sexta-feira, 23 de novembro de 2012

ColunaZs – “O problema de ser eu mesmo” (estreia de Flavimar Diniz)

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O problema de ser eu mesmo
“Do I disappoint you, in just being a human?” (Rufus Wainwright)

Todo mundo aqui já mentiu alguma coisa a respeito de si mesmo. Ah, não quer usar a palavra “mentir”, acha ela muito pesada? Ok, todo mundo aqui já deu uma informação sobre si mesmo que não era bem verdade. Melhorou o discurso? Mas não importa, a questão é que, sim, você já mentiu sobre você mesmo. E não importa o motivo.

Não importa se foi para não magoar um amigo, não importa se foi para se proteger, não importa se, inclusive, foi para não polemizar algum assunto que você tinha certeza que, se desse sua real opinião, mágoas, lágrimas e cabeças rolariam. E aí, lembrou? Lembrou aquele dia que você disse gostar de uma banda só porque alguém estava empolgadíssimo com ela? Lembrou quando mentiu a idade, para mais ou menos? Lembrou de quando você falou que seu amigo estava ótimo com aquela roupa, mas você não tinha tanta certeza disso? Lembrou quando você não disse que era gay, porque ficou com medo das reações que isso poderia causar?

A líbero americana Stacy Sykora, vice-campeã olímpica e mundial, eleita uma das melhores do mundo em sua posição e ídolo da torcida do Vôlei Futuro, time de São Paulo onde jogou duas temporadas, lembra bem disso. Por anos a jogadora escondeu da família, dos técnicos e dos admiradores dela e do esporte o fato de que era lésbica. Isso mesmo, só isso, só esse pequeno detalhe. E escondeu por medo de não ser entendida, de não ter mais o respeito “dos chefes” e de ser criticada por aqueles que, por anos, vibraram com cada taça erguida. Porém, e tudo tem um porém (nesse caso, que bom!), ela achou que não valia mais a pena esconder. Que ser lésbica, como ela mesmo disse a um jornal italiano, não a tornaria uma pessoa pior, ou uma jogadora pior. Não mudaria quem ela era: atleta competente, de títulos, pessoa exemplar, e por aí vai. Porque, como eu disse há pouco, isso é só um detalhe, que para ela faz toda a diferença, mas que, para nós, não muda em nada quem ela é. Ou não deveria!

Quando li a matéria do Globo Esporte que contava sobre a revelação da atleta, me lembrei imediatamente do cd de 2003 da cantora americana Macy Gray, chamado “The trouble of being myself” (O problema de ser eu mesmo). A Stacy acreditava que revelar-se lésbica – ou ser ela mesma, no caso – era um problema. E tenho certeza que ela não está sozinha em pensar assim. Sermos nós mesmos implica abraçarmos tudo que temos em comum com os círculos a que pertencemos mas, também, defender nossas facetas diferentes, pelo simples motivo que tanto as coisas comuns quanto as nossas particularidades são o que nos compõem, nos tornam “nós mesmo”.

É um problema sermos nós mesmos quando temos que dizer que a tal banda não nos agradou; ou quando temos que dizer a nosso amigo que ele tem coisas mais interessantes no guarda-roupa; ou ainda dizer que, sim, sentimos atração por pessoas do mesmo sexo. Problema, sim, mas é perfeitamente possível dizer! Porque só sendo nós mesmos é que podemos nos sentir bem, nos sentir completos. Nos sentir como a Stacy, que afirmou que a revelação que fez lhe tirava “um peso das costas.” Que esse peso a menos a deixe bem mais leve para receber os ataques – dos outros times e de pessoas que ainda têm algum problema com quem decide ser quem realmente é! Como diz a Macy Gray, em uma música do já citado cd, “all the rain and all the pain, I hope it’s for the good ‘cause, I know I’ll never be the same...” (toda a chuva e toda a dor, eu espero que seja para uma boa causa, eu sei que jamais serei a mesma).

People! É com satisfação e prazer que o Muza está com um novo colunista: Flavimar Diniz. Ele na internet desde 1999, quando sofria com conexões discadas e downloads a 3.4 kbps. Começou no mundo dos blogs em 2002 e não entende como não ficou rico com internet igual a tantos outros de sua geração (Tipo quem? O Muza pergunta.. uahahah). Adora música, cinema, literatura e jornalismo, sua formação profissional. Escreve sobre o ele achar que dê um texto de mais de 140 caracteres. A imagem no início do post é do filme “O Clube dos Cinco”, segundo o próprio Flavimar: “Cinco alunos totalmente diferentes de uma escola americana são obrigados a ficar um sábado na detenção ´pensando na vida´. Cada um por ter feito uma coisa diferente. Por isso que acho que ilustra essa coisa do diferente, do medo de se expor e tal...”