terça-feira, 3 de abril de 2012

ColunaZs – “Atuação”

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A foto: O loiro é Neil Patrick Harris, um ator gay. Ele interpreta um hetero pegador – Barney Stinson - na série How I MetYourmother. Ele recebe um salário por sua atuação.

A inspiração para este texto foi a música “The Actor” do Robbie Williams,mas fica também “Why´s it so hard” da Madonna. Uma fala da atuação humana, enquanto a outra questiona os ‘padrões’ sociais.

“Porque não podemos aprender a aceitar as diferenças, antes que seja tarde demais”

“Primeiro você não consegue atuar, agora não consegue parar.” É bem essa a dinâmica que muitos enfrentam. De início é bem complicado esconder quem somos, principalmente na fase de descoberta. Com o tempo somos reprimidos, o preconceito nos força a atuar, fingir que somos diferentes, nos portamos de forma diferente para que possamos ser aceitos. Esse preconceito pode ser tanto externo quanto interno.

Atuamos em diferentes fases da vida e em diferentes situações. É comum se esconder na escola para não excluído, se esconder em casa para não ser rejeitado, em uma entrevista de emprego para não perder a oportunidade. Quando se está dentro do armário a atuação costuma ser constante.

Mas, assim como eu, muitos estão fora do armário e tem orgulho. Nesses casos a vergonha costuma ser coisa do passado. Muitos também são militantes. Mas mesmo assim nos encontramos em situações em que precisamos atuar, esconder quem realmente somos. Muitas vezes sem nem mesmo perceber. Obviamente isso pode ser uma certa vergonha ainda presente, ou a necessidade de sobreviver, se preservar. É nesse ponto que eu queria chegar. Pois no fundo, a razão para toda essa atuação é a sobrevivência. Seja essa sobrevivência social ou literal, a grande motivação é o preconceito. Muitas vezes nos vemos obrigados a atuar para que possamos seguir em frente sem uma agressão verbal ou física, sem que sejamos assassinados. Em ambientes hostis acaba sendo melhor passar desapercebido. Em famílias preconceituosas se é gay da porta pra fora, dentro de casa fica a atuação. E mesmo assim, este “da porta pra fora”também tem suas delimitações.

Em cada vez mais lugares é possível agir de forma natural. Mas não podemos viver dentro de bolhas de prosperidade gay, pois elas irão estourar a qualquer momento. Devemos prestar atenção a detalhes como este, como atuar por instinto de preservação. Os locais que exigem a repressão, são os locais que precisam de mais trabalho, de mais conscientização, de mais educação.

A atuação fica natural, muitas vezes nem percebemos, e é exatamente por isso que ela é preocupante. Nós não devemos ter que atuar, suprimir partes tão básicas de nossas personalidades.

O triste é ver a atuação nossa de cada dia virar um ato quase que religioso. A vida é muita curta para se viver segundo um roteiro escrito pelo preconceito. Deixemos a atuação para quem recebe por ela.

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Becha Má é twittera toda trabalhada no veneno purpurinado. The Bitch says: follow my ass!