quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

ColunaZs – “Anderson `Bigode´ Herzer: Da Queda Para o Alvo (o livro e a história de um transexual)

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“Fiz de minha vida um enorme palco sem atores.” (Herzer)

Anderson Herzer nasceu Sandra Mara Herzer, em Rolândia, norte do Paraná, em 1962. Teve uma infância conturbada: aos quatro anos, o pai foi assassinado e, pouco depois, a mãe, prostituída, a abandonou. Vivendo entre o desamparo e as ruas, acabou se envolvendo com as drogas e em inúmeras brigas que a levou ao internato na antiga Fundação Estadual do Bem-Estar do Menor, vulgo FEBEM.

Lá, percebendo que os conflitos com sua identidade de gênero se intensificavam, resolveu cortar os cabelos e afirmar a transexualidade. Como nos conta Eduardo Suplicy: “Em seu corpo cresceram pêlos, seu cabelo foi cortado como o de um rapaz. Passou a usar roupas exclusivamente masculinas. Em todas as unidades femininas da FEBEM, principalmente na Vila Maria, em que passou mais tempo, Herzer se tornou, mais que líder, "chefe de família", pessoa responsável por muitas iniciativas.” Adotou, então, o nome de Anderson “Bigode” Herzer. “Bigode” em homenagem ao seu namorado que desapareceu num acidente de moto, único homem que aprendera a gostar. Segundo Lia Junqueira, presidente do MDM, ela queria se tornar o próprio Bigode.

Durante a permanência no internato, entre um afazer e outro, rabiscava versos e peças de teatro num caderno, o que chamou a atenção de alguns funcionários do local e foram parar nas mãos do então deputado estadual Eduardo Matarazzo Suplicy. Sensibilizado com seu talento para a escrita e sua história, Eduardo lhe ofereceu uma oportunidade de trabalho em seu gabinete. Anderson, recuperado do vício das drogas, mas ainda fazendo uso de Optalidon, passou a ir trabalhar de terno e gravata causando certo alvoroço e a repugnância por parte de alguns colegas.

Tendo que conviver com o preconceito, manter a compostura em gratidão ao auxílio que Suplicy lhe oferecera e ainda em crise por ter a mentalidade de um homem no corpo de uma mulher, Anderson desabafou sua revolta em inúmeras linhas que deram origem ao seu único livro, “A Queda Para o Alto”, publicado em 1982.

O livro, além de sua narrativa de experiências pessoais, contém denúncias sobre os maus tratos na FEBEM. Foi escrito na tentativa de diminuir a violência, a corrupção e a morte de menores. Como seu maior desejo era que sua obra fosse dedicada a eles, todos os recursos arrecadados com a venda do livro foram destinados aos movimentos em defesa dos menores marginalizados. De acordo com Suplicy, “ela só queria que as pessoas fossem humanas.”

Na mão do que se produzia na época, em termos de literatura marginal, a escrita de Herzer, além de densamente autobiográfica, é feita de versos e prosas ásperos, como se fossem cuspidos na cara da sociedade que tentava colocar panos quentes em situações de risco como a vida de garotos e garotas como ela. Herzer põe à tona todos os tipos de preconceito na tentativa de mostrar o quanto somos semelhantes pelas diferenças. Lema que ainda hoje é ignorado por boa parte da nossa sociedade alienada em seus padrões e estereótipos. Tais fatores talvez tenham feito com que seu nome fosse tão rapidamente esquecido ou ofuscado por outros como Ana Cristina Cesar, Caio Fernando Abreu, Glauco Mattoso, Chacal, Cacaso, etc. Mas não podemos esquecer que toda a sua produção é também um registro. Como citei anteriormente na voz de outros autores, a literatura é “[...] um retrato de determinada época, [...] assume papel fundamental no registro da cultura que, difundida e compartilhada, contribui para modificar o olhar das pessoas e torná-las capazes de refletir, atuar e agir sobre ela.” Herzer documenta, então, seu modo de vida, suas angústias, seus sentimentos, seus medos, suas vontades e, assim, vai deixando seus rastros que, felizmente, foram bem aproveitados e, através de atitudes como a de Suplicy, hoje fazem parte da história, ainda que pouco repercutida ou acessada.

À moda dos grandes escritores da sua geração (ironicamente, claro!), Herzer tentou se suicidar. No dia 9 de agosto de 1982, como narra Suplicy no prefácio de “A Queda Para o Alto”, “[...] por volta das vinte e três horas e trinta minutos, telefonaram-me do Hospital Gastro-Clínica dizendo que alguém havia levado para lá Sandra Mara Herzer, achada gravemente ferida embaixo do Viaduto 23 de Maio. Em seu bolso um envelope de Optalidon, indicando que dez comprimidos haviam sido tomados, e duzentos e poucos cruzeiros. Também um papel com meu nome e telefone. Estava muito mal e iriam transferi-la para o pronto-socorro do Hospital das Clínicas. Lá a encontrei, em estado de choque, porém ainda consciente. Olhou-me nos olhos, apertou a minha mão, disse-me que estava com muitas dores. Pediu-me que a virasse na maca, mas não era possível.”

Herzer faleceu às nove e meia da manhã do dia seguinte.

Postumamente, seu livro teve uma adaptação para o cinema, sob direção de Sérgio Toledo, e inúmeras releituras para o teatro.

Para baixar “A Queda Para o Alto”, clique aqui:

*Hugo Lima é Performer, educador e poeta!