quinta-feira, 24 de novembro de 2011

ColunaZs – “Senta que lá vem a história...” (Literatura e Homossexualidade)

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Quando Valmique gentilmente me convidou para ser colunista do Muza, eu já sabia exatamente sobre o que tratar: literatura. Tenho uma bagagem considerável sobre o assunto, além atuar, atualmente, como poeta, performer e educador. Mas a grande questão que muito me incomodou durante um certo tempo foi: como abordar o tema? Certo de que não conseguiria fugir totalmente dos “clichês”, pensei em explorar aquilo que é menos divulgado, aquilo que vem menos à tona nas rodas de discussão, aquilo que está à margem pela própria marginalidade.

Hoje, no Brasil, quando se toca no assunto, imediatamente surgem nomes como Caio Fernando Abreu, João Silvério Trevisan, Valdo Motta... Mas há uma infinidade de outros nomes e questões que merecem a devida atenção. Para começar, já como um exemplo, aponto uma necessidade excessiva por parte de alguns críticos em esconder ou refutar qualquer argumento que alterque ou comprove a homossexualidade de escritores renomados - como João Guimarães Rosa, Mário de Andrade, Pedro Nava, entre outros - como se essa atitude de alguma forma fosse diminuir a importância de suas obras. Será que a literatura está mesmo distante da vida privada? Será que para ter nome é preciso agir como a maioria? Será que o que importa mesmo é o que pensam os demais? Se Shakespeare fosse assumidamente gay, sua obra não resistiria ao tempo? Minha atitude aqui, então, é muito mais questionadora do que afirmativa, mesmo que minha opinião permeie, direta ou indiretamente, cada parágrafo.

Apesar da experiência da homossexualidade ter sido denegada por tanto tempo, é impossível dizer que não existe uma literatura de característica homossexual, ainda que considerem a definição um tanto quanto equivocada ou unilateral. Sabemos que o olhar do homossexual tende a ser um olhar das margens. Arnaldo Jabor já nos atentou para isto quando disse que o gay [eu diria o homossexual, por questões meramente políticas] percebe o mundo de maneira a iluminar a loucura atual por ângulos que só um olho de terceira margem é capaz de perceber. A abordagem dos escritores homossexuais está sempre muito vinculada às suas experiências particulares, ainda que esteja versando sobre temas aparentemente distantes daquilo que vivem. Por outro lado, é relevante destacar casos como o da escritora Hilda Hilst que, mesmo tendo uma vasta obra inspirada na temática, a homossexualidade, até onde se sabe, nunca fez parte das suas relações sexuais e/ou afetivas.

Deneval Siqueira de Azevedo Filho afirma que o que caracteriza a “literatura homossexual”, mais do que o conteúdo, é a assinatura do autor que imprime ali [na obra] sua experiência pessoal e coletiva, cultural e heteróclita. Ou seja, há um modus scriptum [modo de escrever] que, num momento ou outro, ressalta a identidade do autor e/ou do texto.

De acordo com Antônio de Pádua Dias da Silva, é interessante entendermos que, muito além de um tipo de arte feita por, para e sobre homossexuais, estamos falando de um bem material e simbólico capaz de registrar “tensões, problemas, frustrações, desejos, formas de amar, de sentir, de se expressar, de se emocionar, de enfrentar o dia a dia do sujeito humano que é filtrado pelas vozes narrantes dos textos na perspectiva de personagens gays”. Aproveito este trecho, inclusive, para justificar o uso, sempre que necessário, da expressão “literatura de característica homossexual”, e não “literatura gay”, como normalmente é usada e tem sido questionada nos mais variados níveis em diversos estudos.

Os registros sobre a prática sexual e afetiva entre pessoas do mesmo sexo datam de milênios, sendo mencionada até mesmo na Bíblia e em alguns textos da Antiguidade clássica, claro que em seus devidos contextos.

Assim como todo e qualquer registro, entendo a literatura de característica homossexual como um documento importante não só para que compreendamos anseios, angústias e tragédias do passado, mas também para que tenhamos subsídios para relatarmos nossas experiências no presente e deixá-las como herança para as gerações futuras. A literatura, como um retrato de determinada época, muito além das ficções e utopias, assume papel fundamental no registro da cultura que, difundida e compartilhada, contribui para modificar o olhar das pessoas e torná-las capazes de refletir, atuar e agir sobre ela.

*Hugo Lima é Performer, educador e poeta!