terça-feira, 13 de novembro de 2012

ColunaZs - "Veja? Pense!" uma crítica sobre o artigo preconceituoso publicado na revista Veja

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O texto, repleto da palavra homossexualismo, é mais uma publicação homofóbica da mídia nacional. Publicado na revista de maior circulação do país, a Veja, choca pelo tamanho da falta de informação, respeito, profissionalismo.

Se não leu a matéria completa, eu recomendo. É sempre bom sabermos exatamente do que estamos falando. O meu texto contém apenas algumas das citações, recortes, que achei mais importantes. Os uso para ilustrar meus argumentos, que são baseados na matéria completa.

“(...) atuais cruzadas em favor do estilo de vida gay (...)”

Já no segundo parágrafo o texto deixa bem claro a posição que acredita ser a dos LGBTT. Homossexualidade é retratada como estilo de vida, passível de crítica e julgamento. Une-se, de forma errônea, características naturais e escolhas individuais. Retrata a sexualidade, atração e afetividade, como sinônimo de um estilo de vida. Mas se contradiz já no parágrafo seguinte.

 “Como o restante da humanidade, os homossexuais, antes de qualquer outra coisa, são indivíduos. Tem opiniões, valores e personalidades diferentes. Adotam posições opostas em política, religião ou questões éticas.”

Vivemos o, dito, estilo de vida gay, mas somos indivíduos que adotam posições completamente diferentes com relação aos mais diversos assuntos. De qualquer forma, ambos os argumentos estão errados no que diz respeito a busca por reconhecimento dos direitos. Queremos os direitos enquanto LGBTT. O casamento é direito dos heterossexuais que, como diz o próprio texto, também são indivíduos com posicionamentos completamente diferentes. Mas o direito ao casamento não é baseado em posição política, personalidade ou ética, o casamento é para homens e mulheres, tão diferentes entre si quanto os LGBTT. O direito de se casar diz respeito, segundo nossa legislação, ao sexo biológico, e o que se acredita ser também o gênero, das duas pessoas, e só. Não diz respeito a nenhuma das outras características. Não podemos esquecer que o principal objetivo do movimento LGBTT é o respeito a diversidade.

 “O fato é que, de tanto insistirem que os homossexuais devem ser tratados como uma categoria diferente de cidadãos, merecedora de mais e mais direitos, ou como uma espécie ameaçada (...)”

O fato, na verdade, é que hoje somos tratados como uma categoria diferente de cidadãos, como inferiores, com menos direitos. Não queremos ser tratados como uma “espécie ameaçada”, mas é fato que somos constantemente ameaçados.

 “(...) imaginam-se mais vitimados pelo crime do que o resto da população(...)”
"Os homossexuais são vítimas de arrastões em prédios de apartamentos, sofrem sequestros-relâmpago, são assaltados nas ruas e podem ser mortos com um tiro na cabeça se fizerem o gesto errado na hora do assalto – exatamente como ocorre a cada dia com os heterossexuais; o drama real, para todos, está no fato de viverem no Brasil.

Ao contrário do que é dito no texto, somos sim violentados, agredidos, xingados, POR SERMOS LGBTT. Sofremos, assim como heterossexuais, estes crimes, mas o risco é dobrado. Podemos ser vítimas por motivos aleatórios, ou por motivos homofóbicos. Um crime não é homofóbico por causa da vítima, um crime é homofóbico por causa de sua motivação. Negar a existência de um problema não faz com que ele desapareça.

 “Não há o menor sinal de que a imensa maioria da população aprove, e muito menos cometa, esses crimes; são fruto exclusivo da ação de delinquentes, não da sociedade brasileira.”

Pois um crime só existe quando a imensa maioria da população comenta, caso contrário ele não existe. É por isso que todos os gays que apanharam na porta de casa, na rua, em ‘pontos gays’, pais abraçando filhos, travestis apedrejadas, não foram vítimas de crime algum. Pois todas essas agressões só seriam crimes se todos tivessem comentado. Sinceramente, não sei onde essa lógica funciona. E lembrando que esse pensamento vem da mesma pessoa que disse que nossa busca por direitos, por muitas vezes, foge a lógica. Esses crimes acontecem todos os dias, apesar da cobertura, e atenção, pífia que recebem. Pois tais crimes não são considerados crimes contra os direitos humanos, são só crimes contra a “comunidade gay” e só. Fruto exclusivo da ação de delinquente? Quantos não agredidos dentro de casa? Na escola? Na verdade, a maior parte das agressões acontece dentro de casa. O conceito de sociedade é muito amplo. Mas acho que podemos concordar que não é a sociedade brasileira que assalta milhares de cidadãos todos os dias. Confesso que o trecho, acima, foi um dos mais confusos e absurdos para mim. É difícil acreditar que existiu o mínimo de raciocínio lógico nas construção do mesmo.

"É por conta desse progresso que os homossexuais não precisam mais levar uma vida de terror, escondendo sua identidade para conseguir trabalho, prover o seu sustento e escapar às formas mais brutais de chantagem, discriminação e agressão.”

Não como 10, 20 anos atrás. Mas ainda sim sofremos com o preconceito. Desde o atendimento em certos locais ao espancamento sem motivo, sentimos o preconceito constantemente. Talvez seja difícil perceber quando se está distante da realidade, fazendo jornalismo sem pesquisa e sem sair da zona de conforto, do senso comum.

“Qualquer artigo na imprensa que critique o homossexualismo é considerado “homofóbico”

Assim como seria considerado racista um artigo que critique a pele negra, como seria considerado machista um que critique as capacidades da mulher. Inclusive já fizeram a troca, na matéria de Guzzo, de homossexuais por negros. Forma extremamente criativa de mostrar o terror que é o texto.

Homossexualidade não é uma atitude, uma opção, é uma característica com a qual nascemos. Como se escreve uma crítica a uma característica natural? Pois, com certeza, não é uma crítica a um estilo de vida.

“Insiste-se que sua publicação não deve ser protegida pela liberdade de expressão

E não deve, uma vez que liberdade de expressão é completamente diferente de preconceito. A mesma justificativa já foi usada para textos racistas e machistas. A liberdade de expressão não é máscara para preconceito.

"Homossexuais se consideram discriminados, por exemplo, por não poder doar sangue. Mas a doação de sangue não é um direito ilimitado – também são proibidas de doar pessoas com mais de 65 anos ou que tenham uma história clínica de diabetes, hepatite ou cardiopatias.”

Pois obviamente homossexualismo é doença e isso oferece risco de contaminação com nosso vírus gay. Agora falando sem sarcasmo, o direito de doar sangue é limitado por questões de saúde. A homossexualidade não interfere na saúde da pessoa, ao contrário dos outros exemplos citados. E quaisquer doença pode, e deve, ser detectada nos exames feitos com o sangue doado. Pois como qualquer ser humano somos vulneráveis a doenças. Mas me impedir de doar sangue por eu ser gay, é o mesmo que impedir o autor de doar sangue por ser heterossexual, e tão absurdo quanto o impedir de doar por escrever para a Veja.

“Pessoas do mesmo sexo podem viver livremente como casais, pelo tempo e nas condições que quiserem. Podem apresentar-se na sociedade como casados, celebrar bodas em público e manter uma vida matrimonial. Mas a sua ligação não é um casamento – não gera filhos, nem uma família, nem laços de parentesco. Há outros limites, bem óbvios. Um homem também não pode se casar com uma cabra, por exemplo; pode até ter uma relação estável com ela, mas não pode se casar. Não pode se casar com a própria mãe, ou com uma irmã, filha, ou neta, e vice-versa.”

Só essa citação já renderia páginas e páginas de texto. Mas vamos tentar pegar apenas pontos chave. Primeiro de tudo, homens não podem ter relações estáveis com animais. Tendo isso esclarecido vamos ao principal. Pela lógica do texto, casamentos, entre homens e mulheres, só são validados após ter filhos gerados. Casamentos congênitos envolvem questões genéticas, umas vez que apresentam riscos de saúde para as possíveis crianças. Casamentos entre pessoas do mesmo sexo não apresentam tal risco. Filhos não precisam ser gerados para fazerem parte de uma família. Da mesma forma que um casal heterossexual adota uma criança, lhe dá educação, cuidado e amor, um casal do mesmo sexo também o faz. Também existem famílias sem filhos, casais heterossexuais podem decidir não ter filhos, mas continuam constituindo uma família. E casamento não é só isso, existem direitos compartilhados que só são possíveis com um casamento. Se o casal é do mesmo sexo, ou não, não faz diferença. Os direitos devem ser reconhecidos.

“Não poder se casar com uma menor de 16 anos sem autorização dos pais, e se fizer sexo com uma menor de 14 anos estará cometendo um crime. Ninguém, nem os gays, acha que qualquer proibição dessas é um preconceito. Que discriminação haveria contra eles, então, se o casamento tem restrições para todos?”

A autorização é necessária pois a maior idade é 18 anos, antes disso os pais são completamente responsáveis pelos filhos. É crime fazer sexo com uma menor de 14 anos, pois isso se chama pedofilia. A pedofilia, ao contrário da homossexualidade, é considerada uma desordem mental. A comparação não cabe, uma vez que são exemplos completamente opostos. Mas serve para evidenciar o preconceito presente em todo o texto. Compara-se, aqui, o casamento entre pessoas, maiores de idade, em plena faculdade mental, do mesmo sexo, com casamento e relacionamentos com menores e crianças.

“A mais nociva de todas essas exigências, porém, é o esforço para transformar a “homofobia” em crime, conforme se discute atualmente no Congresso. Não há um único delito contra homossexuais que já não seja punido pela legislação penal existente hoje no Brasil.”

Não voltarei nos crimes que sofremos. Mas se uma pessoa for desrespeitada, agredida, por racismo? A legislação também já não punia? A questão é o preconceito, é derrubar a desculpa utilizada no texto, a mentira da “liberdade de expressão”. Preconceito é diferente de opinião. A criminalização da homofobia é essencial, pois assim o preconceito passa a ser punido também.

“Os gays já percorreram um imenso caminho para se libertar da selvageria com que foram tratados durante séculos e obter, enfim, os mesmo direitos dos demais cidadãos”.

Mas como citado no próprio texto, ainda não possuímos, entre outros, o pleno direito de nos casar e doar sangue.

Diz ainda que não é a nossa busca por direitos que muda o mundo e sim a evolução cultural e social. Mas pergunto, de onde vem essa mudança? As mudanças sociais e culturais acontecem quando as pessoas as fazem, quando as pessoas mudam. É um processo que envolve debates, discussões, informações e não braços cruzados esperando por um amanhã melhor.

Nos calar não faz com que os crimes desapareçam. Só os faz aumentar e passar despercebidos.

Este senhor, enquanto jornalista, deveria conhecer a história. Deveria ter a capacidade de pesquisar como os direitos, que já conquistamos, foram conquistados. Deveria saber que ninguém toma conhecimento de algo sem motivo, alguém passa a informação para a frente, alguém discute, o senso crítico é colocado em prática, absurdos são denunciados. Como jornalista ele deveria saber de tudo isso.

Não iremos nos calar, pois somos chamados de todos os nomes, dizem que irão nos exterminar, nos batem com lâmpadas, comparam nossas relações com casamentos entre homens e cabras, o direito de ser respeitado com gostar de espinafre.

Após uma demonstração tão grande falta de profissionalismo e respeito, mais do que uma retratação seria necessária. Mas não sei o que exigir de uma revista que teria que emitir retratações pela existência da maior parte de suas edições.

Essa parece ser uma matéria de alguém que espera que você simplesmente Veja.

Mas por favor, PENSE!

*Becha Má é twittera toda trabalhada no veneno purpurinado. The bitch says: follow my ass!