quinta-feira, 20 de outubro de 2011

ColunaZs - “O problema do exorcismo da homofobia”

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Depois de ler o texto da Becha Má, de 4 de outubro, intitulado “Aceitar faz parte”, queria sair um pouco da análise do discurso de perfis, que é o que tenho usado desde que comecei a escrever para o Muza, e tratar de outros discursos, mas sem fugir da minha área.

Aceitar realmente faz parte. E incluiria também um pronome reflexivo ao verbo: aceitar-se. E hoje em dia está muito de moda aceitar o diferente, estando ele longe ou perto. Ainda bem, pois nesse caso eu me saí muito bem sendo aceito em vários lugares e contextos, mesmo sendo diferente de um padrão social, principalmente no âmbito da sexualidade (embora eu ache que ela não seja determinante do meu caráter, da minha profissão, do meu gosto musical e de outros âmbitos e contextos nos quais eu não precisaria assumir meu desejo sexual por outro homem). Aceitar-se na condição de diferente de um padrão é realmente doloroso devido, entre outras razões, como lembrou brilhantemente a Becha Má, ao autopreconceito (que só é “auto” quando a pessoa tem consciência de si mesmo, o que provavelmente leva a muitos se negarem o rótulo de gay – lembrando que assumir a sexualidade é muito mais que perceber um pouco do seu desejo: é adentrar-se também a um sistema de nomenclaturas, títulos e clichês muito marcados socialmente e nem todo mundo quer e concorda com isso).

Enfim, tratar da aceitação dos gays (ou homossexuais, agora tenho até receio de taxar) hoje em dia é algo que realmente precisa ser feito, não apenas na mídia, mas principalmente nas escolas e, se não for utópico, nas famílias. Longe de ser uma doença, a homossexualidade (ou homoafetividade – adoro as diversas palavras referentes ao nosso universo) tem se “alastrado” nas famílias. Não que seja recente, mas tem sido mais comentada, dita, se transformou mais em assunto (nem que seja em forma de piada). E numa tentativa bem didática, nós mesmos, ou os ‘S’ excluídos da sigla démodé sigla GLS, tentamos convencer, quase que em forma de exorcismo, que somos “beautiful in ‘our’ way”, que “we are who we are” e vários etcéteras cantados e repetidos. E mesmo assim tem gente que não aprende.

E aí nesse ponto eu deixo minha observação: numa tentativa de exorcizar a homofobia e pregar o acolhimento aos homossexuais, um gay (acho que ele não se importaria de receber esse rótulo) que observei (e analisei na minha vida, como acabo fazendo por força do hábito) sofreu com a falta de amparo de sua sexualidade na própria família. Não digo violência, xingamento ou algo do gênero. Um simples “não quero saber disso” já pode ser doloroso, principalmente se um dos maiores méritos na vida dessa pessoa é semear a igualdade por meio do saber. Mas acho que sua frustração familiar não lhe trouxe outros possíveis méritos: ao invés de respeitar a diferença (nesse caso a diferença é o pensamento divergente de alguém que, provavelmente por questões familiares, sociais e religiosas, não consegue aceitar a diferença sexual dele) esse gay preferiu insistir a través de falas repetidas e de demonstrações de sua sexualidade no seio de sua família, a qual não vê isso com bons olhos. Para mim, isso também é intolerância com a diferença, já que estamos num momento em que aceitar as homossexualidades é politicamente correto, e alguém que não consegue viver com essa diferença por questões pessoais precisa também sofrer com um ente tão próximo “jogando” na cara dele algo do tipo “engula minha sexualidade” (por motivos de extensão do texto, prefiro não adentrar no possível questionamento “mas jogaram a heterossexualidade na minha cara por toda minha vida e ainda o fazem”, que existe e deve ser considerado).

Sim, eu acho a homofobia um crime. Repudio quem discrimine, principalmente por meio da violência, um homossexual. É triste, para mim, uma família que não aceita um parente pela orientação sexual. Mas descobri que também existe, vez ou outra, um problema no exorcismo da homofobia: o exorcizado pode sofrer, e saber respeitar essa dor é uma demonstração humana que devemos aprender se não queremos machucar aquele que talvez ainda não esteja preparado para viver a diferença. Porque abrir a cabeça não é fácil, imagina então aceitar algo em si ou no outro que sempre lhe pareceu errado! Há pessoas que não se convencem facilmente com a racionalidade e a realidade nuas e cruas: elas sofrem.

* Texto de Daniel Mazzaro Vilar de Almeida, mestre em Linguística Textual. Sua monografia pode ser lida clicando aqui!