quinta-feira, 19 de abril de 2012

ColunaZs – “Entre o sagrado e o profano: Waldo Motta e o evangelho do Deus Anal”

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NO CU
DE EXU
A LUZ.
(WM)

Depois de Lampião e Anderson Herzer, é a primeira vez que escrevo, aqui, sobre um autor que, além de conquistar rapidamente minha admiração e trocar “recadinhos” comigo pelo facebook, vai à padaria, toma café, paga suas contas, enfrenta filas de banco e tem uma obra tão viva quanto ele. Waldo Motta é, sem dúvida, um dos nomes mais interessantes da nossa literatura. Capixaba de São Mateus, nasceu no dia 27 de outubro de 1959 para dar ao mundo, anos depois, o ar da sua graça poética. Na verdade, um misto entre sagrado e profano, um híbrido entre arte, ciência e religião, uma espécie de “evangelho do Deus Anal”. Nas palavras do escritor Erly Vieira Jr., "sua poesia situa-se no cruzamento entre o homoerotismo e uma leitura das Sagradas Escrituras."

Crítico e bem engajado, Waldo publicou seus poemas “analgramáticos" em mais de 12 obras, dentre edições e organizações próprias. Seu método paraclético permite um passeio tranquilo, mas não menos denso, pela "poiesis". Entretanto, sua genialidade vai muito além do fazer poético. Como ele mesmo diz: quase virou militante; quase ganhou um prêmio Jabuti; quase sucumbiu à paixonite juvenil pelo teatro; atualmente pesquisa e ensina o que sabe sobre símbolos, mitologias, hebraico, guarani e outras línguas, além da numerologia, cabala e quejantos; também interpreta sonhos, traduz passagens bíblicas; ministra oficinas literárias e recita em teatros, escolas, bares, praças, entre outros.

O próprio autor afirma que a sua poesia é uma síntese do seu projeto de vida, uma aventura em busca da Verdade, intuída como a ciência da restauração da condição divina. Não quer apenas escrever, mas também ser o que escreve. E acrescenta: “Daí o entusiasmo e o tom solene, porque é algo sério; daí o caráter pregacional, mesmo que o meu discurso esteja ainda em construção.” Iumna Maria Simon afirma, na contracapa de Transpaixão, que a poesia de Waldo tem muitos lados de novidade: “(...) A começar pela riqueza e variedade formais, raras hoje em dia, que revelam uma capacidade poderosa de incluir mundos e experiências as mais particulares, desde a gíria até referências míticas, religiosas e sexuais, ampliando a experiência existencial de um escritor que procurou entender sua homossexualidade por vias inusuais.”

Bundo, uma de suas obras mais importantes, nos apresenta poemas monotemáticos e tautológicos, acerca de uma sabedoria sagrada, oculta na bíblia cristã através de códigos cabalísticos cifrados e análises numerológicas. Para o autor, o ânus é “a base do chakra raiz, o ponto zero da acupuntura, a juntura da coxa de Jacó, o Deus revelado a Moisés pelas costas”.

ANUNCIAÇÃO
Eu sou a Nossa Senhora do Buraco negro,
Sujo e Fedorento da Rocha Dorsal,
Mãe dos nove céus, a tetéia do caralhudo.
Sou a dona de todo o universo.
Estou injuriada com este povo
Atolado em minhas pragas, em desgraças
Que o louvor a Deus evitaria.
Ai de quem esqueceu a pedra santa
E o caminho da casa do Senhor!

ENCANTAMENTO
Ó Deus serpentecostal
que habitais os montes gêmeos,
e fizestes do meu cu
o trono do vosso reino,
santo, santo, santo espírito
que, em amor, nos forjais,
felai-me com vossas línguas,
atiçai-me o vosso fogo,
daime as graças do gozo
das delícias que guardais
no paraíso do corpo.


Quando leio seus poemas, sinto a presença de um poeta descontraído e à vontade com sua própria escrita, como se cada verso fosse fruto da iluminação divina e, portanto, fluísse da maneira mais poética possível. Se o desejo de Waldo Mota é a busca da Verdade (e seus versos trazem em si verdades axiológicas), o Novalis nos garante: “Quanto mais poético, mais verdadeiro”.

Para ler outros poemas de Waldo Motta, acesse seu blog oficial.

*Hugo Lima é Performer, educador e poeta!