quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

ColunaZs – “Tempestade no sertão”

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Sem querer mudar de assunto, mas já mudando, toda a “teoria” – observem bem as aspas - do meu último texto é posta em prática mais uma vez na polêmica envolvendo ícones e sexualidade.
Recentemente, Aldo Albuquerque, juiz da 7ª Vara Cível de Aracaju, proibiu o lançamento do livro "Lampião O Mata Sete", escrito por Pedro de Morais, por “ferir a honra dos descendentes do cangaceiro”. Tudo isso porque, no livro, há capítulos que insinuam a homossexualidade de Virgulino Ferreira da Silva, o famoso Lampião, além de acusar sua esposa, Maria Bonita, de adultério.

Confesso que, mesmo sendo uma discussão antiga, fiquei bastante surpreso, pois até então nunca tinha me atentado para o assunto, mas, como citei num texto anterior, literatura é documento: artigos, cartas, revistas, entrevistas, etc., podem sim ser materiais suficientes para retratar os rastros que o sujeito deixa ao longo da história. Segundo o autor da obra, “as informações não foram colhidas do nada, há muito mais por trás e além do que está no livro.”

Dizem que "a família se sentiu ofendida". Qual a ofensa? Num país tão viril, talvez a acusação de que ele sofria problemas de ereção seja algo relevante, mas o fato de ser gay? Para a sociedade em que vivemos hoje, isso certamente passaria como um mero detalhe não fosse o alarde que a própria família e o tal juiz resolveram fazer com o caso. E olha que este nem é o tema central da obra!

Segundo o autor, “essa teoria [a da homossexualidade de Virgulino] já existe há mais de 40 anos. Ex-cangaceiros e remanescentes do cangaço sempre confirmaram isso.”

“Direito de liberdade de expressão tem limite. Essa obra viola a invasão de privacidade. Ele é uma pessoa histórica. Quando se fala de Lampião, é da parte histórica. Que ele era violento, pistoleiro, herói ou bandido, mas neste caso atinge a honra da família. Está interferindo na vida da pessoa, de sua família”. Este é o argumento de Wilson Winne, advogado da família. Convenhamos, é respeitável! Acusar Maria Déia de adultério e colocar em cheque a paternidade de Expedita Ferreira Nunes depois de 79 anos realmente é algo delicado, mas, sabemos bem que o que diz respeito à suposta homossexualidade do “rei do cangaço” é preconceito. Lampião não seria menos Lampião se isso fosse considerado verdade a essa altura do campeonato.

Há quem diga que – num momento em que “ser gay” está na moda - o assunto é puro jogo de marketing, a pitada certa para causar polêmica, vender. Pode até ser, mas se Lampião era ou não era gay, pouco importa. O que realmente é proveitoso nessa história é a questão da imagem, da postura e da compostura, da ruptura com rótulos e estereótipos. Mesmo que Luiz Mott afirme que o cangaceiro “sabia bordar, costurar, adorava perfumes, usava lenços de seda francesa e não sei quantos anéis nos dedos” (o que, sabemos, são hábitos culturalmente associados à identidade feminina), sua fama veio pela masculinidade, pela violência dos seus atos como o “senhor do Sertão”, pela virilidade muito bem traçada em quase todos os textos que o descrevem. Se a tal homossexualidade de Virgulino Ferreira da Silva se confirmasse, comparações clichês como as que são feitas entre gays e donzelas cairiam por terra. Ao contrário do que as novelas e os programas de TV exibem, ser gay não é só se vestir e se portar de maneira delicada ou espalhafatosa. Na literatura há inúmeras histórias que ressaltam a imagem agressiva, robusta e imponente de homossexuais. Vide exemplo: Benvenuto Cellini, Lorde Byron, Oscar Wilde, James Baldwin e tantos outros. Mas infelizmente, muitas vezes, isso é deixado de lado. Pra mim, isso sim é ferir a honra!

Talvez, antes de se preocupar em censurar uma obra como a de Pedro de Morais, a família de Lampião deveria se preocupar é com a maneira distorcida com que homossexuais em geral são vistos em nossa sociedade. É daí que parte o preconceito. Já é tempo de rever os conceitos. Estamos no século XXI. O sertão é outro, os lampiões também!