quinta-feira, 15 de março de 2012

Leia crítica excluZiva sobre o filme “W.E.”, da Madonna

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Por Átila Moreno*



Na verdade, eu não esperava muito de W.E – O romance do século, dirigido por Madonna. Minha expectativa era, no máximo, encontrar uma obra cinematográfica fria. O longa-metragem tem pontos irregulares, mas é injusto ser rotulado de amador e mediano.

W.E narra a relação amorosa entre uma norte-americana divorciada duas vezes, Wallis Simpson (a ótima Andrea Riseborough), e o rei inglês Edward 8º (James D’ Arcy), que abdicou do trono para se casar com a amante.

De forma paralela, Madonna inclui a história de uma mulher contemporânea: Wally, que vive um relacionamento conturbado e violento. Para preencher o vazio existencial, ela fica obcecada pela trajetória de um romance que se tornou um escândalo na década de 1930 no Reino Unido.

Wally é interpretada pela fraca, desengonçada e insossa, Abbie Cornish. Personagem que inicialmente seria vivida pela belíssima Vera Farmiga, mas esta abandonou o projeto. Amy Adams chegou a ser cogitada, porém perdeu o posto. Por alguns momentos fiquei imaginando que Keira Knightley caberia bem nesse papel como segunda escolha.

A narrativa foi o pecado e a redenção de Madonna, que co-escreveu o roteiro com seu parceiro de longa data, Alek Keshishian (diretor de Na Cama Com Madonna). Trazer duas histórias paralelas em tempos cronológicos tão diferentes, diante de uma complexidade intensa, requer muito cuidado. Para se ter uma ideia, o mesmo recurso, dosado na medida certa, já foi utilizado em As Horas, de Stephen Daldry.

Talvez o deslize de W.E tenha sido a ênfase na história que se passa na “atualidade” (na década de 90). Isso não permitiu o aprofundamento no relacionamento da duquesa e do duque de Windsor (o que é mais intrigante ao longo da trama). Alguns pontos ficaram obscuros na história de Wallis e Edward: o encontro com Hitler e o cotidiano do casal após a abdicação do trono.

Por outro lado, o fato de Madonna usar Wally como seu alter ego é uma boa sacada. Justifica e esclarece a paixão da diretora com a história, além de pontuar indiretamente alguns dos seus traços autobiográficos. Uma possível ligação com agressão física sofrida por Madonna durante o casamento com Sean Penn não é mera coincidência.

Elementos que ajudam transparecer a amarração entre as personagens e a própria Madonna. Quem sabe os devaneios de Wally na trama são utilizados como válvula de escape para exorcizar os demônios da Material Girl.

Há ainda diálogos deliciosamente perturbadores (estilo peculiar presente também nas suas composições musicais até hoje). Madonna também brinca com a linguagem cinematográfica. Encanta com o uso dos enquadramentos pouco convencionais, a manipulação da câmera subjetiva, da granulação, dos movimentos circulares e da misé-en-scene (talvez esta última explique o fato de algumas cenas serem tão longas). Nota-se ali a junção do que ela absorveu da sua experiência em ser dirigida em seus videoclipes mais experimentais.

Em determinadas cenas, ela exagera no uso da elipse, errando feio. Mas traz um brilhantismo em grande parte da montagem. Acerta também na escolha da direção de arte, do figurino impecável (Arianne Phillips levou o prêmio do sindicato e concorreu ao Oscar) e da trilha sonora, esta um espetáculo a parte.

Madonna e Abel Korzeniowski fizeram um trabalho encantador aos ouvidos e bastante coerente (a música Masterpiece chegou a ganhar o Globo de Ouro por Melhor Canção). E em muitos momentos, a união entre sonoridade e imagem foge do clichê e percebe-se uma alusão suave com o filme Maria Antonieta, de Sofia Coppola.
No entanto, o grande denominador comum de W.E é seu olhar feminino/feminista. Na história do cinema, é indiscutível a quantidade esmagadora de homens que comandava (e comanda) as lentes das câmeras.

W.E foi até muito arriscado nesse ponto. Madonna optou por contar a história mostrando a versão de uma mulher que foi extremamente odiada naquela época. Por mais que se insinue que W.E é um filme de “mulherzinha”, sentimental demais, há de se reconhecer que os problemas discutidos ali continuam a fazer parte do universo das mulheres até hoje: violência, amor passional, traição, gravidez e a idealização de um príncipe encantado.

Só acho engraçado alguns críticos apontarem isso de forma pejorativa, mas não diriam o mesmo de Crescei-vos e Multiplicai-vos, de Jack Clayton (que só para constar é grande referência já dita pela própria Madonna).

Aliás, Madonna trata o conto de fadas de uma forma bem dicotômica. É cruel em mostrar o enclausuramento amoroso de Wallis. A cena em que ela é sujeitada a dançar para o marido é de uma metáfora afiada e desconcertante. Também é pouco otimista em dar aquele final a Wally (final, que por sinal, foge do clichê e está sujeito a indagações).

*Átila Moreno é jornalista e responsável pelo tumbrl Atila UnoIkki.





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