quinta-feira, 29 de novembro de 2012

Texto sobre “Sair ou não sair do armário: eis a questão!”

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Há uns dias atrás me perguntaram por que as pessoas estão saindo do armário e assumindo sua orientação sexual mais cedo. Penso que este movimento acompanha as mudanças sociais e que a democratização e universalização do acesso à informação contribuem muito para este processo. Temos vividos estas mudanças aqui e agora!

Sair ou não sair do armário? Antes de responder a esta pergunta, vamos refletir sobre o que pode levar uma pessoa a se esconder em um armário, a usar uma máscara em sua vida... Medo... Medo de não ser aceito, de não ser compreendido e respeitado. Medo por não se sentir parte do todo, da maioria... Medo de ficar só... Medo de sofrer represálias... Medo de ser morto!

É claro que sair do armário tem suas vantagens, já que o sujeito tem a oportunidade de viver sua sexualidade com maior completude, apresentando assim melhor qualidade de vida. Contudo, começa também a vivenciar um processo de enfrentamento do preconceito, já que nossa sociedade ainda não acolhe os LGBTs. Para isto, é importante que o sujeito esteja fortalecido em seu processo de autoaceitação, para que possa encarar o mundo de frente... Mas por que a homossexualidade incomoda tanto algumas pessoas? Por que o fato de alguém estar com outra pessoa do mesmo sexo fere os princípios de outros?

Há vários caminhos para responder estas perguntas. O que percebo é que a repressão da sexualidade do outro acaba aparecendo com uma saída encontrada para conter e reprimir seus próprios desejos. Isso não quer dizer que todo homofóbico seja necessariamente um gay enrustido ou um gay em potencial. Os valores religiosos também aparecem como uma das principais munições para esta guerra santa. E ainda tem mais... O desconhecido assusta, amedronta!

No Brasil ainda temos o mito de que não somos preconceituosos e que quando falamos sobre homofobia seria exagero ou algo desnecessário. Todos os dias, ao sair de casa, ouço palavras, piadas que expressam a ideia da “normalidade” sendo imposto a todo custo – “seu viado”; “olha a sapatão”; “bicha”; “mariquinha”... Não podemos ser ingênuos. As falas nunca são inocentes! Qualquer piada ou frase tem uma intenção e uma ideia sobre algo. Tem o intuito de passar uma mensagem. E a mensagem que estas frases passam é que os homossexuais não são bem-vindos, não são normais e não têm direito a ter direitos.

A ciência vem reparando erros históricos ao não mais considerar a homossexualidade enquanto um desvio ou patologia. Mas muitas correntes e abordagens ainda insistem em manter este discurso, principalmente as de cunho religiosos e fundamentalistas. Estamos entrando na era dos direitos... Direitos Humanos! E o respeito à diversidade, dentre elas, a diversidade sexual, faz-se mais do que urgente! Pessoas estão morrendo todos os dias em nosso país pelo simples fato de serem lésbicas, gays, travestis ou transexuais. Muitos direitos lhes são negados... Direitos de ir e vir, direito ao trabalho, à saúde, á educação... A grande maioria dos LGBTs têm vivido uma vida subumana!

Precisamos começar a entender a homossexualidade e a diversidade sexual como um todo, como uma expressão como tantas outras da sexualidade. O perigo é constantemente buscar encontrar caixinhas para enquadrar as pessoas. Estamos vivendo um momento onde uma só caixinha já não mais nos basta ou ainda queremos transitar por estas caixinhas. E qual o problema nisso? Por que sempre temos que me enquadrar em um padrão? Por que só a heteronormatividade tem que imperar de maneira soberana? Cabe ressaltar que para reivindicar os direitos, identificar-se em uma caixinha fortalece esta luta, e em outros momentos, enfraquece e segmenta a mesma questão. Segmentar as lutas de acordo com suas demandas específicas é necessário, mas sem perder a ideia da luta como um todo, já que os LGBTs encontram-se ainda em um estado de vulnerabilidade social muito intenso. Neste caso, unir forças não só dentro do Movimento LGBT, mas também com outros movimentos sociais é primordial.

Quando os pais descobrem que seu filho é gay nem sempre a reação deve ser entendida como homofóbica. Há um mix de sentimentos, entre eles medo, perda e preocupação. Eles presumem que não terão netos e sentem esta perda, ou ainda preocupam-se que os filhos sofram por serem assim, por não serem acolhidos em nossa sociedade. Eles precisam de um tempo para digerir estas mudanças. Ultrapassando a fase da negação e rejeição, começam a dar oportunidade de desbravar este caminho. E o resultado, em sua grande maioria, é proveitoso para todas as partes, pais e filhos...

Sair ou não sair do armário? Esta é uma decisão muito pessoal e cada um deverá avaliar qual é o melhor momento para esta decisão... Mas esta escolha é a escolha de se aceitar e ser feliz! De se reconhecer enquanto sujeito de direitos, inclusive sujeito do direito de seu próprio corpo, prazer e sexualidade! Sujeito de direitos, que pode e deve viver plenamente sua cidadania!

Texto gentilmente cedido pela Dalcira Ferrão. Ela é psicóloga, especialista em Gestão Social, atua na área de afetividade e sexualidade; violências e Direitos Humanos. Dalcira também integra a clínica de psicologia Mindcare.