quarta-feira, 12 de setembro de 2012

Espetáculo “Trans” reestreia em BH. Leia entrevista excluZiva com o autor

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Nos dias 15 e 16 de setembro reestreia em Belo Horizonte o espetáculo teatral “Trans”, do bailarino mineiro Guilherme Morais (foto acima)*, no Esquyna Espaço Coletivo Teatral. A peça propõe a discussão sobre gênero, corpo e sociedade a partir do conceito de transgênero.
Em entrevista excluZiva, Guilherme contou como surgiu o espetáculo, como teve contato com o Movimento Trans na Argentina e a inspiração desse Movimento em “Trans”, falou das dificuldades enfrentadas pelo universo transexual e como nasceu sua paixão pela arte.
- Como aconteceu de você estudar o Movimento Trans da Argentina?
Na verdade foi tudo por acaso, eu fui pra Argentina, e ganhei um prêmio, que era uma residência com uma bolsa de estudos no “Centro Cultural de la Cooperacion”. Meu projeto era sobre dança e politica, que sempre me interessou, não necessariamente falar de politica mas fazer uma arte política. Então, eu fui buscar corpos políticos, foi a primeira coisa que me veio, quem faz do seu corpo um ato político. 

Primeiro, eu fui atrás de “body artistas” e por coincidência vi um panfleto de uma ocupação artística de uma casa que tinha como slogan “el under grotesco y politico” e fui nesse evento. Chegando lá, era um grupo de artistas de todas as áreas e quem coordenavam esse evento eram duas trans: Susy Shock, poeta, cantora, escritora e Marlene Wayar estudiosa e escritora, presidente da cooperativa trans intitulada “Futuro transgênero”. Eu fiquei louco com aquilo tudo, com o evento, com a arte delas, com o discurso e quanto uma coisa não se separava da outra. Daí, eu pedi pra integrar esse grupo e foi assim que tudo começou. A partir daí eu fui conhecer o movimento trans, e acompanhei o movimento durante os 3 anos que eu vivi na Argentina, em Buenos Aires.

Guilherme Morais, a artista Suzy Shock (à esq.) e outras pessoas do Movimento Trans da Argentina
- O que é esse Movimento Trans da Argentina?
O Movimento Trans é um grupo de travestis, transexuais e na época eu (risos), que se organizam pelos seus direitos, por uma visibilidade trans. Hoje, elas têm uma revista intitulada “El teje”, que é a primeira revista feita por travestis na América Latina, com o apoio da Universidade Federal de Buenos Aires. Mas a principal característica desse grupo, que é onde me identifico profundamente, é a não padronização do gênero: que a mulher tem que ser de um jeito, seguir um modelo de mulher e o mesmo com o gênero masculino, sendo que isso acontece na verdade com qualquer pessoa. 

Estamos sempre copiando modelos padronizados para sermos aceito e encaixados numa normativa social. O trans veio para mexer e bagunçar essas normas e gritar bem alto que outros sejam os normais. A principal luta desse grupo, que está avançando bem rápido, é sobre o direito da identidade de gênero, que inclui esse pensamento de transgênero, de que minha construção de gênero não passa pela genitália. Eu para me sentir mulher não preciso ter uma vagina ou ter passado, necessariamente, por uma intervenção cirúrgica. Se quero ter um documento que me represente como mulher é meu direito, eu construo a minha identidade. Porque até agora uma trans pode mudar a identidade somente depois de passar por uma intervenção cirúrgica.

- De que forma seu envolvimento com este Movimento inspirou o espetáculo “Trans”?
Em tudo e absolutamente tudo, desde a forma de pensar a arte e meu trabalho. Pra min, trans é um modo de se colocar em cena, na vida, nas minhas relações... O espetáculo em si, comecei tentando me tirar do lugar como bailarino e coreógrafo. Eu sou preparador corporal na Escola da PUC e do Grupo de teatro Mayombe, e sou super perfeccionista com a questão do corpo e movimento. A primeira coisa que decidi é que não queria trabalhar com um corpo treinado ou domesticado por alguma técnica de dança ou teatro, e trabalhar com materiais brutos, crus, não tentar limpar ou moldar o material apenas direcionar.

Não se trata de uma obra fechada, ela é completamente atravessada por muitas referências, políticas, sociais, culturais, artísticas e infinitas. A obra vai do excesso ao vazio. E acho que o mais importante do trans é se permitir ser atravessado e se respeitar como indivíduo único com desejos infinitos e múltiplos... E isso tá sendo, com a obra, o meu maior aprendizado como artista. Não se trata do que o outro espera, e nem de tentar fazer algo novo ou diferente, é permitir e acreditar no desejo do artista ou da pessoa, que ai vem a verdade que é quem realmente somos.
Guilherme em cena do espetáculo "Trans"
- Você conhece o Movimento Trans do Brasil? Pode comparar com o da Argentina?
Então, eu fui no 7º encontro de travestis, transexuais e transgêneros, que foi muito legal e aconteceu na UFMG. Veio gente do Brasil todo, e tinha um foco em uma educação trans, que realmente é um tema que tem que ser discutido. E foi lindo que foi justo dentro da universidade. Ainda não me vinculei a nenhum grupo, mas conheci muita gente linda nesse encontro e mantenho contatos via internet.  Mas não poderia fazer uma comparação entre os movimentos.

- O que você acha de tão peculiar/instigante no transgênero a ponto de lhe despertar o interesse desta forma (estudo, teatro...)?
São as amplas possibilidades de ser o que um pode ser, e poder ser o que você quer ser, explorar a si próprio, eu acho. Não sei se porque sou bailarino, tenho o pensamento que eu sou minha ferramenta de trabalho, então é muito importante liberar essa ferramenta para que ela realmente possa criar seu trabalho.

- Você também acha que o transgênero é o que mais sofre no universo LGBT e nos "outros universos"?
Eu tenho certeza que toda a comunidade travestis, transexuais e transgêneros sofre mais preconceito no próprio meio gay do que no meio heterossexual. Os gays, infelizmente, estão cada vez mais fechados para o diferente. Você vai a uma festa, estão todos com o mesmo corte de cabelo, a mesma roupa, cada vez mais presos no conceito do modelo masculino e pior, eles fazem questão de se identificar e deixar bem claro que fazem parte do que está se consumindo agora, sendo mais um tentando ser aceito por todos e considerado normal, mas não passa de mais um. É um conceito de beleza muito pequeno, esgotado, sem possibilidades, e a mídia é muito forte na nossa sociedade e padroniza tudo e todos.  E não se abrem para o novo ou diferente por puro medo, medo de não serem aceitos, de se descobrirem diferentes. Mas se somos todos diferentes... viva a diferença! 

-Há quanto tempo você trabalha com arte?
Eu danço desde os 12 anos, mas minha estreia profissional nos palcos foi com 17 anos, em Belo Horizonte, no Grupo Oficcina Multimedia, com direção de Ione de Medeiros, que é minha maior professora e referência artística. Foi no Grande Teatro do Palácio das Artes com o espetáculo “A Casa de Bernarda Alba” de Federico Garcia Lorca. E que agora aqui pensando já era super trans, era um elenco com sua grande maioria homens fazendo papéis femininos. Amava fazer esse espetáculo.

*Guilherme, que é bailarino do Meia Ponta Cia de Dança, colaborador do coletivo teatral Primeira Campainha, preparador corporal do “Filhos da Puc”, colunista da revista “O mimeógrafo” sob o codinome Trash Diva e fundador da plataforma This is Not

Serviço - Espetáculo "trans"
Datas e horário: dias 15 e 16 de setembro, às 20h
Local: Esquyna (rua Célia de souza 571,Sagrada Família - BH)
Valor: R$10 inteira R$5 meia.
Censura 18 anos