quinta-feira, 18 de outubro de 2012

ColunaZs – “Inconveniências – o homem por trás de uma drag queen”

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Hello everybody,

Já faz alguns anos que a cena noturna em Belo Horizonte perdeu a diversão. Não que ainda não haja. Existe sim, mas muito menos do que era antes. Duas festas que indico e gosto de trabalhar são a Caramelo Sundae e a Yes Porn. Elas são produzidas por gente do bem e muito querida. Neles eu confio!

Entretanto, aumenta cada vez mais o número de pessoas desqualificadas trabalhando na noite e fazendo as coisas de qualquer jeito. Na maioria das vezes, são capazes até de dar calote nos outros, passar a perna, mentir e explorar. Fico indignado que ainda têm pessoas que não valorizam o trabalho de uma drag em uma festa, por exemplo. E acho que esse tipo de comportamento indiferente tem se imigrado ao público frequentador e não acho que seja característica só da comunidade GLBTUVXZ.

O mundo tá perdido mesmo. Que venha dia 21 de dezembro!

Há algum tempo tenho me deparado com definições pra lá de estranhas ao meu respeito. As pessoas não acham mais que sou uma travesti, elas tem certeza. Um dia desses estava num debate onde a maioria dos debatedores eram gays e, por mais que eu estivesse me identificado como um rapaz que sou, todos me tratavam como "mulher" ou a própria trava. Apesar de ser afeminado, nunca me preocupei em ser mulher, a não ser quando estou caracterizada pra algum trabalho ou evento. Mas as pessoas não ligam pros sinais, não se importam. Querem expressar através dos seus olhos o que suas mentes limitadas não conseguem compreender. Esse fato me chamou muita atenção, não por ser confundido como uma travesti, mas por eu não ser e deixar claro em muitas situações que não sou, e as pessoas pouco se esforçam a entender. Já que fazem tanta questão dos rótulos, poderiam ao menos indagar que certos rotulados estão longe de uma definição, como eu, por exemplo. E tenho total convicção que sim, há homens héteros que podem ser passivos com suas mulheres e gostar de um fio terra, sem deixar de serem machos. Assim como existem héteros afeminados. Isso não pode ser critério de identificação de orientação sexual, mas sim o fato de gostarem da fruta que lhe é mais atraente instintivamente.

Dolly Piercing em foto de Lucas Ávila
Desde pequeno as pessoas me confundiam (e olha que eu nem tinha cabelos grandes), me chamavam de menina e faziam coisas constrangedoras do tipo: “Como sua filha é bonita, Dona Gilka (minha mãe)". E cruelmente me informaram que eu podia ser homossexual antes mesmo de eu me definir. Ate aí tudo bem pra um bando de héteros dos anos 80. Agora em pleno século XXI, gays não saberem diferenciar é um tanto de mais, né?! Me poupem! Oh comunidade estúpida é essa massa gay. Já faz anos que estou farto. É tudo segregado... Um apartheid do arco-íris.

Eu sou andrógino desde a infância, nunca tomei hormônios, não possuo peito, não fiz plástica pra ficar com cara de boneca, ou seja, sou natural. Uso sim cabelo grande, um aplique pra esconder minhas entradas, unhas grandes feitas, pois a qualquer hora tenho propostas de trabalhos e tenho que estar preparada pros meus clientes e ando maquiado. Hoje em dia qual bicha, mesmo as mais hominhos, não andam de maquiagem? Afinal, cobro caro pra ser perfeita (na verdade nem cobro tão caro assim, mas vou começar). Em contra partida, ainda tenho barba, me apresento no gênero masculino e sou desleixado como um Zé qualquer.

Fiquei muito tempo sem escrever e estou voltando com todo vapor pra falar da única pessoa que importa na minha vida: EU. O que não significa que sou egoísta. Mas a única coisa que poderei falar com propriedade é sobre mim mesmo. E hoje, ao contrario dos outros textos, estou falando no gênero masculino. Por traz do personagem tem um homem que se veste de mulher há 17 anos e não tem problema com isso. Ser Dolly é um prazer único que só quem tem a oportunidade de ser outra pessoa sabe do que estou falando.

Porém, daí a ser considerado algo que não sou e aceitar isso é muito impositivo da parte de quem julga e me vê. E não é só isso. Estou cansado de ser tachado e até prejudicado pelo que os outros acham de mim. E quero propor para as pessoas que, ao invés de já definirem o outro, definam a si próprio. O que eu vejo por aí são figurinhas repetidas. Gente reproduzindo padrões e padrões do que elas se identificaram e que não necessariamente são elas próprias. Ou que caíram na besteira de ser o que os outros querem que sejamos. Vamos por um ponto final nisso. Quando alguém se apresentar pra você, fique atento aos sinais. Cada um os transmitem e os entendem dentro de suas conveniências.

Então é isso. Porque deixei de ser branca pra ser franca. Como qualquer gente bronzeada do Brasil deveria ser.