O entrevistado: Sérgio Viula
Há uma semana a novela “A Favorita”, exibida pela Rede Globo, chegou ao fim. E uma de suas polêmicas na reta-final foi o personagem Orlandinho, interpretado pelo ator Iran Malfitano, que divulgou de forma, no mínimo equivocada, a figura do “ex-gay”. Tanto, que a própria emissora exibiu uma matéria em seu programa Fantástico sobre se é possível ou não existir o “ex-gay”. Clique aqui para ver a matéria.
Para elucidar a questão o MUZA BLOG traz uma entrevista exclusiva com Sérgio Viula*, um dos entrevistados na matéria exibida pelo Fantástico. Sérgio é gay assumido, vive um relacionamento estável com outro homem há aproximadamente dois anos, e é responsável pelo blog “Fora do Armário”, com voltados para assuntos gays. Entretanto, Viula também já foi pastor evangélico e um dos fundadores do Grupo MOSES (Movimento pela sexualidade sadia), também evangélico, especializado em recuperação dos gays.
Confira abaixo a entrevista na íntegra, na qual compartilha sua experiência de vida e visão de mundo, sobretudo sobre a homossexualidade e a relação homossexualidade e religiosidade. E claro, deixa sua opinião sobre o personagem Orlandinho e responde o que diria a alguém que se auto-denomina “ex-gay”:
Como foi para você, em sua vida, assumir sua homossexualidade?
Assumir minha homossexualidade foi um processo longo. Fui criado para rejeitar a orientação homossexual. Meus familiares sempre foram muito tradicionais e religiosos ao mesmo tempo. Ter vivenciado grande parte de minha vida na igreja só fez complicar as coisas. Quando finalmente decidi assumir publicamente minha homossexualidade foi doloroso. Muita gente não entendeu, rejeitou, perseguiu. Mas nenhuma dor dura pra sempre. Eu decidi manter minha decisão e seguir em frente. Alguns compreenderam e aceitaram. Outros ainda têm uma ou outra dificuldade com o assunto, mas meu relacionamento com meus pais melhorou muito nos últimos meses.
Você é evangélico e já chegou a ser pastor. Como você lidava/lida com sua homossexualidade e a religião que você segue? Considerando que a religião evangélica considera a homossexualidade um pecado.
O Fantástico cometeu um erro. Eles não deixaram claro que eu FUI evangélico e pastor. Não sou mais crente. Minha renúncia a religiosidade antecedeu minha decisão de assumir a homossexualidade. Foram duas coisas distintas, mas que aconteceram muito próximas. Muita gente confunde as coisas e pensa que gay não pode ser religioso ou que religioso não pode ser gay. Eu tenho vários amigos gays que freqüentam igrejas que os aceitam como são. Há outros que ficam enrustidos nas igrejas mais tradicionais. Eu não tenho nenhuma filiação religiosa atualmente. É preciso que fique claro: sou ateu. Poderia ser crente e gay. Fui convidado para ser pastor de uma igreja inclusiva. Mas, não tenho qualquer motivação para atuar como pastor hoje. É preciso acreditar muito sinceramente ou ser um hipócrita muito talentoso para ser pastor. Eu era daqueles que acreditavam muito sinceramente, mas a Bíblia não resiste à menor análise crítica genuinamente isenta. Só existem duas pessoas que acreditam na Bíblia: aquelas que não a conhecem bem e aquelas que fazem vista grossa para suas incontáveis contradições e doutrinas absurdas ou absolutamente incompatíveis com o bom senso (falando minimamente). À medida que ia conhecendo mais profundamente o texto bíblico, a teologia, a história da formação da Bíblia, dentre outros assuntos correlatos, ia vendo as discrepâncias. A mesma sinceridade que me levou a crer na Bíblia não pode se calar diante das evidências contra ela contidas nela mesma.
Você já participou do Grupo evangélico MOSES (Movimento pela sexualidade sadia,) especializado em recuperação dos gays. O que fez você participar do grupo? Como era o funcionamento dele?
Eu fui um dos três fundadores do MOSES, depois vieram muitos outros colaboradores, e quando o MOSES finalmente ganhou estatuto de pessoa jurídica, eu passei a fazer parte do Conselho de Referência junto com outros pastores. Entretanto, minha participação excedia o raio de ação do Conselho de Referêcia. Atuei pregando, escrevendo artigos, folhetos, organizando eventos de "evangelismo" a homossexuais (inclusive na Parada Gay do Rio), fazendo aconselhamento. Minha primeira igreja contribuía mensalmente para o sustento do MOSES. Fui o primeiro a levar um ônibus cheio de gente da minha igreja para evangelizar com a equipe do MOSES no Miss Brazil Gay de Juiz de Fora. E por aí vai.
Como você decidiu sair do Grupo MOSES? Como você avalia essa experiência hoje?
Saí por uma questão de racionalidade, honestidade e coerência. Racionalidade, porque não fazia sentido tentar modificar a orientação sexual de ninguém. Honestidade, porque eu mesmo não estava vendo modificação genuína na minha vida. O que havia era simplesmente repressão e não "reorientação" sexual. Coerência, porque depois de ver tanta gente que passou pelo MOSES permanecendo na mesma situação ou em situações mais complicadas do que antes, seria totalmente incoerente continuar afirmando o que eu acreditava e mantinha como verdade até então, ou seja, que Jesus transforma homossexuais em heterossexuais. Enquanto acreditei nisso, fui veemente. Quando percebi que não passava de um engano, fui mais veemente ainda em contrariar tudo o que havia dito até então. Não podia simplesmente sair calado e indiferente a tudo o que eu mesmo havia ajudado a construir. Eu me sentia impelido a esclacer que razões me levaram a tomar essa decisão. O que cada um fizesse daí em diante já não seria problema meu. O recado havia sido dado. Por isso, procurei a liderança do MOSES, do seminário onde lecionava, da igreja onde era membro e do jornal para o qual escrevia, e pedi desligamento. Deixei claro qual era o motivo.
Avalio essa experiência como uma iniciativa tola por parte de um jovem deslumbrado com o cristianismo e pouco prudente para avaliar o embuste no qual estava se metendo. Também credito muito disso tudo ao tipo de educação que recebi em casa e que foi reforçada na igreja católica (quando era pequeno) e na evangélica (a partir da adolescência).
O personagem Orlandinho, da novela A FavoritaO personagem Orlandinho, da novela A Favorita, na reta-final da novela foi associado a possível figura do "ex-gay". Tanto que muitos outros personagens se referiram a ele como "curado". Baseado em sua experiência no MOSES, como você percebe o personagem Orlandinho?
Eu vejo Orlandinho como mais uma estratégia da Rede Globo para criar polêmica. Fiquei enfastiado com tanta tagarelice daquelas amigas da Céu (interpretado pela atriz Deborah Secco) que ficavam o tempo todo suspirando por ele como se fosse o homem perfeito. Ninguém é perfeito: nem gay nem hétero. No final, o autor (João Emanuel Carneiro) deixou tudo na interrogação. Ninguém sabe mais se ele é gay mesmo, hétero de fato ou bissexual. Se for bissexual, isso talvez explique a atração dele pelo Haley (interpretado pelo ator Cauã Reymond) e pela Céu em diferentes momentos da novela.
Você acha que o personagem Orlandinho foi bem construído, desenvolvido? Acha que é uma boa representação da sexualidade?
Não. Acho que é caricato. Acho que é mais um personagem para fazer rir. Ele é totalmente estereotipado. Quando age como gay, faz a bichinha. Quando age com hétero, faz o machão. Ambos os extremos são meros estereótipos. Homossexuais e heterossexuais estão muito distantes de tudo isso. Pode haver um caso aqui ou outro ali que se encaixe no estereótipo, mas as pessoas, de um modo geral, continuam sendo incapazes de enxergar além do estereótipo ou mesmo através dele.
Baseado na experiência do MOSES, você acredita ser possível existir o "ex-gay"?
Ex-gay pra mim é lenda urbana. É mito. Pode haver o caso de algum bissexual muito mais tendente à heterossexualidade do que à homossexualidade que venha a ficar feliz com uma relação exclusivamente heterossexual. Se isso acontece, ele não pode dizer que é ex-gay. É apenas um bissexual que se sente muito satisfeito com alguém do outro sexo, ao ponto de não sentir falta angustiante de alguém do mesmo sexo. Agora, o homossexual de fato, ou o bissexual que tem desejo por mulher e homem em medidas semelhantes, ou que tende mais para o seu próprio gênero do que para outro, jamais ficarão satisfeitos e dificilmente serão fiéis numa relação exclusivamente heterossexual. Ex-gay é mito, repito.
Você participou de uma matéria exibida no programa Fantástico, da Rede Globo, sobre esse mesmo assunto. Na minha opinião ficou um embate antigo entre religião e ciênica, o que considerei desnecessário. Poderia inclusive ter entrevistado o autor da novela. O que você achou do resultado exibido na matéria?
O resultado me surpreendeu positivamente. Muita gente elogiou minha participação, apesar do Fantástico ter veiculado muito pouco da entrevista que foi feita. Acho que os religiosos tiveram tempo demais. Um pastor, um padre e um membro de igreja!!! Espero que um dia a televisão consiga encarar o assunto levantando uma série de aspectos, quais sejam: emocional, afetivo, biológico, cultural, histórico, social, civil, etc.
Você já foi casado e inclusive tem filhos. Como você avalia essa sua "experiência" heterossexual em relação a sua homossexualidade?
Fui casado por 14 anos e tive dois filhos. Encaro minha experiência heterossexual no casamento com relativa tranqüilidade. Por um lado, angustiava-me não poder dar curso à minha homoafetividade. Por outro lado, vejo a experiência de casar com uma mulher como fruto de um enorme condicionamento sem qualquer efeito sobre minha homoafetividade em si. Lógico que adorei ser pai. Mas muitos gays são pais sem terem casado com uma mulher. Outros são pais, casados com mulher, e enrustidos pelo resto da vida. Quando percebi que, apesar do meu relacionamento com minha ex-mulher, continuava angustiado por desejar uma relação homoafetiva, decidi dar a ela uma chance de refazer a vida ainda jovem e a mim, idem. Foi doloroso, mas foi muito melhor. Meus filhos são preciosos. Entendem tudo o que aconteceu. Compreendem meu estilo de vida atual, finalmente adequado à minha homoafetividade. Eu amo os dois (filhos) intensamente e sinto a mesma coisa da parte deles.
O que você diria para alguém que lhe dissese "eu sou ex-gay" ou "eu não quero mais ser gay"?
Se me dissesse "eu sou ex-gay", eu poderia dizer (não necessariamente diria) que eu também já disse a mesma coisa um dia. Se a pessoa me dissesse "eu não quero mais ser gay", eu perguntaria "por quê?" e a partir das respostas procuraria avaliar o que a leva a se auto-rejeitar. Se a resposta fosse pressão social, medo da rejeição familiar, crenças religiosas, ou coisas parecidas, eu faria o possível para demonstrar que estas coisas não precisam ser encaradas assim. Há outras vias. O pensamento viciado em pensar a partir do preconceito pode ser reestruturado, tornando-se capaz de pensar a partir da liberdade e da responsabilidade pelo próprio destino.