sexta-feira, 29 de abril de 2011

ColunaZs – “Politicamente correto?”

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Politicamente correto?
Por Daniel Mazzaro*




Outro dia reli o artigo que Adriano Silva escreveu para a revista Época em 2008** e fiquei ainda mais pasmo com a inocência dele de achar que pertencer a uma minoria discriminada criasse no sujeito anticorpos que o impedissem de discriminar. Que nada! Seria muito politicamente correto agir dessa forma. Não somos todos capazes disso!

Ser politicamente correto é levar conta que há um processo aberto, em construção, tenso e incerto, que nos leva a constantes (re)negociações de sentidos e valores. É algo como hoje ver que é extremamente necessário fazer sexo com camisinha e até mesmo grupos religiosos, outrora contrários, aceitarem esse recurso. No entanto, é nesse processo que, inúmeras vezes, se veem contradições.

Já comentamos um pouco sobre os estereótipos dos gays/homossexuais na nossa sociedade, que varia desde o afeminado que nega seu órgão genital, passando pelo “demente” que frequenta determinados ambientes para exteriorizar sua “doença”, ou pelo promíscuo que não lhe importa com quem esteja desde que ofereça um sexo memorável (e um nome na lista de contatos), até o extremamente discreto e frustrado, ou o recalcado, ou o sensível e inteligente. Fugir de alguns desses estereótipos também pode ser uma arma interessante na busca de um parceiro. Para mim, um exemplo clássico seria esse:

“Tenho 20 anos, sou moreno, tenho um corpo normal e quero um uma pessoa bem resolvida de 18 a 27 anos. Não precisa ser sarado, mas precisa gostar de se cuidar. Não quero pessoas que têm medo de mostrar o que são, pois pretendo levar um relacionamento sem neuras e medos! Só quero isso e mais nada! To cansado de somente sexo, de estar com qualquer um. Se quiser, pode me ligar pra gente conversar antes de se conhecer.”

Esse discurso é bem diferente de outros que vimos. Evita, por exemplo, enfatizar uma preocupação com o físico, mas não dispensa aqueles que não se cuidam, isto é, provavelmente a pessoa não curte os muito magros e muito gordos. Suas exigências entram no âmbito mais da personalidade, pois o participante não quer “pessoas que têm medo de mostrar o que são”, já que sua finalidade é “levar um relacionamento sem neuras e medos”. Finalmente, afirma que está cansado de encontrar pessoas apenas para sexo e propõe formas de entrar em contato com ele. Sua própria imagem é construída com base em valores cultuados pelo “padrão da moral e dos bons costumes”, como ter um relacionamento sério e não ser promíscuo.

Mas nem tudo é tão simples assim. Esse discurso politicamente correto acaba sendo contraditório, começando pelo nick name escolhido pelo participante: Sonhodeputa. O estereótipo da prostituta desliza e se choca com o que se constrói nesse discurso, assim como as fotos que o participante escolhe para ilustrar seu perfil: das 10, 8 mostram seu pênis, em uma ele está apenas de short deitado no sofá e a outra de cueca mostrando o volume que seu órgão genital deixa na roupa. A partir das fotos, outra imagem é construída e esta se opõe àquela apresentada no texto.

Na tentativa de desconstruir ou criar um efeito de que está desconstruindo estereótipos gays, o participante acaba por se contradizer com o que mostra. É como fazer campanha de camisinha e se contaminar com a AIDS por transmissão sexual por não querer usar preservativo. É como ser discriminador embora pertença a um grupo discriminado.

É que entre dizer ou sentir ou pertencer e atuar existe um grande fosso que não é visto pela pessoa com a mesma profundidade que para os outros.




*Texto de Daniel Mazzaro Vilar de Almeida, Professor e pesquisador de Espanhol e Português. Sua monografia pode ser lida clicando aqui!


**Os gays que envergonham os gays, disponível em http://revistaepoca.globo.com/Revista/Epoca/1,,EMI5891-15230,00.html Acesso: 01/03/11.