segunda-feira, 3 de outubro de 2011

ColunaZs – “Da carne às emoções”

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Depois de um longo e tenebroso inverno... Vamos voltar a falar do Discurso Gay?

Bom, lembram-se daquela imagem que nós criamos de nós mesmos e do outro quando nos desenvolvemos numa interação comunicativa? Pois então, vimos alguns temas nos textos anteriores quando analisamos perfis de um site de relacionamento homossexual. E dentro de cada tema, outras ramificações são possíveis. Na coluna de hoje vamos analisar um perfil que trabalha com a emoção.

Quando falamos de emoção no discurso, nos referimos às estratégias conscientes ou não de levar o ouvinte/leitor a experimentar determinados efeitos emotivos. Isso acontece sempre: a escolha da palavra cruel ao descrever um assassinato em uma notícia, por exemplo, já deixa pistas dessa emotividade discursiva. Imagina então em um perfil de site de relacionamento, né? Veja esse:

“Prazer é algo que sei proporcionar muito bem, assim como sou bom ouvinte, conselheiro e companheiro. Meu corpo não estamparia capas da Men's Health, mas isso não quer dizer que com ele eu não possa fazer um homem gemer bastante. Sou universitário, muito educado, inteligente e simpático. Sou discreto, bem vestido e honesto. Mas tudo isso tem um porém, não posso e nem quero agradar a todos. Quero apenas quem sabe valorizar muito mais que músculos e rostinho bonito! Ah, o tamanho? São 20cm como pode ver na foto. Tenho fotos de rosto também, e sou ativo e somente ativo. Aguardo contato. Obrigado”

O autor do perfil não apenas descreve seu corpo, mas também o mostra nas fotos, de forma que esse meio imagético pode comprovar, de certa forma, o que ele afirma.

Quanto ao texto, o participante constrói sua imagem a partir de argumentos estabelecidos de forma a se contraporem. Por exemplo, “prazer é algo que sei proporcionar muito bem” X “sou bom ouvinte, conselheiro e companheiro”, “meu corpo não estamparia capas da Men’s Health” X “isso não quer dizer que eu não possa fazer um homem gemer bastante” e “sou universitário, muito educado, inteligente, simpático, discreto, bem vestido e honesto” X “não posso nem quero agradar a todos, quero apenas quem sabe valorizar muito mais que músculos e rostinho bonito”

Nas construções, o participante parece propor retificações para diminuir (ou aumentar) a força do seu discurso. Assim, o que se infere de “prazer é algo que sei proporcionar muito bem” poderia ser, dentre várias possibilidades, a promiscuidade, o que é retificado por “sou bom ouvinte, conselheiro e companheiro” guiando a inferência para outro caminho: o da não promiscuidade. O mesmo acontece quando fala do seu corpo: infere-se que não é bonito o bastante para estampar a revista de saúde Men’s Health, embora “na prática” seu corpo proporcione prazer. No outro caso, infere-se que todas as qualidades listadas (universitário, educado, inteligente etc.) podem não ser suficientes para agradar a todos, pois parece que o mais importante para os que frequentam o site de relacionamento é procurar alguém com músculos e rosto bonito, o que ele assume ter.

Com essa estratégia, o participante pretende suscitar emoções positivas no seu leitor ao argumentar que o prazer que o corpo proporciona, os músculos e o rostinho bonitinho são facetas negativas de sua imagem, mas que se compensam com outras facetas positivas, que são exatamente a emoção: ser bom ouvinte, conselheiro, companheiro, universitário, muito educado, inteligente, simpático, discreto, bem vestido e honesto. Tais qualidades fazem parte, curiosamente, de um ideal romântico amplamente difundido sobre a relação homem-mulher: as mulheres desejam um “príncipe encantado”: bonito, inteligente, carinhoso, bom ouvinte, compreensivo... além de um bom amante, claro! E o participante, nesse último caso, conseguiu criar uma imagem muito boa para agregar ao público mais interessado em aventuras sexuais, principalmente por meio das fotos.

É interessante observar que ao prazer e à exposição do corpo é dado o status de negativo e sua aparição no perfil desse site se retifica por meio de atributos positivos relativos ao relacionamento afetivo.

Nada muito diferente do comportamento dos heterossexuais e também dos pensamentos que estes têm dos homossexuais. E a vida é assim: reproduzimos, ainda que pensemos que somos inéditos.

Texto de Daniel Mazzaro Vilar de Almeida, mestre em Linguística Textual. Sua monografia pode ser lida clicando aqui!