando se trata dos cães). Disseram entender perfeitamente a Fiona e prometeram aguardar um momento melhor para a vinda dela ao Brasil.

Entretanto, na mesma postagem, e em outros fóruns de discussão internet, li muita gente criticando a posição da cantora. Alegaram que a atitude não aparentava profissionalismo, que ela deveria ter mantido sim a agenda, e deixado alguém de confiança por lá. Alguns até lembraram o caso do cantor Gusttavo Lima que, recentemente, perdeu a irmã mas, mesmo assim, seguiu a agenda de shows, fazendo inclusive uma apresentação no dia do funeral.

Mas o comentário que mais me chocou (e infelizmente eu não li esse tipo de afirmação só uma vez) foi quando disseram que a Fiona deveria vir sim, que era “só um cachorro, não era a mãe dela”. Fiquei pensando nessa relação de hierarquia, onde um cachorro tem menos importância para uma pessoa que uma mãe. E se a Fiona não tiver uma relação muito boa com a mãe, ela ainda assim vale mais? E se a mãe fosse agressiva, ou tivesse colocado a cantora para fora de casa quando ela era mais nova? Ainda assim valeria?

No início desse ano o Muza nos contou a história de J.P., que no primeiro dia de 2012 teve que fugir de casa porque sua mãe descobriu que ele era gay. O jovem foi atender a um telefonema e deixou o computador ligado, alguns sites abertos e, aproveitando esse momento, ela leu algumas conversas particulares dele. Quando ele voltou ao quarto a mãe o agrediu fisicamente, e o que aconteceu foi um show de horrores desses que a gente sabe que acontece, mas nunca acredita que uma mãe pudesse fazer a um filho. A história contada pelo próprio J.P. nos mostra que a ideia de que somente devemos nos preocupar com as pessoas com quem compartilhamos laços sanguíneos é bastante equivocada. Para fugir de casa, ele contou com a ajuda de amigos que o acolheram, deram conforto e até fizeram uma festa para arrecadar dinheiro para ele se virar aqui por um tempo.

Veja bem: os amigos deram carinho, acolhimento, conforto, porque seguramente já haviam recebido isso dele, ou confiavam nele, caso precisassem algum dia. A Fiona resolveu ficar em casa com sua amiga porque, como ela mesma diz na carta, foi com a Janet que ela chorou e riu várias vezes. Nossas relações mais intensas se baseam em trocas de sentimentos. Amamos porque somos amados, porque conhecemos o sentimento e o praticamos; inspiramos confiança e confiamos naqueles que nos inspiram; e respeitamos quando somos respeitados exatamente da forma que nós somos. Essas relações não tem nenhuma ligação com genes em comum, elas simplesmente existem porque há o sentimento recíproco. Sentimento esse que liga humanos a outros humanos ou, também, aos não-humanos! É como diz aquela canção clássica, já gravada portantos: “a coisa mais importante que você vai aprender é simplesmente amar – e ser amado de volta...” 

Texto de Flavimar Diniz. Ele está na internet desde 1999, quando sofria com conexões discadas e downloads a 3.4 kbps. Começou no mundo dos blogs em 2002 e não entende como não ficou rico com internet igual a tantos outros de sua geração. Adora música, cinema, literatura e jornalismo, sua formação profissional. Escreve sobre o ele achar que dê um texto de mais de 140 caracteres.