terça-feira, 31 de maio de 2011

ColunaZs – “Brincando de gay friendly”

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Brincando de gay friendly
por Becha Ma*

Gay friendly é uma expressão que eu odeio, com todas as forças. Se existem lugares, pessoas, “gay friendly” é porque existem os “gay haters”. Não deveriam existir lugares gay friendly, todos deveriam ser locais de respeito a diferença, mas isso é outra conversa. Hoje eu quero falar de quem “brinca” de gay friendly, é quase um retorno ao texto “Pra fora do closet”, só que o hoje o tema é mais amplo, é o preconceito velado de forma geral.

Vivemos em um país de preconceito velado, seja ele qual for, e seja ele onde for. Nosso maior exemplo são as novelas - que finalmente estão cedendo, mesmo que lentamente – que insistem em mostrar casais homossexuais que apenas se abraçam no lugar de se beijar e que, estranhamente, entrelaçam os dedos ao invés de fazer sexo. Talvez pedir uma insinuação sexual ainda seja demais para a mente brasileira, apesar de eu discordar, mas tudo bem. Agora um beijo? O SBT já mostrou um beijo lésbico e tudo indica um beijo masculino a caminho, mas e a tão querida Globo, ela ainda é a maior emissora do Brasil e uma das maiores do mundo, e incontestavelmente a nossa maior produtora de novelas, minisséries e afins. “A Globo brinca de gay friendly”, não lembro quem foi que fez essa declaração, mas foi ela quem me inspirou a fazer este texto. Temos muitos filmes gays, bem feitos inclusive, com beijos, alguns com ótimos enredos e atuações, mas a maioria absoluta é underground. Os personagens gays “famosos” ou são caricatos, ou são completamente assexuados. Mas então me pergunto, vivemos em uma sociedade tão despreparada para ver beijos gays? O ibope do SBT subiu com o beijo lésbico, e nojo não é desculpa, uma vez que vários gays assistem a beijos heteros e tem nojo do ato, mas mesmo não deixam de ver o romance.

E a brincadeira não é só na mídia – e na mídia ela não se restringe a TV –é em todos os lugares, as pessoas dizem que aceitam, que não tem preconceito, mas na pratica a história é outra. “Pode até ser gay, mas não perto de mim” Tipo... WTF? Porque não perto de você? Vai passar doença, vai te transformar em gay? E ainda tem aqueles que batem porque “ele estava muito mulherzinha, ensinamos uma lição pra ele”, pra esse eu vou ensinar uma lição ao estilo BM de ser...

E ainda tem a bendita da “tolerância”, que nada mais é do que a covardia pra assumir a porra do preconceito. Tolerar é não gostar, mas deixar por isso mesmo, resmungar pelos cantos, xingar em silêncio. O que é tão ruim quanto expressar em voz alta, o preconceito não está só na ação, ele também é maléfico enquanto pensamento. E mais cedo ou mais tarde esse pensamento também vira ação.

Acontece que as pessoas brincam de gay friendly, brincam de respeitar, fazem de conta, o problema é que toda brincadeira acaba, e quando essa brincadeira acaba é a violência que toma seu lugar.

Que tal largar esse brinquedo capenga e amadurecer um pouco? Crescer, respeitar de verdade. Já passou da hora.

* Becha Má é twittera toda trabalhada no veneno purpurinado. The Bitch says: follow my ass!