terça-feira, 31 de julho de 2012

Saiba como foi o show "Sandy canta Michael Jackson" que reestreou em BH

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"Sandy canta Michael Jackson" reestréia em BH com Sandy afinada, mas contida*


Na última sexta-feira (27/07), a cantora Sandy Leah reestreou no Palácio das Artes, em Belo Horizonte, a turnê "Sandy canta Michael Jackson" - show integrante do projeto Circuito Cultural Banco do Brasil, no qual também está Maria Bethânia, cantando Chico Buarque, e Lulu Santos, cantando Roberto e Erasmo Carlos. Entre os colegas do projeto, Sandy foi a mais ousada ao escolher cantar músicas de Michael Jackson, afinal - que me perdoem Bethânia e Lulu - cantar Chico ou Roberto (e Erasmo) Carlos é pouco inventivo e muito cômodo.

Mas a ousadia presente na escolha do homenageado e nos novos e impecáveis arranjos que Sandy e banda deram às canções do rei do pop está ausente na postura da cantora no palco. Não que falte presença de palco à Sandy, ela tem presença e carisma, mas a cantora ainda está contida demais, em expressão corporal, nos palcos. Estaria tudo bem se ela sempre tivesse sido assim, mas não, não foi.

Na maior parte da carreira com o irmão Junior Lima, Sandy dançava (e bem). A partir de 2003, com a "Identidade Tour" (2004/2005), Sandy e Junior deixaram o balé de lado e passaram a fazer shows somente com banda e sem dança.  Queriam que as pessoas os ouvissem e só. A filosofia, mantida até o fim da carreira da dupla em 2007, foi levada por Sandy à carreira solo. Levada ao extremo, infelizmente.



Timidez e identificação com Michael

Não só no show em que interpreta o rei do pop, mas nos shows da turnê de seu primeiro CD solo "Manuscrito", Sandy se censura demais no palco. Arrisca alguns passos, mas acaba envergonhada e parando, como se tivesse medo de que prestassem menos atenção à voz dela (como sempre afinada e potente ao ponto de se confundir com um CD). Falando em realeza do pop, ver a expressão corporal da Sandy de hoje nos palcos é como ver a Britney Spears de hoje nos palcos: está bom, mas fica péssimo porque você sabe que ela é capaz de mais. Não que Sandy devesse fazer o moonwalk ou dançar coreografado, mas ela precisa se soltar mais.

Tirando isso - e as ausências de "They don't care about us" e "Black or white" - "Sandy canta Michael Jackson" é um show assertivo e que encerra (ou intensifica) o flerte que a cantora sempre manteve com Michael Jackson ao longo da carreira dela. Flerte que começou em 1993 quando Sandy traduziu para a Linguagem Brasileira dos Sinais - Libras uma mensagem de Michael para o público, no primeiro show do cantor no estádio do Morumbi em São Paulo, passa pela versão de "I'll be there" gravada por Sandy e Junior como "Com você" em 1994, pelo clipe de "Enrosca" de 2001 em que Sandy e Junior se inspiram no clipe de "Scream" dos também irmãos Michael e Janet Jackson, e por "Ben" sucesso dos Jackson Five interpretado por Sandy no DVD Zé do Rancho, como homenagem à canção que o avô cantava para a mãe de Sandy, Noely, na infância. Vale lembrar ainda que, assim como Michael Jackson fazia, Sandy também grava os vocais de apoio e coro de suas próprias músicas (desde 2003).

Então, quando Sandy diz no palco que é fã de Michael ela não mente. Não mente também quando diz se identificar com o incômodo do rei do pop com a exposição na mídia, antes de interpretar "Leave me alone" do rei. Desde que - mesmo sem nunca ter dado uma entrevista dizendo que se casaria virgem ou defendendo a virgindade - Sandy se tornou a eterna virgem após declarar à revista Capricho, os 16 anos, que ainda não tinha beijado de língua - algo natural para a idade - a cantora se acostumou a ter sua vida julgada. Aliás, não se acostumou.



Sandy é solo e é cover

No show cover de Michael, Sandy comprova mais uma ver ser uma grande intérprete capaz de transformar músicas consagradas na voz de outros em canções que parecem ser delas. Este é o quarto projeto dentre os shows coversfeitos pela cantora, que incluem "Projeto Aquárius" (2005) com o canto erudito de Heitor Villa-Lobos, "Credicard Vozes" (2005) extendido para a "Sandy Turnê Solo" (2007 - antes do fim da dupla Sandy e Junior) com versões de clássicos de Jazz e Bossa Nova, "Piano e voz" (2006/2007) ao lado do pianista Marcelo Bratke com música erudita, Jazz e Bossa Nova no repertório.

A Sandy só falta se soltar mais, se levar menos a sério, se preocupar menos no palco e dançar como ela demonstra ter vontade. Sim, o público na plateia está em fase de transição, assim como a cantora: parte são os que a acompanham desde a infância (dela e deles), parte são os que admiram a voz de Sandy e só. Às vezes parece que Sandy se sentiria mais à vontade com o primeiro público, às vezes com o segundo. Mas acredito que ela vai conseguir encontrar um meio termo para isto e uma expressão corporal tão magistral quanto a voz. Para quem teve coragem de transformar o "e" que insistia em uni-la ao irmão Junior em "." (ponto final), isso parece ser fácil - ou não.



Sandy canta Michael

Pontos altos
- Voz irritantemente afinada (no bom sentido)
- Cenário surpreendente e figurinos simples, mas simbólicos e de bom gosto
- versão de Sandy para "Billie Jean" e a interpretação de "Ben" e "Leave me alone"
- momento nostalgia com "I'll be there"
- comentários de Sandy sobre Michael Jackson

Pontos baixos
- expressão corporal contida demais
- falta das canções "Black or white" - hit de Michael 
e "They Don't care about us" que provavelmente ficaria bem na voz de Sandy
- falso bis que persegue Sandy desde a época com o irmão (em todos os shows ela estrategicamente se despede e volta pouco depois "a pedidos", ela sai e realmente pedem "bis", mas o público fiel já sabe que isso irá acontecer)
- Sandy olhando por diversas vezes para monitores no chão que pareciam mostrar a letra da canção. É jusitificável, mas...
- encerramento com canção não tão empolgante assim (sim "Don’t Stop Til You Get Enough" foi #1 de Michael em 1979, mas não é clássica para o grande público)

* Texto e crítica por Ruleandson do Carmo jornalista e responsável pelo blog "Eu Só Queria Um Café"
* Fotos por Diego Concesso