quinta-feira, 31 de maio de 2012

ColunaZs – “Roberto Piva: surreal, homoerótico e marginal”

Loading


“Minhas almas estão sendo enforcadas
Com intestinos de esqualos
meus livros flutuam horrivelmente
no parapeito meu melhor amigo
brinca de profeta
no meu cérebro oito mil vagalumes
balbuciam e morrem.”
(Roberto Piva)

Ao longo desses pouco mais de dez anos em que venho caminhando de mãos dadas com a literatura, muitos foram os poetas que despertaram em mim certa admiração que fosse além de uma simples apreciação pela obra, mas uma identificação com o ‘modus vivendi’ dos autores. Citar alguns seria um profundo desrespeito à infinidade de nomes que de alguma forma influenciaram o meu modo de ser e estar no mundo, de perceber o que está a minha volta e até mesmo de ler e escrever. Entretanto, neste texto, peço licença aos demais para ressaltar minha grande afinidade com a vida e a obra de Roberto Piva.

Paulista nascido em 25 de setembro de 1937, Piva logo se destacou como uma das vozes mais originais da poesia brasileira. Seu primeiro livro, Paranóia, publicado em 1963, abria uma fratura exposta na literatura da década de 60 traduzindo o caos urbano de São Paulo através de um lirismo violento.  Sua poesia, com versos soltos, longos, sem métrica, sem rimas ou regularidades, traz como temática a homossexualidade, a marginalidade e as desigualdades sociais. Muito influenciado pelos beats e escritores como Murilo Mendes, Marquês de Sade, Jorge de Lima, Antonin Artaud, Arthur Rimbaud, Álvares de Azevedo e Pier Pasolini, além dos constantes efeitos dos narcóticos e alucinógenos, ele constrói uma poesia que transita pela “road trip” suburbana contaminada pela sujeira e pela violência dos submundos.

Em plena ditadura militar, o ato heróico de Piva foi quebrar os tabus da época abordando temas eróticos e homoeróticos de forma subliminar. Assumia suas influências e não tinha pudores na escrita. Tudo era matéria de poesia.  Apaixonado pelas turbulências de sua cidade natal, Piva imprimia também em seus poemas, por influência dos autores que lia e admirava, certo ar místico. A fusão desses elementos fica evidente em poemas como “Praça da República dos Meus Sonhos”, um dos mais conhecidos:

A estátua de Álvares de Azevedo é devorada com paciência pela paisagem de [morfina
a praça leva pontes aplicadas no centro de seu corpo e crianças brincando na tarde [de esterco
Praça da República dos meus sonhos
onde tudo se faz febre e pombas crucificadas
onde beatificados vêm agitar as massas
onde Garcia Lorca espera seu dentista
onde conquistamos a imensa desolação dos dias mais doces (...)
(Paranóia, 2005)

Sua maneira de escrever, muito despojada e espontânea, misturando os mais variados ritmos e tons numa mesma estrofe - a meu ver, muito parecido com o que Waly Salomão costumava fazer em seus poemas - me inspira e traz certa familiaridade com sua dicção poética.  A psicodelia e o surrealismo, muito presentes em quadros e fotografias espalhados pelo apartamento do poeta, estão retratados também em poemas como “Beija-Flor Badulaque”:

Nus & feéricos
Olho no gatilho meia-lua
Nado esta manhã a favor da correnteza
À deriva
No miolo do furacão
Eu era uma Sibila entre os gonzos da linguagem
Samba-Vírus
Exus nanicos carregando cabaças de pedra da lua no portal do meu ouvido
Cruzamento das Avenidas Assassinado $ 69
Garoto-pombinha no balcão da lanchonete
Esperando o pernilongo da Morte
Estrelas rachadas gotejam leite dos deuses
É com este que eu vou sambar até a Pradaria-Kamikase
No trecho Belém-Brasília da Teogonia.

Em 2005, o professor de Teoria Literária da Unicamp, Alcir Pécora, organizou a publicação de suas obras completas em três volumes pela Editora Globo, o que deu ainda mais visibilidade e reconhecimento ao seu trabalho.

Em meados de 2000, Piva apresenta sinais de Mal de Parkinson, doença que o acompanharia até à morte, em 3 de julho de 2010. Segundo os médicos, o poeta teve falência múltipla dos órgãos em decorrência de insuficiência renal. Famoso pela rebeldia e pela personalidade forte, ainda que muito gentil e educado, tentou fugir do hospital onde estava internado, conforme nos relata seu companheiro, Gustavo Benini. Mesmo tendo realizado cirurgia cardíaca, pedia aos amigos que levassem papel e caneta para o hospital e escrevia disfarçadamente.

Veja Roberto Piva recitando seus próprios poemas aqui: